Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



domingo, 21 de fevereiro de 2010

Meu aniversário

Ontem foi meu aniversário. Nada a comentar sobre isso, até porque este ano eu estou ficando MUITO mais velha do que o normal...Deixa isso pra lá ! Eu só queria dividir tudo o que eu desejo na minha vida, hoje. Foi vendo um DVD de música com o Leo, um tributo de vários artistas a George Harrisson, que eu me deparei com uma das músicas que eu mais gosto na vida, há muitos anos, mas que hoje me tocou diferente, parece que ele fez para mim! A letra é de uma simplicidade, a melodia é emocionante, e é o que eu pediria a Deus hoje, caso eu tivesse certeza que Ele existisse e estivesse me ouvindo, para suplicá-lo por paz e amor neste vida.

Give Me Love

Give me love, give me love
Give me peace on Earth
Give me light, give me life
Keep me free from birth
Give me hope to help me cope
With this heavy load
Trying to touch and reach you
With heart and soul

My Lord
Please, take hold of my hand
That I might understand you
Won't you please, oh won't you

My Lord
Won't you please, oh won't you


A tradução:

Me dê amor, me dê amor
Me dê paz na Terra
Me dê luz, me dê vida
Me mantenha livre desde o nascer
Me dê esperança
Me ajude a lutar, com esta carga pesada
Tentando te encontrar,e tocar com coração e alma

Oh, meu Senhor . . .
Por favor, agarre minha mão, que
Eu teria o poder para te entender
Por favor não se vá.

Oh, não se vá…
Oh, meu Senhor . . .

Carnaval

Carnaval para a gente significa simplesmente mais alguns dias para ficar em casa, descansando, mais perto do Felipe. Quando temos oportunidade, caso tenha alguma cuidadora ou avó em casa para fazer companhia à enfermeira, que não pode ficar sozinha com Felipe em casa, nós aproveitamos para pegar uma praia. E foi o que aconteceu na terça-feira de Carnaval. Fomos à praia à tardinha no Leblon, horário mais tranquilo, com o intuito de encontrarmos nossos queridos amigos Claudia e Afonso, que sempre nos falam para tomarmos a melhor caipirinha no quiosque que eles frequentam.
Ficamos pouco tempo na praia propriamente dita e quando eles nos ligaram, fomos logo encontrá-los no tal quiosque para bater um papo, arejar a cabeça, aproveitar que saímos um pouco de casa. As ruas do Rio estavam lotadas de gente indo para blocos, e ouvíamos do quisque ao fundo algum bloco que devia estar na Delfim Moreira, em algum lugar meio longe. Não ali. E nós calmamente colocando o papo em dia com nossos amigos, assim como todos que estavam sentados naquele quiosque. Com exceção de uma jovem senhora, muito "alegre", que estava também sentada numa das mesas do quiosque, mas que resolveu se levantar com um saco de confetes na mão. Junto com uma garotinha que ela instruía, começou a encher as mãos de confete e jogar diretamente na cabeça das pessoas que estavam calmamente curtindo um fim de tarde no calçadão, começando por nós. Não era aquela coisa de jogar para o alto não, era bolo de confete diretamente na cabeça das pessoas. Jogou primeiro na Claudia, e quando encheu as mãos e jogou um monte na minha cabeça, eu fiz que não queria. A resposta dela foi algo como "peraí, é Carnavaaaal, você tá no Rio de Janeeeeiro, relaaaaxa !" No que eu respondi que isso não dava a ela o direito de jogar um saco de confetes na minha cabeça. Aí é que ela jogou mais mesmo ! Pois eu tinha acabado de receber do garçom minha água gelada para beber, e tudo que consegui fazer foi abrir a garrafa e jogar quase toda a água na cabeça dela, dizendo "É Carnaval ! Aproveita! "
Neste momento ela não podia reclamar, ficaria incoerente...então fez que achou aquilo uma maravilha, continuou jogando confetes no Leo, que educadamente pediu só para ela poupar sua capirinha, e depois saiu contando para todos em sua volta como ela era legal e alegre no Carnaval, e aquela mal humorada ali do lado (eu !) ainda jogou água na cabeça dela, mas ela adorou, porque afinal é Carnavaaaaaal !
Enfim, foi um cena patética, mas não deixou de ser engraçada. As pessoas são muito sem noção, e acham que a alegria delas, ou no caso desta jovem senhora aloirada, a bebedeira delas, tem que ser compartilhada com qualquer cidadão que coloca (ou mantém, no meu caso) os pés no Rio de Janeiro no Carnaval. Dá muita vontade de chamar pessoas assim para 5 minutinhos de explicação da minha vida e da dificuldade em eu ter conseguido aquele momentinho de prazer, longe dos blocos de Carnaval, mas achei melhor deixá-la pagando seu mico sozinha e me preocupei em não deixar o ralo entupir na hora do banho, de tanto confete que saía de mim !

