Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tio João fisioterapeuta


Fora o pai, só "circulam" no dia-a-dia do Felipe dois homens, ambos chamados João: o Dr. João, pediatra, de quem já falamos, e o João fisioterapeuta, que entrou há bastante tempo no lugar da tia Camila. Finalmente conseguimos tirar foto dele !
A boa notícia de hoje é que o Felipe estava há algum tempo atrás com uma infecção urinária, que foi percebida pelo odor e cor da urina, nem febre o "tourinho" fez...mas o exame de urina confirmou. Tomou 14 dias de antibiótico e reagiu bem. O novo exame após o tratamento não mostrou mais infecção.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Dia agitado...




















Hoje foi um dia movimentado para o Felipe ! Teve fotos da tia nova, Munique, que está com a gente há quase 1 mês, e já entrou para a "turma". Tia Janete que estava junto ajudando no banho, vovó Helena chegou para visitar...só o tio João, fisioterapeuta, que "fugiu" da foto e prometeu pra amanhã...e tia Neide também, nossa ajudante, que sempre foge das fotos...
No final do dia, Felipe recebeu também visita da tia Vania, que não o via há muito tempo.
Ele tava todo gostoso, recebendo tanto carinho o dia todo...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dia do Amigo

Eu acredito que o dia do amigo é absolutamente todos os dias. Mas há certas datas que servem para a gente parar para pensar, refletir, e por que não, agradecer. Estranho agradecer amizade, mas eu queria sim, agradecer aos amigos antigos, aos novos amigos que surgiram no blog, aos que já existiam e eram distantes mas se aproximaram com a chegada do Felipe, aos que eram mais próximos e se afastaram porque não aguentaram, aos que fazem questão de estar sempre juntos, aos que se afastaram porque não sabem o que dizer, mas fazem questão de dizer isso....enfim, tem tantas modalidades de amigos, e todas são válidas. E ao maior amigo de todos, meu marido ! À melhor amiga de todas, minha mãe ! Apesar da vontade de me esconder numa caverna e desaparecer para sempre, vocês me colocam pra frente sempre. Obrigada !
Estranho dizer isso, logo nesse dia, mas fiquei muito abalada com o que aconteceu com o filho da Cissa Guimarães. Desde que soube da morte do filho dela dessa forma estúpida, fiquei pensando no tamanho da dor que ela deveria estar sentindo. O dia inteiro fiquei com o coração apertado. E o tempo todo me lembrava do tamanho da minha dor quando o Felipe nasceu. Que desespero, dá vontade de ligar, abraçar e dizer que entendo o que ela está sentindo. Sei também que isso de nada adiantaria, mas sei lá. Muito louca essa vida. Tudo vai bem, você está sorrindo, olha pra baixo por um segundo e quando levanta a cabeca se depara com um caminhão em alta velocidade na sua frente, que te pega de frente, acaba com você e muda completamente o rumo da sua vida. Sua vida nunca mais será a mesma, por causa de uma estupidez...
A todos os amigos, e "companheiros" de dor, um abraço maior do mundo !

domingo, 18 de julho de 2010

Friozinho...





Fim de semana chuvoso, friozinho gostoso, e Felipe delicioso cheio de roupa quentinha, coisa que ele nunca usa. Passei o fim de semana grudada nele, mais apaixonada do que nunca...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Para-quedas

