Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



domingo, 28 de novembro de 2010

Um Dia Feliz


Acredito que não existem pessoas felizes ou pessoas tristes. Acredito que alternamos momentos felizes e momentos tristes. Algumas pessoas têm um pouco mais de um que de outro, e não é exagero dizer que nos últimos 4 anos tenho tido mais momentos tristes que felizes. Mas isso não quer dizer que mesmo assim não tenhamos nossos momentos alegres. Ontem foi o dia mais feliz desses últimos 4 anos. Léo e eu nos casamos !

Planejamos essa celebração há alguns anos, mas em todos eles algum problema nos fazia cancelar. Ano passado estava marcado, quando meu pai teve que fazer a cirurgia e se foi. Esse ano marcamos novamente, há 3 meses atrás. Assim mesmo, em cima da hora, pra não ter chance de dar nada errado. Estava tudo planejado para que o Felipe fosse o personagem principal, mais até do que a gente. Porque afinal de contas, ele é o maior responsável pela solidez da nossa união. Mas acho que ele achou a "logística" meio complicada, e resolveu nos assistir lá de cima. Só que ele resolveu isso 2 semanas antes do casamento...Claro, mais uma vez, pensamos em cancelar tudo. Mas algum soprinho atrás da nuca nos deu um aviso que não era para cancelar não...Era pra gente ir lá, oficializar e, principalmente, celebrar a luz e a certeza do nosso amor.

Foi uma cerimônia bastante "aconchegante", pequena, para que a gente se sentisse em casa, acolhidos. E ontem eu me senti especialmente iluminada. Senti Felipe e meu pai mais pertos do que nunca. Mas de uma forma diferente, de uma forma alegre. Uma presença muito intensa, eles estavam lá o tempo todo. A dor da saudade deu lugar a um coração preenchido de amor e de força.
Lá pelas tantas o Felipe me "assoprou" de novo, batendo as perninhas de alegria, no colo do vovô: "vai lá mamãe, faz aquilo que você diz que não faz desde que eu nasci ! Você consegue !" Eu então cochichei no ouvido do meu querido amigo DJ Janot, que nos deu o lindo presente de preencher a nossa festa com seu trabalho maravilhoso, e estimulada pelas amigas, e claro, por algumas bebidinhas... fui, dancei ! Como disse minha amiga Nanda Leal, eu dancei do jeito que eu dançava, quando eu dançava... Era eu, ela disse. Aprendi isso na Arte de Viver: as tempestades vêm e vão, mas nossa essência está sempre lá, intacta, e ontem foi a prova disso. EU estava lá...eu mesmo tinha me esquecido de mim...

Tudo conspirou a favor. A cidade estava aparentemente mais segura (ainda teve isso para tentar atrapalhar!), a juíza Lilah estava inspirada, o dia estava lindo, o pôr do sol parecia encomendado, os amigos com brilhos nos olhos, felizes por nos verem tendo UM DIA FELIZ.

A querida amiga Jane nos disse lindas palavras e convidou todos a rezar a Oração de São Francisco. Meu irmão Paulo entrou comigo, na difícil e especial tarefa de representar nosso pai, alternando com meu outro irmão Luiz Henrique (Zero), que em seguida acompanhou minha mãe, que estava emocionadíssima, no "altar".

Se o amanhã será feliz, não sabemos, então nós vivemos intensamente o nosso Dia Feliz. Ao som de "Dia Branco", do Geraldo Azevedo, tocado e cantado lindamente pelos músicos da Ornamentus, entrei para celebrar COM ALEGRIA nossa união, que hoje tem um elo muito mais forte, que é a alegria e a dor, e o orgulho de termos sido os pais do anjinho mais lindo desse mundo, que agora nos segue de cima e nos conforta.


Dia Branco
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Felipe no Céu

(escrito pela tia Marcia Dabul)

Recebemos esta cartinha do Felipe junto com umas lindas flores há alguns dias atrás. Parece até que ele pediu para tia Marcia nos entregar...Achei o máximo, fico só imaginando cada cena dessa...


Recado de um Anjinho

Queria falar três coisas pra vocês. Fiquei pensando que jeito que eu podia dar para ser convincente porque adulto não costuma levar criança muito a sério e, especialmente minha mãe, não é nada fácil de ser convencida... Resolvi então dar um ar científico nessa conversa já que ciência não se contesta, não é? Peguei umas idéias bem legais com gente muito esperta que tem por aqui onde estou.

