Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Filho,



Dia estranho...nem mais nem menos difícil que os outros dias. Tenho fases em que fico aparentemente anestesiada pela vida, pelos acontecimentos, pela correria, pelo trabalho, e parece que você não estar aqui já faz parte. Mas de repente vem uma onda, um choque que pega meu corpo todo e me passa todo o "filme" na cabeça e me faz ter a certeza que não existe nada maior nem mais dolorido nesse mundo do que o sentimento de mutilação que é a gente se separar de um filho, da forma que for. Isso não deveria ser permitido. Me perdoem os espiritualmente elevados e bem resolvidos, mas não é legal não...pensar que você está livre de tantos aparelhos, aspirações, respiradores, me faz sim pensar que hoje você está livre, mas longe da gente, longe do colinho da mamãe, é justo isso ? Enfim, não vou entrar nessa questão agora, deixa isso para meus próximos anos desta e das próximas vidas, para eu tentar entender.

Sigo na busca de acreditar, de ter a certeza que hoje você está melhor. Não tenho certeza de nada, não sei em que acredito, nem se acredito em alguma coisa. Quando fico muito mal, penso em você e POR VOCÊ eu procuro ficar bem para se tiver alguma chance de você estar me vendo triste e ficar triste por isso, então não quero te trazer mais sofrimento, filho, eu vou me esforçar.
Mas de alguma forma, não sei como, eu acredito que você está aqui comigo. Dentro de mim sinto muitas vezes uma força muito grande, uma luz, uma sensação inexplicável de preenchimento, de conforto, e isso é o amor por você que me preenche e me faz acreditar que a gente nunca vai se separar, porque você voltou pra dentro da mamãe, em forma de amor infinito, que mesmo sem forma, preenche e às vezes conforta a dor da ausência do seu corpo.
Penso em você todos os segundos da minha vida. Casa passo que dou, dou por você, pelo seu pai, pelo amor que nos une. E se posso pensar que a vida me proporcionou algo de bom, foi essa grandeza de amor que nos une, como uma família, como uma coisa só, sem separação.

Não sei o que nos aguarda, mas vivo em busca de querer acreditar que nós nunca vamos nos separar, não sei muito bem de que forma, mas que já transcendeu o campo material, o campo físico.
Estou grávida de você para sempre, agora em forma de luz, de amor. Se isso pode atrapalhar que um irmãozinho tenha espaço dentro do corpo da mamãe, não sei, mas se estiver se encaminhando para esse lado, existem outras formas da gente te dar um irmãozinho que não seja vindo da barriga da mamãe. Mas isso é uma outra história.

Comecei falando que o dia de hoje não é nem melhor nem pior do que qualquer outro dia. Mas tudo é mais vivenciado com os outros. É uma data marcante, simplesmente. 1 ano sem você aqui, sem seu cheirinho, sem seu abraço gostoso. Parece que foi ontem, tudo está ainda tão vivo na minha mente. Mas hoje os amigos estão não só lembrando, como falando, nos abraçando, nos mandando lindas mensagens.

Você mudou a vida de muita gente, filho, e se tem uma coisa que posso te dizer hoje, sem ser tristeza, saudade, é ORGULHO. Quanto orgulho que eu tenho de ser pra sempre "A Mãe do Felipe" !

Onde quer que você esteja filho, sinta-se amado para sempre, e fica aqui quentinho dentro do coração da mamãe tá ? Te amo mais que o infinito.

Um Ano de Saudade

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Então...

Passaram-se 3 meses do meu último post. Não conseguia escrever...Mas foi legal encontrar várias pessoas nesse período que me perguntavam o que a gente havia decidido sobre ter ou não ter um cachorro em casa. Acho bacana porque mostra que as pessoas realmente lêem o blog. Quando escrevo, parece que estou no meu mundo, sozinha, escrevendo como fazia no passado, para mim mesma e ninguém nunca ia ler. Ainda estranho essa minha ideia do blog, mesmo passados 2 anos de blog, onde exponho parte da minha vida, e por algum momento eu acho que só eu sei o que escrevi... Sim, as pessoas lêem. Inclusive já são mais de 100 seguidores,quase 18.000 acessos...Sou meio velha, conservadora, acho estranha essa mega exposição da vida que as pessoas têm hoje com facebook, com twitter, com tudo o mais que nem sei acompanhar direito...Mas eu também estou aqui e, acreditando ou não, as pessoas lêem o que eu escrevo. Viagem né ? Enfim...mas fico muito curiosa pra saber como foram esses quase 18.000 acessos...por que foram, quando foram.