Dizem que a mente trabalha melhor, como um para-quedas, sempre aberta. Mas depois de meu ‘encontro’ com ‘budas’, vivo com a mente e o coração abertos, como um grande para-quedas e ando praticando a terapia do abraço. Um abraço que posso dar com o coração e o corpo em qualquer pessoa, e isso é importante. Algumas pessoas se assustam, mas depois que passei a praticar com afinco, os resultados tem sido pra lá de satisfatórios. Na verdade não busco resultado, é uma atitude, um modo de relacionar-se com o mundo, uma escolha, um caminho.
Falando em caminho, descubro três elementos importantes neste caminhar. Os Três Tesouros fundamentais para trilhar o caminho espiritual: Humildade, afetividade e simplicidade. Junto com a mente e o coração abertos a jornada tem sido mais agradável.
Com minha prática, minhas idas ao RJ tem sido uma celebração. Desde a comemoração dos 80 anos de nosso pai, até o fim de semana em que me juntei a Leo, Valéria e Felipe. Encontrei Felipe nos braços da fisioterapeuta, grande, saudavel, cercado de todo carinho e amor que lhe é devido. Depois da Arte de Viver encontro Valéria mais aberta, com o coração maior (se é que isso é possível) e respirando melhor. Mas o intuito da viagem era passar um tempo sozinho com meu irmão, falar, abraçar, confessar e compartilhar coisas que só irmãos sentem, mesmo não pronunciando nenhuma palavra. Relaciona-se através de lembranças e laços, confessamos coisas que só coração de irmão permite. Repito, mesmo sem palavras.
Com aqueles que amamos, temos uma memória do coração e uma memória do corpo. No nosso corpo estão gravadas as memórias do coração.

O que a memória ama, fica eterno - Adélia Prado.

Aos que acompanham o blog, seus seguidores e afins, agradeço o carinho, a solidariedade e o amor que compartilham com Felipe, Valéria e Leo.

Vocês são de minha companhia..

Bjos

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Justica

Alem do processo contra a 'obstetra', temos tambem um processo que corre desde 2007, ano do nascimento do Felipe, que foi contra a empresa transportadora que contratamos por intermedio do hospital, para que pudesse transportar um pedaco do musculo do Felipe do Rio para Ribeirao Preto, para fazer biopsia e analise de uma possivel doenca metabolica.

Este material foi retirado do Felipe durante a mesma cirurgia em que ele fez a traqueostomia e gastrostomia, quando ele tinha 1 mes de vida, e quando tambem foi retirado um pedaco da pele tambem para fins de analise laboratorial. Por recomendacao medica, aproveitamos a anestesia geral, que ja seria dada de qualquer forma nesta cirurgia, para retirar esse material. Nao queriamos nem seria recomendado no quadro dele uma outra cirurgia somente para isto, tomando outra anestesia.

O que aconteceu foi que simplesmente o material (musculo) chegou no local de destino descongelado, improprio para o exame. Transportaram um orgao humano no decorrer de 2 dias (!) usando meios de transporte surreais, e nao colocaram gelo seco nem nada apropriado para o armazenamento durante o transporte. Somente gelo comum no isopor. Ate o vendedor de sorvete na praia sabe que derrete... Ficamos atordoados de ter submetido Felipe a mais um sofrimento em vao. Foi feito um corte grande no bracinho dele, levando alguns pontos para fechar. Ele tem a cicatriz ate hoje. O exame foi substituido por varios outros no decorrer do tempo, que teriam sido desnecessarios.

O processo correu de forma surreal, eu fui inclusive citada como responsavel pelo armazenamento do material no isopor ! Com testemunha apontando para mim e tudo !

Enfim, diante disso tudo, a unica coisa que pretendemos eh fazer justica, eh fazer com que este tipo de erro nao aconteca novamente com mais ninguem, mesmo que a grande vitima para que isso seja possivel seja nosso filho. O mesmo pensamento vale para a chamada 'obstetra' .

Esta semana teve o julgamento final, e ganhamos a causa na justica. O valor eh ridiculo, o tempo para se concretizar idem. Se entrarmos numa de comparar com os valores que tanta gente ganha com causas tao menos nobres, eh uma falta de respeito com meu filho e com a gente, mas enfim, isto nao vem ao caso. Nao mesmo. O que interessa eh que a justica foi feita, e que esta empresa foi penalizada de alguma forma. Ninguem precisa se preocupar em saber o nome da empresa pois, mesmo que queiram, eles nao prestam mais este tipo de servico de transporte...