Primeiro: não deixem seus corações pesarem. Um coração pesado faz a gente não conseguir carregar. E quando a gente não consegue carregar, a gente para, imobiliza. E, acreditem em mim, ficar imobilizado não é nada bom. Prestem atenção: Se o coração pesar, façam duas coisas: saiam por aí, por lugares bonitos, para que essa carga se dissipe no ar. Vai passar de uma área de maior concentração para uma de menor concentração. Mãe! Isso é lei da FÍ-SI-CA!
Vocês podem também experimentar a técnica do abraço de coração. É assim: pega alguém que goste muito de você (tá cheio de gente por aí) e dá um abraço bem apertado. Mas abraça de um jeito que coração encoste em coração. O peso vai sair um pouco de vocês. Essa pessoa pode abraçar outro alguém e assim vai ficando todo mundo mais levinho. Isso é CI-ÊN-CI-A! Chama-se Lei da Dispersão. Aprendi aqui.

Segunda, em especial para meus pais: a razão e a emoção de vocês precisam fazer as pazes. Desde o dia que eu nasci, elas duas entraram em guerra. Tá na hora de fazer um acordo. Quando elas andam em harmonia, a emoção suaviza a razão e a razão apazigua a emoção. O resultado é PAZ. Isso é FI-LO-SO-FI-A! Aprendi com o pessoal daqui também.

A terceira e última coisa é que aqui tá muiiiito legal. Deus tá aqui. Ele sim é O CARA. Chega gente na casa dele sem parar. Vocês pensam que ele cansa, faz cara feia ou fica com vontade de acabar com a festa? Que nada. Cada um que chega parece até que é o primeiro, a festa recomeça na mesma hora. Daqui a gente participa de tudo aí mas também conhece um bando de gente legal que tá aqui. Pai! Isso é TEC-NO-LO-GI-A! Sociedade do conhecimento e da comunicação, sabe? Coisa avançada!

Tem um cara aqui que tá me fascinando. O nome dele é Einstein. Ele fala tão complicado que até agora não consegui entender nada. Ele tem umas teorias. Por enquanto só consegui aprender duas: a teoria de não pentear cabelo e a teoria da careta. Já tô até treinando. Ainda vou aprender as outras teorias dele. Fala de vários tempos, de outras dimensões, sei lá. Vou me esforçar para entender porque acho que só elas vão conseguir explicar o que vocês, pai e mãe, são para mim e o amor entre a gente. Acho que só entendendo de outras dimensões, sabe? Depois eu conto. Ah! Isso é RE-LA-TI-VI-DA-DE!

Tô solto aqui. LIVRE!! Muita coisa para conhecer, fazer e aprender. Muito lugar pra ir. Meu Vô Fabiano de vez em quando me pergunta: molequinho, quando é que você vai sossegar? Quando vai terminar esse programa de hoje? Aí aprendi com um cara engraçado que anda por aqui com um peixe pendurado na mão a dizer assim: Vô, esse é um programa que acaba... quando termina! Fui!

Mãe, arruma uns lugares legais pra gente ir? Aquelas praias que você era especialista, aquelas viagens bacanas. Eu vou com vocês. Pai, bota aquela guitarra para tocar. Eu continuo adorando esse momento. Prestem atenção, eu vou estar lá!
É isso aí pessoal. A gente se vê. De preferência em ruas, praias, parques e bosques. Tenho muitos lugares pra conhecer. Se vocês souberem subir em árvore, vai ficar ainda mais divertido. Como diz aquela música, preciso “conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs”. Essa é do Almir Sater. Esse não tá aqui não. Li no blog mesmo.

O meu novo amigo daqui, o Mário Quintana, me autorizou a dar uma adaptadinha num poeminha que eu queria deixar para vocês quando pensarem em mim. É assim:

Tudo isto que estava aí
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu... passarinho!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