Queria finalmente dar uma satisfação que esses 3 meses não serviram para adaptação de cachorro nenhum. Poucos dias mesmo da nossa questão "ter ou não ter", era um sábado, aquela preguiça pra acordar, e o Leo, brincando, dá um pulo pra fora da cama dizendo "vamos, levanta, vamos levar o cachorro para fazer xixi na rua !!!" Nessa hora morri de rir e cheguei na hora à conclusão que preciso mesmo é me dar direito à preguiça que sinto hoje em dia de tudo. E desculpe, cachorrinho, ainda não vai ser dessa vez. Eu preciso dormir por alguns anos tá ? Não tô no clima de te levar pra fazer xixi na rua...imagina na chuva, sábado de manhã...ah não ! E não quero também ficar com pena de deixar você em casa quando eu for na esquina. Eu me conheço,vou sofrer com isso, e aí mesmo que não vou colocar o pé fora de casa.

Então isso esclarecido, a vida segue. Leo e eu no nosso "mundinho", na nossa "bolha", aos poucos colocando o nariz pra fora de casa, mas sempre de uma forma cautelosa, devagar, mas às vezes escapa e nem é tão cautelosa assim.

Nesse meio tempo conheci quase que pessoalmente um príncipe quase gêmeo do Felipe, o João. Um anjinho que mora em Brasília e é a cópia do Felipe. Chega a dar arrepio na gente...Vou pedir autorização à mãe dele, Aline, para postar uma foto dele aqui. É impressionante. Outro dia nós nos conhecemos pelo skype e conheci melhor o mundo dele, um verdadeiro "Pequeno Príncipe", todo fashion e tão cheiroso que quase senti o cheirinho dele através do computador. Engraçado como só de olhar (e, claro, ouvir a mãe dele falar), sabemos como ele é cheiroso!

Acompanhei tambem de perto a cirurgia do fofo Antonio Pedro, e fiquei feliz de poder ajudar de alguma forma, nem que seja enviando as tias queridas do Felipe pra cuidar dele...

Fim de semana passado encontramos com Dr João e sua família. Não sei se ele percebe, mas vai ficar sabendo se ler isso, mas eu fico nervosa quando o encontro. É muito forte a presença do Felipe junto com a presença do Dr.João...Estar com ele de alguma forma me faz estar um pouquinho mais perto do Felipe.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ter ou não ter ?

Eu sempre morei em casa. Só quando eu tinha 30 anos que meus pais se mudaram para um apartamento e foi quando eu me "emancipei" e fui morar sozinha. E morando em casa, sempre tivemos cachorros. Quando eu era pequena, era um casal de pastor alemão, a Chispa e o Jango. Fizeram parte do meu crescimento, da minha infância, eram praticamente membros da família e só faltavam falar. Eles viveram muitos anos, principalmente o Jango, e quando eles se foram, primeiro a Chispa, foi na verdade a minha primeira grande perda. Uma dor sem fim. Mal sabia o que a vida me reservava...

Logo depois deles tivemos dois cachorros da raça Dog Alemão, imensos, pretos, lindos, um de cada vez, primeiro o Alan e depois o Athos, que infelizmente não viveram muito tempo. Mas eu já era mais velha e já tinha chegado à conclusão que era melhor não ter cachorro para não passar pelo sofrimento de perdê-los...Que pensamento louco esse né ? Mas eu pensava mesmo, e inclusive que quando eu tivesse um filho não iria ter coragem de dar um cachorro pra ele porque não queria que ele um dia passasse pelo sofrimento de vivenciar a perda do seu "amigão". Analisando bem, se a gente pensar assim, a gente não faz nada na vida né ? Mas sei lá, talvez meu instinto de "sobrevivência" já se aflorava nesta época...

E também, com a liberdade dos meus 30 anos, morando sozinha, eu pensava que não teria coragem de ter um cachorro porque eu morreria de pena de deixá-lo sozinho em casa quando saísse para trabalhar. E quando fosse viajar, como faria com ele ? Enfim, não era mais o momento, não se "encaixava"na minha vida.