(desculpem a falta dos acentos, eles nao existem no meu teclado novo, ou eu que nao os achei ainda...)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Meu Pai


Depois que meu pai se foi, tivemos que passar pela dura tarefa de arrumar as coisas dele em casa, suas roupas, fotos, documentos, enfim, aquele momento horrível que muita gente já deve ter passado. E abrindo uma gaveta do escritório dele, me deparei com um monte de folhas com coisas escritas por ele. Meu pai gostava muito de escrever. Era uma especie de diário, iniciado dias após o nascimento do Felipe, e era ora ele escrevendo para o Felipe ou como se fosse o Felipe. Eu não aguentei ler aquilo até o final, era demais... Peguei pra mim, e guardei numa gaveta, achando que algum dia eu teria coragem de ler...Nunca tive...Hoje eu abri a gaveta e dei de cara com esses papéis. Hoje faz 1 ano da ida do meu pai. Não sei o que me deu, mas comecei a ler, e não preciso explicar o estado em que fiquei (em que estou, na verdade, isto acabou de acontecer...).

Todos nós, inclusive os médicos do meu pai, sempre achamos que o que acabou com a vida dele foi a dor com o que aconteceu com o Felipe. Meu pai, médico pediatra, tão respeitado, que curou e cuidou de tantas crianças, que fez o bem para tanta gente, se via numa situação de grave erro médico justamente com o netinho dele...e ele não podia fazer nada, absolutamente nada para reverter o que fizeram...Meu pai teve câncer de laringe, teve que tirar a laringe e se submeter a uma traqueostomia na mesma época que o Felipe estava internado, e no mesmo hospital. Era o Felipe em um andar, e meu pai no outro... Com esta cirurgia, meu pai deixou de falar...teve que reaprender aos poucos, de outras formas, mas era muito difícil. E acho que no fundo isto selou o fim da vida dele, acho que ele deixou de querer dizer alguma coisa depois que o Felipe nasceu. Mas o coração dele não... Ele sempre deixou claro que entendia que o caso do Felipe não tinha muita saída, mas lendo o que escreveu, sinto que até ele às vezes tinha uma esperança...

Hoje é um dia triste. Este blog não tem como ser alegre e para cima o tempo todo. Quando me deparei com estas palavras do meu pai, queria muito abraçá-lo, sem dizer nada, como ele fazia comigo praticamente todos os dias naquele hospital, lá em casa...ele não vai ler esse blog, mas sei que está sentindo minha energia para ele. Então queria só mostrar um pouquinho do que se passava no coração do meu pai, e pedir licença a ele por invadir sua "privacidade". Mas acho que não iria se importar com esta homenagem a ele.

"Felipinho querido do vô. Você estava bonito, cheiroso e arrumadinho. Dormindo o sono dos inocentes. Eu disse sono. Muitos vieram lhe visitar. Também estavam lá seus adoráveis pais que não te abandonam nunca...Estou vendo como você está engordando, seu comilão. Sabe, cada vez que estou perto de você, mais perto fico do menino Jesus, e nós 3 juntos fazemos um trio do barulho. Aliás sempre chegam notícias de crianças dorminhocas como você e que acordaram sem maiores problemas. Só que custa um pouquinho de tempo. Meu coração está junto do seu, transplantado, tentando de todos os modos te ajudar nesse momento. Cada vez te amo mais. Cada dia sou mais seu avô. Beijo no seu rostinho corado, Vô "

"Meu anjinho: batemos um longo papo hoje. Minhas palavras eram minhas lágrimas. Você só ouvindo. Amanhã vovô vai ser operado. Vamos rezar. Vô"

"Querido, hoje conversamos bastante e sozinhos. A solidão nos inspira e nos aproxima. Você estava mais calminho, apreciando o cafuné que o vovô fazia. Uma fungada no pescoço"

"Meu Pai, eu quero ouvir, falar, ver o esplendor da luz com meus olhinhos azuis, quero sentir, chorar, ouvir. Quero respirar sozinho, só me deixaram por 1 dia. Quero sentir o batimento do meu coraçãozinho no compasso da grandeza divina. Quero tudo e não tenho nada. Mas tudo vai mudar...."

Esse era meu pai, um pedacinho dele. Que saudade...