sábado, 20 de novembro de 2010

Missa






Ontem foi a missa do Felipe. Este ritual é muito sofrido. A gente revive todo aquele turbilhão de emoções, dor, cumprimentos, tudo de novo...mas do fundo do meu coração, para mim acabou sendo um pouco diferente. Eu saí de casa com medo de enfrentar aquilo tudo de novo, eu estava muito nervosa, mas no final das contas apesar de sofrido, o contato com tantas manifestações de carinho, com tantas mensagens bonitas, com tantos abraços, me ajudou a ter um pouco mais de conforto. É tanta certeza que me passam que o Felipe está bem, que eu não tenho mais a menor dúvida disso, e às vezes meu coração até esboça um sorriso quando penso nele, todo lindo fazendo bagunça "nas nuvens"... dá uma sensação gostosa, apesar de estranha, pois ainda não consigo entender ele estar tão feliz longe da mamãe e do papai...mas sei que isso é puro egoísmo meu...sei mesmo...
Teve a família que mora em Aparecida (SP) que veio e voltou de viagem no mesmo dia, só para estar junto da gente neste momento. Recebi a carta mais linda da D.Adelaide, vovó da Maria Clara (que fez o desenho do Felipe com o arco-iris), que li com calma em casa, com palavras tão lindas e perfeitas, que são um verdadeiro carinho no coração. Foram tantos, mas tantos abraços de coração apertado. É a mesma sensação das mensagens do blog, que são tão importantes pra mim. Sem contar os amigos de sempre, sempre, sempre, que não nos "largam de mão" um segundo sequer, verdadeiros anjos guardiões.
A missa foi uma verdadeira homenagem ao Felipe. O coral da Igreja do Perpétuo Socorro, do Grajaú, veio a nosso pedido, e cantou lindamente diretamente para a alma do Felipe e para os nossos corações.
E teve as doces palavras do Padre José Ricardo, que em tão pouco tempo entendeu nossa história e o significado do Felipe em nossas vidas e nas vidas de tantas pessoas.
Agora estamos "quietinhos", Leo e eu. O silêncio aqui em casa está respeitoso, mais calmo, mais sereno. Um silêncio agora necessário para nós dois, que passamos os últimos dias no limite do limite, precisando nos segurar para estarmos ao lado um do outro. No dia que Felipe se foi, presenciamos e participamos de praticamente tudo, e quando eu ameaçava me descontrolar, o Leo me falava firme, olhando dentro dos meus olhos: eu preciso de você ! E isso me fazia "voltar", por ele, não podia deixá-lo segurando aquela barra toda sozinho. Nosso silêncio agora é de descanso, de saudade, de meditação... Estou feito louca arrumando a casa, lavando louça (nunca lavo !) jogando um monte de coisa fora, separando coisas que não preciso mais...ocupando o dia longo, procurando ocupar a cabeça simplesmente com o sabão e a esponja que lavam a louça...Às vezes o telefone toca. Hoje tia Carmem (uma das técnicas de enfermagem, que mora em nossos corações) nos ligou para saber da gente, pra dizer que nos ama...que saudade sinto da presença dela, porque representava, junto com as outras tias, a presença do Felipe, todo arrumadinho, todo bonitinho e bem cuidado...

Mas nessa arrumaçao toda, eu não mexi nas coisas dele. Entro no quarto, deito na cama dele, choro, durmo, mas não arrumei nada além do que as "tias" já tinham arrumado para nos poupar, quando estávamos no velório. Em algum momento sei que preciso "chegar" lá. Mas talvez por medo de enfrentar, eu fique arrumando o resto da casa toda, para me ocupar e evitar - ou me preparar - para o momento de mexer nas coisinhas dele, nas roupinhas dele. Acabei de entender isso agora, escrevendo...(sinceramente, nem sei o que vou fazer sem esse blog...agora não sei se terá sentido continuar com ele...será ?).

Enfim...enquanto estou aqui (no blog), não posso deixar de dizer que o que hoje me faz sofrer e chorar de dor - e não de saudade - é ainda relembrar toda a história, tudo o que o Felipe passou ao nascer, sendo o bebê mais perfeito do mundo que foi privado de uma vida por causa de uma negligência médica. Nunca vou esquecer tudo o que ele e a gente passou, quando achei que iria morrer de tanta dor e sofrimento. E esse sofrimento durou quase 4 anos, com a gente aprendendo a lidar com uma situação de impotência permanente. Ainda preciso que se faça justiça porque isso não pode acontecer com outras pessoas, e também não pode, porque não pode, ficar impune. O Felipe se foi, e o processo contra a médica, que já corre há 3 anos, nem sequer tem um perito médico aceito pelo juiz. Cada movimento do processo demora quase 1 ano. Isso é revoltante. Isso quer dizer que estamos praticamente no mesmo ponto onde começamos...e Felipe nem está mais aqui para se fazer a perícia...agora só é possível ser feita com os prontuários médicos.