Mas eu adoro cachorro e o Leo também. Ele, na verdade, queria ter um pastor alemão. Imagina, no nosso apartamento ! Mal cabe a gente...seria loucura. Ele tem também muita vontade de ter um aquário, e não tem nada que eu ache mais sem graça do que aquário, não tem espaço para ele, e sempre ouvi dizer que dá azar. Não sei o que pode dar mais errado, mas na dúvida, prefiro ficar longe do aquário. E preferia ficar longe do cachorro também, não queria me prender a ele, deixar de fazer nada. Com o Felipe, imagina ! Não tinha a menor possibilidade. Mas agora estamos muito caseiros, praticamente não saímos de casa, nem nos finais de semana. E não sei porque (ou sei ?) passei a ter uma vontade louca de ter um cachorro ! Mas cismei com um em particular, a raça West Highland White Terrier, chique né ? É mais conhecido como o cachorrinho da propaganda do IG. Gente, ele é simplesmente um bonequinho, lindo, lindo, lindo, fofo, pequeno. E agora, o que eu faço, se eu quero muito ele ? Mas será que eu quero mesmo, ou será um devaneio momentâneo ? O Leo me fez uma pergunta crucial: "você sabe que é uma decisão que vai te acompanhar pelos próximos 15 anos mais ou menos né ?" Fiquei meio assustada com isso, mas já fiquei também preocupada com tanta coisa sobre o cachorro, que não sei se vai ser bom...

Perguntei se minha ajudante, Neide, o levaria para passear quando a gente estivesse trabalhando, e ela fez uma cara de "como assim, eu ??? " Porque como sempre tive cachorro em casa, esse negócio de ter a obrigação de levar o cachorro para passear com saquinho pra coletar suas necessidades...ai...sei não...e de noite, chovendo, e o cachorro resolve querer fazer suas "coisas" ? Ai que preguiça...ele não pode ter um cantinho em casa pra se resolver por ali mesmo e sair só para passear ?

Hoje foi o dia da "sopa"aqui em casa, e vieram os pais do Leo e minha mãe. Momento família gostoso, onde aproveitei para perguntar se eles ficariam com o cachorro quando a gente viajasse. Minha mãe só ri, o que significa que não quer muito não...meu sogro diz brincando que tem hotéis ótimos para cachorros hoje em dia (mas sei que seria o primeiro a se apaixonar...), e minha sogra coloca os óculos e senta do meu lado para ver as fotos dos cachorros na internet, e fala que o que eu resolver, ela me apóia.

Resumindo: não sei se quero um cachorro mesmo, mas adoro a minha sogra !

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Flanelinha

Venho a pé para o meu escritório todos os dias. É muito perto, basta atravessar uma rua principal. Mas para chegar à rua principal, tenho algumas opções de acesso. Para sair da rotina, cada dia tomo uma direção diferente rumo a essa rua principal para atravessar. É verdade que não tenho muitas opções, mas a que mais gosto faz com que eu me depare sempre com um flanelinha que vive naquele espaço do Rio de Janeiro, ele é, como todo flanelinha, o "dono" daquele espaço. Já presenciei ele discutindo com outros que tentaram invadir o espaço dele. E sempre me irrita aquele jeito "marrento", de dono da rua para cada cidadão que deseja uma simples vaga. Isso é um dos muitos absurdos que eu vejo nesta cidade. Fico furiosa como ficamos nas mãos dessas pessoas que resolveram um dia tomar conta daquele espaço e "ai" de quem quiser atrapalhar ! Enfim, mas sempre que resolvo passar pelo espaço "dele", ele me deseja "bom dia", e bom trabalho. Fico dividida entre meu descontentamento social e a simpatia dele comigo. Mas claro que respondo toda simpática, agradeço e lhe desejo o mesmo. Só que tem dias que prefiro evitar esse "enfrentamento", e passo pelo caminho da escolinha, onde vejo todas as criancinhas lindas e saudáveis indo brincar. Fico ali brigando por um espaço na rua para passar entre carrões com motoristas e carrinhos de bebê, babás e etc. Então ridiculamente esse é quase um momento de decisão importante na minha vida ! Ou evito a saudade do futuro passando pela escolinha, ou vou de encontro ao meu "amigo".


Às vezes fico pensando que é injustiça minha, preconceito com flanelinhas de uma forma geral. Muito ruim pensar assim. Como se todos os médicos, professores, advogados, fossem iguais aos seus colegas...Acho até que o nome nem seja preconceito, é má vontade, sei lá. Mas a verdade é que ele nunca me fez nada, coitado, tenho implicância com ele simplesmente por ele representar uma classe, por assim dizer, que acho agressiva e que me irrita muito.


