Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sexta-feira, 30 de abril de 2010

Queimadura

Ontem aconteceu uma coisa horrível com o Felipe, não dá nem para acreditar. Um acidente doméstico, que até poderia acontecer com qualquer um, mas me desculpem, não com o Felipe. Ele sofreu uma queimadura de segundo grau durante o banho, com o chuveirinho que esquentou muito e estava em contato com a pele dele, sem ser notado. Como o Felipe não grita para reclamar, deve ter ficado em contato com a pele dele por tempo suficiente para queimar muito. Eu não estava em casa, fui avisada e fui logo para casa para ver, sem saber da gravidade da coisa. Mal pude acreditar no que vi, quase desmaiei. Queimou muito o punho do lado esquerdo e também o bumbum. O punho está com uma imensa bolha.

A Dra Marcia Vlasman, pediatra do home-care e excelente médica, me orientou pelo telefone ontem e hoje cedinho veio vê-lo, trocar o curativo e tomar as providências.

Com isso, mal dá para mudar o Felipe de posição, por causa do bumbum. Está tomando analgésico de 4 em 4 horas mas hoje está bastante incomodadinho.

Torçam para que isso passe logo, por favor !

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Alarme Falso

Bem, depois de 3 noites seguidas com febre e alguma apreensão o Dr. João descobriu o que está acontecendo, e ainda bem que não é nenhuma infecção respiratória. Trata-se de uma otite média aguda - inflamação do ouvido médio (tadinho), provavelmente causada pelo acúmulo de secreção da tal sinusite que descobrimos na ressonância. Ontem mesmo ele já passou o dia sem febre e, como não podemos bobear, já começou um ciclo de antibiótico para garantir.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Noite difícil

Hoje foi uma noite difícil, o Felipe está com uma febre persistente apesar das compressas e medicações. Fazia muito tempo que isso não acontecia, e estamos bem apreensivos. O curioso é que até agora os outros sintomas que conhecemos e caracterizam uma infecção (virose, gripe ou pneumonia) ainda não apareceram. Sua secreção não está espessa, a coloração é clara, a quantidade está dentro da normalidade das últimas semanas, a saturação de oxigênio está normal e ele não tem demonstrado desconforto. Agora acabou de tomar um banho fresquinho pra baixar a temperatura do corpo. O seu anjo da guarda, o tio João, virá vê-lo e já estamos preparados para a bateria de exames de hábito: sangue (PCR e outros), radiografia, swab (exame da secreção), etc.
Espero que não seja nada sério, apenas uma "ressaquinha" após o título do nosso Botafogo.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bem-vindo à Holanda

Há um tempo atrás eu andava pesquisando sites sobre paralisia cerebral, e me deparei com um texto muito bonito chamado "Welcome to Holland" (Bem-vindo à Holanda), escrito pela mãe de uma criança com Síndrome de Down, chamada Emily Perl Kingsley. Não vou dizer que me enxerguei totalmente dentro deste lindo texto porque infelizmente a vida do Felipe não proporciona a ele, e consequentemente a nós, nenhum momento de felicidade. Mas o texto fala de quebra de expectativa, de frustração, mudança de planos, e isso sabemos muito bem como é. Eu queria mais dividir este texto pensando em pais de filhos especiais, que têm a chance de interagir com seus filhos, de ver um sorriso em seus lábios, e aprender uma nova vida ao lado deles.

BEM VINDO À HOLANDA
por Emily Perl Knisley, 1987

"Freqüentemente, sou solicitada a descrever a experiência de dar à luz a uma criança com deficiência - Uma tentativa de ajudar pessoas que não têm com quem compartilhar essa experiência única a entendê-la e imaginar como é vivenciá-la.

Seria como...

Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias - para a ITÁLIA! Você compra montes de guias e faz planos maravilhosos! O Coliseu. O Davi de Michelângelo. As gôndolas em Veneza. Você pode até aprender algumas frases em italiano. É tudo muito excitante.