Enquanto lutamos para alguma justiça ser feita, quando a dor bate forte, procuro pensar nas coisas boas e nas pessoas maravilhosas que Felipe nos trouxe. Difícil dormir, mas durmo com minha consciência tranquila, com paz interior, o que imagino - e espero - que não aconteça com esta chamada "médica" e sua equipe. No lugar deles, eu nunca mais teria paz. Mas as pessoas são diferentes né ? Talvez nem lembrem mais quem é Felipe...E assim os dias seguem, feito uma gangorra, com altos e baixos...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Maria Clara - Felipe e o arco-iris

Maria Clara é a princesinha dos nossos "irmãos" Juliana e André (Peixe). Recebi em casa um envelope com um bilhetinho da Ju, junto com esse desenho. Ela disse que quando chegou em casa do trabalho, a Maria Clara tinha feito este desenho, mostrou para ela e pediu para ela me entregar. Disse que era ela, o Felipe, Leo e eu. E falou: "o Felipe no céu com o arco-íris".

Eu queria tanto enxergar através dos olhos dessas crianças, mas enquanto isso, que elas continuem me mandando esses sinais, para me confortar. E como conforta ! Eu consigo até sorrir...Aproveita o arco-íris pra brincar, meu príncipe !

Cartinha da Tia Nanda (fisio) para o Homem Aranha

Tia Nanda é uma alma iluminada. Como ela mesmo diz aí embaixo, acho que nós nos conhecemos de "outro lugar". Ela tinha me dito que tinha começado a escrever uma cartinha para o Felipe durante suas férias, em setembro, logo após seu casamento, em Juiz de Fora. Eu pedi que ela me mandasse. O resultado está aí, após ela ter terminado a carta. Que forma linda que ela conseguiu entrar no espírito da nossa família, fazer parte dela, compreendendo nossos corações e a nossa vida.



Homem Aranha,

Decidi escrever essa cartinha durante as minhas férias. Sentindo muito a sua falta e muito feliz pelo momento que vivo, estou sentada na minha cama do sítio em Juiz de Fora e pensando nos acontecimentos e nas coisas que realmente são importantes na minha vida. Uma delas é você!

Desde o nosso primeiro dia juntos sinto uma vontade incontrolável de te ver todos os dias. A primeira vez que você deitou no meu colo, senti um abraço tão apertado que meu coração sorria de tanta alegria em rever-te. Demorou, mas nos reencontramos. E foi lindo!

Quando sua mamãe abriu a porta para que eu entrasse na sua casa levei o maior susto! Também havia muito tempo que não a via. E depois fui logo sendo apresentada para seu pai. Acho que também já o conhecia de algum lugar, não me lembro onde. E quando vi você no berço! Ai meu Deus!!! Era uma vontade louca de te abraçar, beijar e rir muito como naqueles tempos em que corríamos pela grama do jardim e ríamos sem parar!

No início, nos víamos quase todos os dias. Às vezes aos finais de semana. A gente brincava muito naquela cama que ficava bem pertinho da janela e muitas vezes no chão. Naquele tapetinho todo colorido, lembra? Você gostava mesmo era do chão! Eu te rolava pra um lado e pro outro. Fazia gato e sapato! Rsrsrsrs

Com o tempo você foi crescendo e consequentemente ficando um pouquinho mais pesado e nossas idas ao chão foram ficando mais raras porque levantar com você no colo estava ficando complicado! Mas, outro dia desses, um daqueles, em que eu estava muito mal, muito triste e confusa, brincamos no chão de novo. Era um sábado ou domingo, não me lembro bem. E fiquei quase que a tarde inteira na sua casa, brincando com você, conversando e me distraindo com a mamãe, lembra?

Fiquei dando várias dicas de noiva pra ela! Ela não vai ficar uma noiva linda, Homem Aranha?

Por muitas vezes, Homem Aranha, pensei em desistir. E, na maioria das vezes, você era meu próximo encontro. E o que acontecia???? Você me convencia de que eu não devia fazer isso.

Bom, o tempo foi passando e eu fui entendendo todos os seus movimentos, cada pedido, cada olhar, cada sorriso, cada lágrima. Há quem diga que você não fala, nem ouve. Corajosos. Seu coração fala e ouve mais que qualquer boca ou ouvido. Você até me pediu um tempo para pensar quando te pedi em namoro, lembra? Eu é que não soube esperar...

Lembra aquele dia que passamos uma hora só conversando e cantando? Você estava um pouquinho triste por causa daquilo que estava acontecendo, não é (nosso segredo)? E nós conversamos muito. Eu chorei, você chorou e no final, chegamos à conclusão que aquilo também passaria. E não passou?