Mas hoje vim pelo caminho "dele". Ele veio lá de longe em minha direção, viu que eu estava olhando os carros antes de atravessar e me orientou, falou que eu poderia vir que tava tranquilo, não tinha carro, e me desejou, como de costume, um bom dia e um bom trabalho. Mas não foi bem como de costume. Em seguida ele completou, "olha não é da boca pra fora não, é de coração, eu desejo muito isso mesmo para você". Sabe que nessa hora eu gelei. Como assim, de coração ?? Flanelinhas tem coração ?!?!? Que coisa feia da minha parte ! Mas a primeira coisa que me veio à mente foi uma prática que fazemos nos cursos da Arte de Viver, onde, de olhos fechados, ficamos sentados de frente a uma pessoa que não conhecemos, pegamos as suas mãos, de olhos fechados, e quando abrimos, olhamos fundo um nos olhos do outro por alguns minutos, e somos perguntados se somos capazes de aceitar aquela pessoa como ela é. E também nos perguntam se Jesus Cristo viesse na forma daquela pessoa, se a gente aceitaria. Esse é um momento normalmente de muita emoção, que você diz com os olhos que claro que aceita, sem saber nada sobre ela, e agradece, em silêncio, a presença daquela pessoa, abraçando-a e geralmente muito emocionado, sem dizer uma palavra sequer.


Enfim, Sr.Flanelinha, pode ser muita carência, ou talvez uma sensibilidade à flor da pele, mas eu te aceito como você é, e se você quer tomar conta de mim, como hoje, tô precisando mesmo, me senti tão acolhida por você, como se tivesse me pegando no colo...Você falou tão firme comigo, parecia que queria me passar mesmo uma mensagem. Olha, se Jesus Cristo viesse na sua forma, eu ia sugerir que Ele mudasse de profissão, mas eu o aceitaria SIM na minha vida. Obrigada por ter me acolhido e ter feito meio dia um pouquinho diferente...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Amizade

Qual o verdadeiro sentido da amizade ? Tenho pensado muito nisso porque tenho tido acesso aos mais diferentes tipos de amizade nos últimos anos. Aliás, sempre, mas nos últimos anos, com tantos problemas, é que eu tenho prestado mais atenção nisso. Tem os amigos de sempre, que nunca esquecem da gente, nunca. Ligam sempre, chamam para sair, e mesmo ouvindo um não atrás do outro, não desistem...estão sempre lá, prontos para ouvir mais um "não", ou até nos convencer um dia finalmente de sair do nosso "mundinho".

Só que tem também aqueles que têm me chamado particular atenção nos últimos tempos. Pessoas que não faziam parte do nosso dia-a-dia, mas acompanhavam a nossa luta meio de longe, sempre torcendo, rezando, perguntando para algum amigo em comum, enfim, cada um do seu jeito. Com a ida do Felipe, teve aquela comoção toda inicial, mas a vida segue o seu ritmo para todo mundo e a gente fica com aquele vazio do dia-a-dia. E quando a gente acha que tá sozinho nessa, aparecem uns "anjinhos", vindos dos mais diferentes cantos, para tomar conta da gente e tentar nos colocar para cima, para a vida. É difícil aceitar que a vida continua, mas tem horas que precisa alguém vir te dizer isso, te mostrar isso. E nem sempre estou aberta a ouvir. Mas ultimamente me dei um "ultimato" e tenho me dedicado mais às práticas de respiração/meditação da Arte de Viver, o que tem me ajudado muito a esvaziar um pouco a cabeça de tantos pensamentos ruins e consequentemente, a me abrir para ouvir e aceitar coisas boas.

Mas me espanta que pessoas saiam de suas vidas, de suas famílias, quase com uma missão de ir me ver e conversar comigo, me dar um livro bacana para ler, me trazer uma mensagem de alguém que nem me conhece... Elas me fazem acreditar que nesse mundo de tanta gente ruim, de tanta maldade, existem muitas pessoas que só tem amor para distribuir, sem esperar nada em troca, além de ver o outro bem. Isso é muito emocionante e muito bom.

Não gosto de ver ninguém triste, mas como é gostoso estar quietinha em casa e do nada receber um telefonema de uma das tias enfermeiras do Felipe, dizendo que ama a gente e que sente muita saudade dele, que Felipe mudou a sua vida. A outra tia fisio que me chama para almoçar, ambas com saudade uma da outra, e choramos as duas de saudade do Homem Aranha...Tem muita gente que está do nosso lado e nós às vezes nem percebemos direito.