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia! Você arruma suas malas e embarca. Algumas horas depois você aterrissa. O comissário de bordo chega e diz:

- BEM VINDO À HOLANDA!

- Holanda!?! - Diz você. - O que quer dizer com Holanda!?!? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu sonhei em conhecer a Itália!

Mas houve uma mudança de plano vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.

A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente.

Logo, você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes.

É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor, começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrants e Van Goghs.

Mas, todos que você conhece estão ocupados indo e vindo da Itália, estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E por toda sua vida você dirá: - Sim, era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado!.

E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora. Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

Porém, se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais sobre a Holanda.
"

Felipe no dia da enchente...curtindo papai e mamãe em casa.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cena de Cinema

Tinha eu 15 anos, sentado na cama, ouvindo o LP Before The Flood de Bob Dylan e The Band, lendo um livro de Zen-Budismo de D.T Suzuki, e ao lado um incenso queimando. Meu pai chega do trabalho, adentra o quarto e diz: “Sinto muito, mas você nasceu na época errada”. Nunca decifrei seu olhar. Mas aceitei a sentença como verdadeira até hoje. Não tive formação religiosa, e até bem pouco tempo, nem sabia o Pai Nosso.

Sempre fui simpático as religiões e filosofias orientais, principalmente o Taoísmo e Budismo, e seus desdobramentos. Também recorro a Confúcio e sua obra, Os Analectos, de vez em quando. Simplesmente, porque nos ensinam, que somos responsáveis pela nossa evolução. Que não existe o “eu” e sim o todo. No Taoísmo não existem seres divinos, santos, apesar de ter uma vertente mística. Seres divinos são homens que alcançaram em vida profunda compaixão e sabedoria. No Budismo alcançar o nirvana é mérito exclusivamente seu.

Houve e há, rompimentos, quebras de paradigmas e realinhamentos profundos em todos nós, depois do Felipe. Acompanho o blog sempre, já escrevi nele, mas me sinto intimidado, tamanha a carga de responsabilidade de expor meus sentimentos, que tenho certeza são minúsculos perto da luta diária de vcs.
Valéria escreveu sobre sua experiência na “Arte de Viver”, que pelo que entendi, não deixa de ser uma prática espiritual, levando-se em conta que tudo que fazemos para um melhor entendimento pessoal e do mundo, é uma prática espiritual.

Logo após 11 de janeiro, confesso que procurei e freqüentei algumas vezes um centro kardecista, apesar de um pouco familiarizado, não me senti confortável. Desde as pessoas que freqüentavam, até seu conceito. Inclusive o passe dado após as reuniões. Simplesmente não explicavam nada, nem achava conforto. O canal estava sintonizado errado.

Sempre fui “religioso”, mas solitário na busca. Não acredito em acaso, e dito e feito: Depois do blog da Valéria, voltei as meus estudos “orientais”. Sexta-feira, 9 de abril, na volta do almoço, fui atropelado (depois vcs vão entender) por um evento promovido pelo CEBBSP (Centro de Estudos Budistas Bodisatva). Estava sendo realizado uma exposição do Buda Shakiamuni e outro grandes mestres budistas, chamada Relíquias do Buda.
“Quando os corpos de mestres espirituais são cremados, entre suas cinzas surgem cristais parecidos com pérolas. Estes objetos são especiais porque guardam a essência das qualidades do mestre. As relíquias são evidências físicas de que ele desenvolveu muita compaixão e sabedoria antes da morte. Elas proporcionam uma oportunidade única de conexão espiritual com seres iluminados.”

Respirei fundo e fui no sábado. Consistia de uma apresentação do projeto, depois uma sala com as Relíquias, um lugar para meditar (ainda medito andando), alguns discípulos nos orientando sobre os procedimentos, como banhar o Buda e tocar o sino com mensagens de compaixão e benevolência. Perguntei se tinha uma prece especial, e um discípulo me lembrou: Não existe você, o que for pedir, peça para toda humanidade. Isso me lembrou um verso Taoista.:

“O sábio não tem coração. Faz o coração de todos, o seu.”