E naqueles dias que dançamos a Dança do Pato? Lá vem o pato, pata aqui, pata acolá! Hahahahahahahahaha! Você ama dançar a Dança do Pato. Quando está bem humorado! Quando não... Sai de baixo! Tinha uma época que eu colocava a Dança do Pato todos os dias à tarde e seu tronco ficou com uma mobilidade INCRÍVEL! O meu também! Rsrsrs...

Depois da Dança do Pato, tinha a música da foca. Coitadinha da foca né... A gente ficava rindo da foca brasileira! E depois da música da foca, eu não me lembro qual era porque a gente só ria, ria, ria, e não conseguia prestar atenção em nenhuma outra música.

Sabe, Homem Aranha, por muitos momentos de angústia e tristeza, você foi a pessoa mais importante na minha vida. Eu me revoltava com aquelas situações (que também já conversamos, mais um segredo) e quando eu colocava você no meu colo, você soprava aquela nuvem escura que ficava em cima de mim e seus olhos verdes ficavam como o sol me iluminando. Como é bom saber que você sempre vai soprar a nuvem e iluminar meu caminho com seus lindos e brilhantes olhos verdes!

Ahhh!!! Lembra daquela tia que morria de ciúmes de nós dois???? Hahahahahaha! Ela não sabia que já éramos amigos e que só queríamos matar a saudade! Era engraçado! No final, acho que ela entendeu! Rsrsrsrsrs

Homem Aranha, eu tenho um amor tão grande pela mamãe e pelo papai. Você sabe né? Quando voltei a frequentar a sua casa, algumas pessoas não entendiam porque eu ficava sempre do lado deles. Defendia e entendia todas as atitudes deles com unhas e dentes. Às vezes me estressava um pouco porque seu papai, muito metidinho, queria porque queria entender mais do BIPAP que eu. E não é que ele entende, Homem Aranha! O cara é fera! Descobre tudo!

E a mamãe??? Super, mega, ultra protetora, não me deixava mexer em você quando você estava chorando muito. Ainda bem né! Você não queria mesmo! No meu primeiro dia ela ficou do meu lado, pra saber se eu iria tirar a sua melequinha sem te machucar. Foi muito legal! Saí da sua casa e, rindo à toa, pensei: “não era nada do que tinham me falado. A Valéria é um doce!”

Eles são tão especiais, não é? Fazem tudo por você!

Quando a mamãe resolveu comprar aquela “cama do espaço”, todo mundo reclamou. A cama é alta, é isso, é aquilo. E você??? Se esparramou naquele “camão” delicioso e não estava nem aí. Queria era curtir! E aquele carrinho que veio dos Estados Unidos? Muito Hight Tech!

Ai, Homem Aranha, seus brinquedos também são o máximo né? Suas almofadinhas da Fom, seu bichinhos e amigos. E o Santo Anjo? É o que eu mais gosto, depois do Hypólito. O Hypólito faz tudo: te abraça, apóia seu bracinho e a traquéia do BIPAP, te faz carinho! Ele é demais!

Hoje, 11/11/10 decidi continuar essa cartinha pra você. Chorando muito, com uma dor enorme no peito e uma saudade já sem tamanho, não tenho tantas palavras. Quero te parabenizar pelo homenzinho vitorioso que sempre foi. Eu nunca conheci uma pessoa tão guerreira sabia Homem Aranha?!? Passar por tudo isso e ainda conseguir sorrir? Quem conseguiria? Você conseguiu fazer tudo direitinho. Você foi forte, muito forte. Escalou os prédios mais altos! Salvou muitas “Mary Janes” de momentos difíceis, soprou muitas nuvens e iluminou muitas vidas com seus lindos olhos verdes. Você conseguiu renovar um ciclo na sua e nas nossas vidas da maneira mais digna e engrandecedora possível. Você me aproximou ainda mais do papai e da mamãe. Eles podem até não querer, mas eu não largo deles nunca mais! Acho que já te disse isso: eu gosto muito deles.

Ainda bem Homem Aranha que a vida não tem fim! O que termina são os nossos sofrimentos e angústias. E estamos prontos para a próxima etapa!

Tem alguém muito orgulhoso de você, Homem Aranha! Muito mesmo!

Agora, eu vou morrer de inveja de você. Sabe por quê? Porque você vai correr e brincar naquela grama verdinha junto com o vovô. Vai morrer de rir das nossas trapalhadas e tropeços! Das milhões de vezes que precisei mexer naquele “bendito” BIPAP, ler aquele manual todinho em inglês... Você ficava rindo de mim né seu danadinho! rsrsrsrs

Ah! Homem Aranha! Você consegue imaginar como vai ser quando nos reencontramos?