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Momento perfeito

Todos os dias quando chego do trabalho, e após o "jantar" do Felipe, é o meu momento com ele, é a hora que ficamos juntinhos, sem pressa, sem movimento de gente em casa. Tem dias que este momento é "especialmente especial", assim mesmo, bem reduntante...Hoje foi um desses dias. É muito difícil ficar sozinha com o Felipe. Nada contra todos os que cuidam dele, muito pelo contrário, não tem como ser diferente, mas é que às vezes realmente é difícil ter um momentinho sozinha com ele. Hoje peguei ele no colo na poltrona e ficamos "conversando" por muito tempo, curtindo o entardecer lá fora. A tia Janete estava lá pra dentro fazendo as coisas dela, lanchando, sei lá. E foi ficando noite, o quarto escurecendo, só a luz do entardecer, cigarra gritando naquele calorão lá de fora, e nós dois agarradinhos, num fresquinho maravilhoso do ar condicionado (fundamental nesses últimos dias !) numa sintonia tão perfeita. Eu canto sempre pra ele a música que cantava pra ele na gravidez: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar....” E na minha loucura, eu sempre acho que ele reage quando eu canto. Me deixem achar, por favor ! Eu simplesmente fiquei o tempo todo olhando para ele. Como é possível amar tanto assim ??? Meu coração às vezes parece que vai explodir de tanto amor ! Não consigo parar de olhar e admirar cada pedacinho dele. Ele é todo perfeitinho, que filho lindo que nós fizemos, eu não me canso de pensar! Quanta inocência, e quanta paz, dentro de tanto sofrimento. Não sei se algum dia alguém conseguirá entender como eu sinto paz ao lado do Felipe. Talvez seja porque ele esteja em paz, tranqüilo, sereno. Não sei, mas a sensação que eu tenho é que meu anjinho dorme um sono tranquilo, que sua alma está em paz. E que ele estava curtinho aquele momento tanto quanto eu...

Exames

Nas últimas duas semanas passamos por uma certa tensão porque, depois dos médicos e fisioterapeutas estarem achando a respiração do Felipe um pouco pior do que o normal, fizemos uns exames que deram resultados ruins, mostrando que ele estava retendo muito CO2 devido à sua respiração muito superficial. Com isso, ele estava fazendo uma narcose por CO2, como se estivesse sedado, "envenenado" pelo gás carbônico. Dr João nos explicou que há um comprometimento do sistema nervoso central, podendo afetar inclusive os outros órgãos, que poderiam começar a funcionar mal ou até parar de funcionar. A solução foi deixá-lo respirar sozinho o mínimo de tempo possível, já que ele não puxa nem solta o ar com pressão suficiente. Passamos a deixá-lo o tempo todo no respirador, parando somente durante as refeições e para o banho. Com isso, ele tem menos mobilidade dentro de casa, mas não tem jeito...
Refizemos o exame uma semana depois e melhorou bastante, só que agora concluímos que ele é mais dependente do respirador do que imaginávamos. Temos que monitorar isso mais de perto a partir de agora.
Fora isso, ele também apresentou uma leve anemia e já entramos com reposição de ferro, o Noripurum.
Quando essas coisas acontecem, me tiram da aparente "normalidade" da rotina do Felipe, eu fico meio transtornada, pensando muito no que vai acontecer com ele, no que pode acontecer com ele. É muito assustador. Não faço a menor ideia e sinceramente prefiro não fazer mesmo. Pensando demais, a gente sofre mais. Mas é tão difícil não pensar...

Cortando o Cabelo












Felipe tem muuuuito cabelo! Tem que cortar toda hora. E ele tinha que ficar bonitão para o aniversário do papai. Mas dessa vez o momento corte foi de um jeito diferente. Descobrimos uma nova utilidade para sua cadeira de banho, que é posicioná-lo para cortar o cabelo. Colocamos a cadeira no quarto dele, e tia Neide cortou, enquanto tia Carmem o segurou. Ficou perfeito ! E ele ficou mais lindão !