Como posso sentir a solidão com tanto amor que transborda do meu lado ? Amor de marido, de mãe que se preocupa ao me ver tomar um vinhozinho a mais, da sogra que me obriga a tomar um vinhozinho a mais para descontrair...amor de amigo grande e barbudo que nem me conhece direito, de amigo não tão grande chamando para tomar um chopp pela milésima vez, de grande amiga e ex-vizinha dos meus pais, de amigos de sempre, desde a "louca" que me força a ir à academia, até a grávida barriguda que não desiste de me chamar para programas, de esposa do primo que me enche de mensagens carinhosas, da amiga que me vê todo dia mas quebra a rotina me presenteando com meu doce de leite favorito, de tias do Felipe, médicos, amigos de blog, de Arte de Viver, de hospital, de home-care, de faculdade, de colégio, poxa vida...o que é amizade se não a mais pura manifestação de amor de pessoas que simplesmente te querem bem, de verdade, sem pedir nada em troca ?

Como sou abençoada por ter essa corrente do bem em minha volta. Obrigada a cada um de vocês, e sei que não preciso me desculpar por tanta ausência !

terça-feira, 10 de maio de 2011

Reencontrando a Felicidade

No final de semana passado estreiou nos cinemas o filme Reencontrando a Felicidade, que mostra a vida difícil de um casal, 8 meses após a morte de seu único filho, de 4 anos. A Nicole Kidman faz a mãe da criança, e inclusive foi indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação neste filme, mas não ganhou.


Todo mundo deve achar que eu sou louca de querer ver um filme desses né ? Pois eu já tinha assistido ao trailler na internet, e com tanta identificação com tão poucas cenas, senti uma necessidade imensa de assistir. Não sei porquê. Auto flagelo ? Loucura total ? Necessidade de saber que o que eu vivo e sinto é normal ? Enfim, não sei... Mas acontece que pedi ao Leo para ir comigo e claro, ele não queria de jeito nenhum. Mas como eu falei que precisava muito que ele fosse comigo, ele ficou sem saber, mas pediu para eu perguntar para a psicóloga o que ela achava disso. Ela quase me proibiu, mas diante da minha insensata insistência, falou para eu dar um jeito do Leo baixar o filme na internet pois, se eu fosse ver, que fosse em casa e não no cinema. Nem foi preciso, pois eu passei distraidamente na locadora e sem nem procurar, o filme estava lá, olhando pra mim...Claro que eu alguei, e numa sexta-feira a noite, véspera de Dia das Mães, lá fui eu assistir em casa. O Leo "deu um jeito" de não assistir comigo. Assisti sozinha.


No fundo eu também estava com medo de ficar muito mal, mas acabei não ficando. Mas fiquei realmente boba de ver que parecia que era o filme da nossa vida, com exceção que era uma criança com a vida normal, que morreu atropelada correndo atrás do cachorro. Só que o sentimento, a vida, o dia a dia, o vazio, é tudo igual. Isso, no fundo, me deixou quase confortada, de ver que esses sentimentos devem ser normais, tanto que fizeram um filme e, sem nem me perguntarem nada, falaram tudo sobre mim...Estranho foi quase não ter chorado no filme. Não assistam porque é claro que é de chorar, mas acho que porque eu já chorei e choro tanto por tudo aquilo, nem me chocou tanto. Achei bacana que não mostram a morte da criança mas sim a vida após um certo período, quando a "poeira baixou" e a vida tem que continuar. No final, quase dá uma esperança, mas sem ser piegas, vida de verdade...


Outra coisa que me identifiquei foi com a visão sobre o significado disso tudo. Enquanto muitas pessoas, das quais sinto uma certa inveja, se consolam na vontade de Deus, a mãe (Nicole Kidman) fala uma hora para outra mãe, que disse que Deus levou seu filho porque precisava de um anjo: "mas por que Ele não fez um outro anjo ? Ele é Deus, afinal das contas !" Quando falou isso, todo mundo olhou pra ela com olhar de reprovação, como se fosse um E.T.


Só não consegui me enxergar na necessidade dela em se aproximar do rapaz que atropelou o filho dela. Acho que eu preciso morrer e nascer de novo muitas vezes para evoluir desse jeito...o perdão, no meu ponto de vista, não tem que partir de mim. Não consigo perdoar quem não pede perdão...(Eu sei o que todo mundo vai dizer, mas eu não consigo !!!)