Vamos brincar muito na mesma grama verdinha, como nos velhos tempo! Vou morder seu pé de pão, vou te cheirar muito e vamos dançar a Dança do Pato por muitas vezes! E vamos rir, rir e rir e viver de rir!!

Um beijo bem gostoso na sua bochecha “gordinha” e esparramada com muita saudade da sua Tia Nanda.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Da Vó Magá

Amo todos os meus netos, mas o meu amor pelo Felipe, é claro, era diferente. Do meu jeito sem jeito eu o amei muito e na nossa convivência ele me ensinou muito. Era bom estar com ele. . Reencontramos todos nós, que convivíamos com ele, a sensibilidade desgastada pela luta do dia a dia. Ele fez, também, com que duas famílias se tornassem uma só. É uma pena que o Fabiano não tenha conseguido chegar até aqui. Mas ele tinha que ir na frente para esperar pelo Felipe. Agradeço a Deus (qualquer que seja Ele) a oportunidade que tivemos de aprender, através do meu bichinho, o que é viver .

Vó Magá

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Missa

Queríamos comunicar que faremos a missa de sétimo dia nesta sexta-feira, dia 19/11, às 18h30, na Paróquia Nossa Senhora da Paz, que fica na Visconde de Pirajá, 339 - Ipanema (em frente à Praça Nossa Senhora da Paz).

Silêncio II

As duas vezes que senti a maior dor no coração, foi o trágico nascimento do Felipe e sua partida. Os abraços que dei no meu irmão e na Valéria nestas ocasiões mostraram-me que a dor da alma é infinitamente maior que a dor física.
Depois de seu nascimento, confesso que procuro alucinadamente conforto e entendimento espiritual. Cheguei perto de alguns entendimentos e estou cada vez mais longe do conforto. Do oriente ao ocidente, descobri que não há conforto. Só existe a luta diária contra os sofrimentos, a descoberta de suas causas, a completa falta de controle sobre determinados acontecimentos, e a melhor forma de encara-los, ultrapassar e conviver com eles. Descobri que viver de coração, mente e braços abertos, encontrar a felicidade no outro, abdicar do conforto da alma enquanto os outros não o atingirem, são simplesmente um modo de viver. Nem melhor, nem pior que outro, apenas o seu jeito de se tornar. Porque nós não “somos”, nós nos “tornamos”.
Não, não vou dizer que sinto e imagino a dor de vcs, porque estaria a anos luz de entender isso. No momento acho relevante que Felipe esteja guardado em nossos corações e que ele continuara eterno porque está em nossa memória.
Tento ser forte para conseguir ajudar vocês, mas vocês conhecem minha fragilidade, decididamente não sou forte e aceito esse fato com pesar.
Fiquei extremamente feliz com a quantidade de pessoas queridas e solidárias ao lado de vocês, e a força que deram e estão dando..Não vou falar de Nelson, Márcia, Zero e Dr João Excepcionais, sem comentários.
Com certeza, a única maneira que posso ajuda-los, é ficar de prontidão, estender meus braços e esperar que o tempo seja generoso e o silêncio anuncie uma nova música, mais branda, harmoniosa, confortante e que vcs nos ensinem e compartilhem tudo que aprenderam.

Bjos

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Flor de Sofia


Não podia deixar de mostrar aqui a mais linda e pura demonstração que o Felipe está bem, vinda da Sofia, uma linda menina, filha da Simone, uma amiga do blog, que infelizmente não conheço pessoalmente, mas de coração.

Que coisa mais linda... Flor de Sofia: Sobre o Felipe anjinho

Silêncio

Difícil começar a escrever, difícil acordar, difícil comer, tomar banho, falar, pensar, difícil viver. Acordei cedo, antes do Leo, e nesse silêncio que está essa casa, vim aqui "desabafar" para não ficar rodando sem rumo pela casa.