Depois dos procedimentos, recebi a benção de um simpático monge. Impressionante o clima de paz, solidariedade, compaixão, benevolência e felicidade das pessoas. Não tinha vontade de ir embora. Como não existe acaso encontrei na fila uma antiga conhecida do colégio da Marina que é adepta do budismo e recebi um caloroso abraço.

Foi uma das sensações mais intensas que tive nos últimos anos. E na hora de ir embora e me despedir, rolou uma das poucas lágrimas que tenho derramado ultimamente. Quando pisei na calçada, senti que tinha sido atropelado por um caminhão de 200 toneladas !!!!!
tal a intensidade da experiência. E a “culpada” foi a Valéria....rsrsrsr

Só consegui escrever agora, porque ainda estou digerindo o acontecimento. Pena que estava “fisicamente” sozinho, mas vcs estavam comigo banhando o Buda !!!!!


Bjos

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Arte de Viver

Há algum tempo atrás uma amiga muito querida veio me falar de um curso de respiração que ela tinha feito, e que se lembrou muito de mim, que eu deveria fazer, porque iria me fazer bem. Ela não me explicou direito o que era, mas falou dos benefícios desta técnica de respiração para a saúde, mente, para a vida. Eu achei interessante, mas a coisa ficou "adormecida". O curso se chama "Arte de Viver", nome da ONG que o ministra. A ONG está presente em muitos países, e lá fora se chama "Art of Living".

Após um tempo sem nos vermos, esta amiga me mandou há poucos dias um email falando novamente do curso. E eu estava passando por mais uma fase muito ruim de cabeça, acontecimentos ruins, e resolvi ver "qual é", só que desta vez, sem pestanejar, na urgência de alguma ajuda espiritual. Conversei um pouco com ela, mas continuei sem muitos detalhes, que hoje eu entendo que ela fez questão de não me dar.

Poucos dias antes do início do curso, conversando com minha querida prima-irmã-amiga Ana Maria, falei que ia fazer o curso e fiquei muito surpresa e feliz quando ela resolveu fazer também. Fiquei mais segura de ir com ela.

Enfim, o curso começou no dia 25 de março e foram 6 dias seguidos, incluindo o final de semana.
O que eu posso dizer é que desde que o Felipe nasceu foi a experiência mais bacana que eu vivenciei, espiritualmente falando. E é importante deixar bem claro que não tem absolutamente nada a ver com religião, porque quem me conhece ou segue este blog sabe minha opinião atual sobre religião. Mas realmente a ideia principal é passar as técnicas de respiração desenvolvidas pelo indiano chamado Sri Sri Ravi Shankar, que tem como objetivo fazer uma limpeza, de toxinas, de tudo que tem de ruim na sua mente. Não é nada milagroso, é uma técnica, que requer prática.

Mas o curso não é só isso, é uma vivência muito intensa, é uma energia muito especial, e realmente perde a graça se contar (porque eu quero que todo mundo faça o curso !). Se eu soubesse como seria no detalhe, eu não teria feito, por puro preconceito, por falta de vontade de me relacionar com estranhos, mas foi tudo muito mágico e muito bem conduzido por 2 instrutores muito bacanas.

O interessante é que cada um busca alguma coisa quando vai lá. Para mim, o principal, eu consegui finalmente uma forma de acalmar a minha mente. De ficar alguns minutos do meu dia com a mente vazia, sem nada, nada. De me sentir leve. Vocês não têm ideia do que isso significa para uma mente atordoada de dor, tristeza e raiva como a minha. Encontrei uma esperança, não uma solução, que depende de mim (essa é a parte difícil...)

Só que apos o fim do curso, e eu caí numa gripe horrorosa que tá difícil respirar, mas não posso deixar isso passar. Pretendo frequentar os encontros semanais e me aprofundar mais nesta técnica.
Quem tiver interesse, nem que seja de conhecer a ONG, entre no site www.artedeviver.org.br. Vale a pena.