Leo disse que vai assistir qualquer dia desses.

terça-feira, 22 de março de 2011

Amores para Sempre


Há dois posts atrás escrevi sobre os "amores descartáveis". Mas no fim de semana passado eu vivenciei a realidade do oposto disso, de um amor de 50 anos. Os pais do Leo, meus sogros, fizeram Bodas de Ouro. Havia a dúvida de como comemorar, e surgiu a ideia de fazermos uma viagem, no meio do caminho entre Rio e São Paulo, já que um dos filhos mora no Rio, e o outro em São Paulo. Então decidimos ir para Paraty. A família inteira, que se resume aos seus dois filhos, esposas e netos. João e Geni com a Marina; Leo e eu com o Lucas, filho de seu primeiro casamento. E nosso anjinho, nós levamos no coração...

Reservamos uma pousadinha simples, pequena, mas muito gostosa, que ficou praticamente para nós. Em frente aos quartos tinha um tipo carramanchão com sofás confortáveis, rede, e foi lá que passamos boa parte do nosso tempo. Eu até brinquei que a pousada poderia ser em qualquer lugar, não precisava ter ido até Paraty, porque nós queríamos mesmo era um lugar gostoso e aconhegante para ficarmos juntos, batendo papo, bebendo, simplesmente curtindo a presença um do outro.

E foi justamente isso que fizemos. Eu me senti leve e feliz ali, desligando um pouco de momentos tão ruins que tenho passado, apesar de não tirar da cabeça o tempo todo como seria se Felipe estivesse ali. Me desculpem, mas pensei...invevitável.. Mas me senti feliz por fazer parte de uma família tão bacana, onde apesar da diferença de cada um, todos se respeitam, se implicam mas se dão bem, querem estar juntos simplesmente por estar, sem grandes programações, sem fazer nenhum esforço, sem nenhuma cobrança, simplesmente curtindo a presença um do outro.

E o amor de 50 anos...este é movido a amizade, preocupação, misturado com implicâncias, umas sérias, outras de brincadeira, mas no final das contas, um não desgruda do outro um só minuto. O dia a dia às vezes é complicado, difícil. Reclamam, mas não vivem sem o outro. Fazem tudo, ou quase tudo, juntos. São amigos, companheiros, com tudo o que isso significa após 50 anos. Com direito a brigas, mau humor, discordâncias, mas sabendo que o mais importante é o companheirismo e o amor que construíram essa vida juntos, e uma família maravilhosa. Eles estavam muito felizes, e eu me senti feliz não só por ter ajudado a proporcionar esse momento a eles, mas também por ter participado da mais verdadeira comemoração de Bodas de Ouro da minha vida. Nenhuma grande festa teria o brilho desses dias tão simples e tão completos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Coisas que Felipe nos Deixou...

Outra dia estava conversando com a Neide, minha ajudante, sobre as histórias de algumas mães que colocam suas vaidades, seus problemas com maridos ou ex-maridos, dentre outras coisas, acima de qualquer coisa, sem se preocupar no efeito de suas atitudes nos seus filhos. Ela me falava de um caso do netinho que pediu uma festinha de aniversário de 5 anos para a avó, mãe do pai, mas a mãe da criança, separada do pai, depois de tudo organizado, não queria liberar a criança para a festinha. Sem pensar que quem mais iria sofrer com isso era seu próprio filho.

Por muitas vezes eu acho que esse mundo tá todo muito errado, com tanta maldade que vejo acontecendo com crianças. Esta história do aniversário não é absolutamente nada se começarmos a lembrar de gente que espeta agulhas em crianças, que joga no rio, que espanca até matar, que joga da janela, enfim...não gosto nem de falar essas coisas porque me faz muito mal, e imagino que também não faça bem ler isso agora. Mas o assunto com ela era esse. E eu disse que por isso não acredito em justiça divina. Tem muita coisa errada, muita gente ruim que não paga por suas maldades, enquanto que tem gente boa que sofre tanto e nem por isso é recompensada com alguma alegria. Neste ponto, ela discordou de mim, como eu imaginava.

Neide também perdeu um filho, com poucos meses de vida, devido a um problema de pulmão. Isso tem 30 anos, e depois dele ela teve outros filhos, e são todos já adultos. Ela me consola com frequência, mas invariavelmente acabamos nós duas chorando...Ela trabalhava comigo quando eu ainda era solteira e, quando eu estava grávida, já tinha planos de sair um tempo depois que Felipe nascesse. Ela fazia curso de cabelereira e tinha o sonho de ter seu próprio salão. Quando Felipe nasceu, e o mundo virou ao contrário, ela adiou esta decisão. Ficou com a gente mais do que planejara, até que as coisas se encaminhassem mais ou menos aqui em casa. No início, como era de se esperar, ela ajudava as enfermeiras, mas não "metia a mão na massa" porque tinha medo de fazer alguma coisa errada e fazer mal a ele. Mas sempre foi muito carinhosa e dedicada a ele.