Foi tudo muito rápido. Felipe tinha começado uma febre na segunda-feira à noitinha, coisa que há muito tempo não acontecia. Falei com Dr.João, que passou um remédio e logo de manhã cedinho do dia seguinte passou para vê-lo. Disse que estava iniciando um quadro de infecção pulmonar, e entrou logo com antibiótico. Na noite seguinte, ainda teve um pouco de febre e no dia seguinte já estava melhorando, com febre mais baixa, com menos necessidade de oxigênio e mais calminho. Parecia que estava rapidamente respondendo à medicação, como sempre. Na quinta-feira cheguei em casa para almoçar, logo depois da técnica ter me ligado dizendo que ele tinha voltado a fazer febre. Mas quando bati o olho nele, vi que tinha alguma coisa diferente. Ele estava sem cor. Os lábios do Felipe são sempre rosadinhos, e estavam completamente brancos. Pelo telefone com os médicos, começamos a hidratá-lo, mas dali em diante, foi tudo muito rápido. Começou a fazer hemorragia, sangrando pelo nariz, pela gastrostomia, e não era mais possível dar nenhum remédio. Pressão caindo. Dr.João veio correndo do consultório, e quando chegou, bateu o olho nele e chamou Leo e eu para conversar. Felipe estava em choque, a bactéria da infecção passou para a corrente sanguínea, causando um choque séptico, e só poderíamos fazer alguma coisa para ajudá-lo no hospital, pois era necessário um acesso venoso profundo para medicá-lo. Nesse momento, entrei em pânico. Tínhamos um "pacto" que não queríamos internar o Felipe, que faríamos tudo que fosse possível para ele em casa. Mas nessa hora, quem tem coragem ? Dali em diante foi Dr João tentando vaga em alguma UTI pediátrica, não tinha nenhuma vaga, mas acabou conseguindo no Hospital S.Vicente de Paulo, na Tijuca. Espera da ambulância, chega ambulância com sirene quebrada, chovendo, trânsito, mas enfim chegamos com ele vivo. Mas não entrando mais em tantos detalhes, poucas horas depois de uma espera horrorosa, foi numa das várias tentativas de pegar uma veia que meu anjinho desisitiu, não quis mais, cansou. Bateu asas e voou...

Acho que não preciso contar o resto...recebemos o abraço carinhoso de muitos e muitos amigos no velório, e ontem fizemos uma rápida e íntima cerimônia de cremação, com as lindas palavras da amiga Marcia e do meu irmão Zero.

Vivemos hoje o segundo luto pelo Felipe. Quando ele nasceu, aquela tragédia que aconteceu, onde aquele Felipe que esperávamos tinha "morrido" para surgir uma nova e dura realidade. Aprendemos, com muita dor, a cuidar dele, a fazer toda nossa vida em função dele. Com o home-care, nosso pequeno apartamento foi invadido por vários profissionais que vinham cuidar dele. Mas nossa vida estava numa estranha normalidade, havia uma rotina, acordava de manhã e ele já estava todo arrumadinho, sentadinho com os bichinhos amiguinhos dele, esperando mamãe escovar os dentes para depois fazer fisioterapia, quando não tinha outro "compromisso"... Antes de qualquer coisa, eu dava um abraço mais gostoso do mundo de "bom dia". Era o "upa" da mamãe. E aquele suspiro que às vezes ele dava, o cheirinho delicioso, tudo aquilo era combustível para o meu dia começar. Se eu tinha que sair mais cedo por algum motivo e essa rotina era quebrada, meu dia não era o mesmo. Sempre que dava, almoçava em casa, só pra dar uma olhadinha nele e ficar 15 minutinhos que fosse. Quando dava mais tempo, me deitava com ele um pouquinho. E no final do dia, ele era todo meu...Ficava no meu colo com calma, normalmente sozinhos no quarto, curtindo nosso namoro.

Hoje a casa está insuportavelmente vazia. Um silêncio que não acaba. Leo e eu não sabemos o que fazer. Tomo remédio para dormir, mas mesmo assim acordo cedo. Tudo que eu tenho vontade de fazer é dormir...

Nesses quase 4 anos aprendemos a viver cada dia, sabendo da gravidade dele. Não aprendemos o que fazer quando esse dia chegasse. Meu egoísmo me faz sofrer demais, eu sinto falta do corpo dele, da existência material dele, embora saiba que a vida que ele vivia não era legal pra ele e nem tinha perspectiva de melhorar. Sinto nesse momento uma necessidade muito grande de acreditar que ele foi recebido pelo meu pai, que o vovô tá cuidando dele, como no sonho da minha mãe, e que ele está LIVRE e feliz. Mas ao mesmo tempo tudo isso é muito distante, eu preciso ter certeza que ele está bem. Como pode alguém estar tomando conta dele, que não seja a mamãe ??? Estão tomando conta dele direito ? Como uma criança está feliz longe dos pais ? Aí me lembro o que a querida Jane, amiga da minha mãe, nos disse no velório. Felipe era um espírito evoluído. Ele fez tudo que ele tinha que fazer aqui em pouco tempo. E o que ele fez ? Nossa...fez o amor aproximar cada vez mais seus pais, as nossas famílias, nossos amigos conhecidos e desconhecidos. Fez ajudar outras crianças com problemas, fez a gente e tantas outras pessoas verem o mundo com outro olhar, valorizando as pequenas coisas da vida.