Quando finalmente foi atrás do seu sonho, ela passou a trabalhar com a gente nos fins de semana, e foi quando chegou a tia Edina, também super dedicada e que nos ensinou muita coisa, pois vinha de uma família com a mesma estrutura, com uma criança com o mesmo home care. Mas depois de um tempo ela precisou sair e a Neide voltou a trabalhar com a gente, mas de um jeito diferente. Eu falei que precisava que ela tomasse conta da situação para que eu pudesse trabalhar sossegada. E de uma hora para outra, como era realmente preciso, passou a ajudar COM O FELIPE e não na casa. Passou a dar banho nele junto com as tias, e ficava um tempão fazendo massagem nos cabelos dele...se precisasse, dava refeições pela gastrostomia, e passou a ser a segunda pessoa, junto com as tias, na troca do curativo da traqueostomia (que não é tarefa nada fácil) e no final até aspirava a boquinha e o nariz dele. E de mão firme, como se tivesse nascido pra aquilo. Ela passou a ser o meu "olho" quando eu estava ausente, e sem eu pedir, também o meu coração. Fazia carinho nele, cantava, conversava, cortava o cabelo dele...e preparava as papinhas dele com tanto carinho...

Até que volto ao assunto que iniciei, que ela acha que existe sim justiça divina, e também pode demorar mas um dia entendemos o significado das coisas. Ela disse que ficou 30 anos tentando entender o porquê de ter perdido seu filho, e eu quase que agressivamente perguntei "e aí, você achou alguma resposta, por acaso ?" Porque eu não consigo ver significado nenhum em tanto sofrimento. E ela disse que sim, ela hoje entende: Felipe foi um presente que recebeu, para ela cuidar, e que cuidando dele ela entendeu a história do filho... Ela tinha que estar preparada para cuidar do Felipe...

Ela me disse que não queria comparar ao meu sentimento, mas que ela ama meu filho como se fosse dela. E dessa vez, foi cada uma para um lado se emocionar sozinha...

domingo, 13 de março de 2011

Amores Descartáveis

Não sou nenhuma leitora de revistas de celebridades, tenho uma preguiça muito grande e pouquíssimo interesse nas vidas das pessoas que por elas circulam. Mas confesso que numa sala de espera de consultório, sempre dou uma folheada nas revistas "Caras" da vida. O que mais me interessa, na verdade, é a informação da idade, fornecida entre parênteses, das mulheres que foram mães recentemente. Chega a ser engraçado, mas é que devido a minha dificuldade de algum tempo em ser mãe novamente, por causa da minha idade, essa informação me interessa em particular...

Mas meu ponto não é esse. Devido à pouca frequência com que vejo essas revistas, me chamam a atenção duas coisas. Primeiro, é a quantidade de gente perfeita e feliz, com corpos lindos, ricas, com filhos lindos, maravilhosos e saudáveis, e o que é melhor, todas ao lado dos verdadeiros amores de suas vidas, almas gêmeas ! Uma fotografia perfeita. Seria tudo muito bonito, se essa fotografia não mudasse em poucas edições da revista. Já repararam na rapidez com que as notícias de capas dessas revistas mudam, com essas mesmas pessoas ? Um dia eu vejo que fulano encontrou o amor de sua vida, faz tatuagem com o nome deste amor, marca casamento, aquela loucura toda, mas poucas revistas depois aparece a notícia dessas mesmas pessoas separadas, dizendo que devido a suas agendas ou algum motivo qualquer, não era possível conciliar o relacionamento.

Não estou aqui falando o certo e o errado do amor, porque cada um tem sua forma de amar, de ser amado e de viver sua vida. Muito menos estou falando somente das celebridades. Elas são somente uma ilustração mais próxima desta realidade e têm suas vidas mais expostas por serem famosas. Mas o que me impressiona é a forma com que se descartam os "grandes amores", de um dia para o outro. Será que não havia mesmo amor de verdade ou as pessoas estão buscando um amor que não existe nem nunca vai existir ? Eu acho que o amor de verdade é difícil mesmo de se manter, dá trabalho, requer paciência e persistência, que são exercícios para toda uma vida juntos. Tem que ter respeito, amizade, e não somente com a "Ilha de Caras" ensolarada ao fundo, mas principalmente nos dias "nublados" e "chuvosos". Mas algumas pessoas desistem tão rápido.