Nesses últimos 4 dias ouvi e li de amigos próximos e amigos desconhecidos do blog, coisas lindas, que me confortam de verdade, mas minha maior dor é que eu nunca vou ter a resposta de nada. Eu vou encontrar com Felipe um dia ? A gente vai se reconhecer ? Eu vou ser eu mesma e ele vai ser o Pipo da mamãe ? Que vazio que eu sinto, nem sei explicar.

Aos amigos, nem tenho palavras para agradecer tanta manifestação de carinho. Vejo a dor nos olhos daqueles que eram próximos dele, e com isso eu vejo como esse anjo era especial e transmitia amor e paz para todos à sua volta.

Meu anjinho, fica bem, aproveite a sua liberdade, corra, brinque, ria bastante...nossa dor nunca vai embora, e a saudade...o que eu faço com ela ???? Vamos começar tudo de novo....

Te amarei para toda a eternidade...

sábado, 13 de novembro de 2010

Ele se foi...

Com muita saudade e tristeza dou a notícia do dia que ninguém queria que chegasse. Quinta-feira nosso anjinho nos deixou. Agora ele vive no coração de cada um nós que acompanhou sua jornada.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Into The Wild

Hoje seria aniversário do meu pai, que nos deixou no ano passado. Quanto mais o tempo passa, mais saudades eu sinto dele, mais eu o entendo em coisas que antes não entendia e mais eu sinto a presença dele perto de mim.

Eu quis acordar cedo, queria ter um momento "com ele", e saí às seis e meia da manhã em direção à academia, de bicicleta pela Lagoa. Ninguém, praticamente ninguém na Lagoa, e o dia amanhecendo...no meu som ouvia a trilha sonora da minha vida, do filme "Na Natureza Selvagem", e sentei num deck da Lagoa e num momento de tanta energia, não sei se boa ou ruim, mas senti um calor do abraço do meu pai. Não sei se senti ou se eu quis sentir, mas tudo o que eu queria naquele momento era dar um abraço forte nele.

Segue aí a música para compartilhar com vocês. Aliás, quem não viu, tem que ver esse filme, nem que seja para entender o que eu estou falando e o porquê me identifico com ele. Assim como o protagonista do filme, me sinto um "peixe fora d´água" nesse mundo. Criei meu próprio mundo e só nele me sinto bem. Muita coisa em volta não faz mais muito sentido.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Correria do dia-a-dia


Meus dias andam corridos. Me dá uma angústia muito grande sair de casa de manhã e só voltar à noite, sem dar um beijinho sequer no Felipe durante o dia. Esse não é o mais comum, com frequência consigo almoçar em casa, ou somente dar uma passada só para dar um beijinho nele e ver como estão as coisas em casa.
Normalmente na hora que saio para trabalhar ele está fazendo fisioterapia. Hoje foi com tia Nanda. Esta foto não é de hoje, mas é com essa cena que me despeço quase todo dia de manhã, com Felipe gostoso no colo da tia, alongando o corpinho, todo esparramado...
Se chego em casa tarde, como hoje, me dá peninha de mexer muito nele, porque as tias já deixaram ele gostosinho na cama, de pijaminha, todo bonitinho e posicionado para dormir. E ele realmente dorme...só quem conhece muito bem sabe quando Felipe tá dormindo de verdade e quando tá mais acordadinho. E quando tá "dormindo", dá aquela sensação louca por milésimos de segundos, tipo "deixa ele dormir...não quero acordá-lo", quando tudo que eu queria na vida era acordar meu anjinho...Às vezes deito na cama com ele e faço um momento "conchinha", agarrada com ele, e desejo que o mundo acabe naquele momento porque ali, sentindo aquele cheirinho, aquela pele deliciosa, eu e ele juntos nos bastamos, somos felizes e não precisamos de mais nada. Mas essa sensação dura pouco, o "pé alcança o chão", o mundo não acaba e a vida cheia de obrigações chatas segue e me chama para a realidade...