Percebo também como a galera mais nova lida com isso. Hoje em dia (estou parecendo uma velha falando né ?) começam muito cedo a "ficar", com tudo o que têm direito e, sem a menor vergonha, acham o máximo ficar com vários garotos numa mesma festa. Como alguém pode querer encontrar uma pessoa legal numa situação dessas, se não tem respeito a si próprio ? Não sei se isso é uma tendência das novas gerações ou se é uma questão de educação, de conceito de familia. Não sei mesmo. Acho que são as duas coisas, na verdade.

Mas, por outro lado, acabo de ver uma reportagem no Fantástico de um homem que sofreu um acidente quando fazia caça submarina, nas Ilhas Cagarras, aqui no Rio. Ao voltar do mar para o barco, bateu a cabeça no fundo do barco, perdendo seus movimentos no mar, sem ser visto pelo seu amigo. Foi sendo levado pelo mar, por muitas e muitas horas, com a certeza que iria ficar tetraplégico. Mas tudo que queria era ficar lúcido para voltar para sua casa, sua esposa, e ver sua filha crescer, do jeito que fosse. Ele foi resgatado somente numa praia em Niterói, foi operado e sua situação agora é de uma longa jornada até retomar, se retomar, os movimentos. Ele querer voltar de qualquer jeito é normal, é mais esperado. Mas quando aparece a esposa dele falando que só de tê-lo ao lado da família, também lúcido, e do jeito que for, isso pra ela é tudo. Tenho certeza que eles sempre tiveram seus problemas, mas isso me faz ter certeza que, apesar de tudo, tem muita gente que sabe viver o amor de verdade. Dá um trabalho muito grande, mas é tão bom...

terça-feira, 1 de março de 2011

Perfumes e Lembranças

Eu tenho uma sensibilidade forte para cheiros, principalmente os de perfume. Tenho uma coleção de perfumes antigos que eu mesmo usava, em diversas fases da minha vida. Não que eu tivesse a intenção de colecionar perfumes, não é isso. É aquela coisa, você usa um, em uma determinada fase, depois muda a fase, muda o perfume. Isso acontecia comigo, porque eu sempre fui mais ou menos "fiel" aos perfumes que usava, gostava de ter um cheiro que me identificasse, não gostava de ter de uma vez só vários tipos diferentes. Então conforme ia mudando a fase, o perfume anterior ficava lá sem uso, mas eu também não tinha coragem de me desfazer dele. O tempo foi passando e posso dizer que hoje tenho uma pequena coleção de perfumes.

Há algum tempo, arrumando meu armário para tirar coisas que não usava mais, peguei o bauzinho onde guardo esses perfumes, pensando em me desfazer deles, já que não os usava há muito tempo, alguns há muitos anos. Mas eu comecei a tirar a tampa de um por um para sentir o cheiro e ver se ainda havia esperança de um dia usar. Mas a cada um que eu abria e sentia o cheiro, era como se eu me transportasse para a fase da minha vida quando eu o usava. Fase essa que eu nem me lembrava mais, parecia que simplesmente era acionado um botãozinho do tempo...Era como se eu estivesse acessando uma parte esquecida, quase inacessível do meu cérebro. Veio na cabeça o que eu fazia naquela época, escola, faculdade, trabalho no lugar tal, namorado tal...Um tinha o cheiro da minha formatura do colégio e vinha junto a lembrança das pessoas que faziam parte da minha vida nesta época, a roupa que eu usei no dia da festa, como eu me sentia. Outro lembrava a faculdade e os lugares que eu frequentava, as amigas da época, e por aí vai. Uns traziam boas lembranças, outros lembranças estranhas, mas acabou virando uma verdadeira caixinha de memória da minha vida. Não tive coragem de me desfazer de nenhum daqueles perfumes. Ficaram lá no bauzinho, guardando uma vida que só eu sei, sensações e lembranças que eu senti literalmente na pele. Meu bauzinho se tornou quase um patrimônio, fica lá no fundo do meu armário. De vez em quando eu dou uma "chegadinha" lá, abro um ou outro para sentir, e é como se de novo viesse, como num filme, uma sequência de lembranças. É meu "diário" em forma de frascos de perfume

Eu hoje uso algumas coisas que ficaram do Felipe, como cremes hidratantes, shampoos, sabonete, perfume. Aos poucos estão acabando. Mas ele tinha muita coisa, era um menino muito "equipado" para ser cheiroso e gostoso... Mas eu não uso todos os dias, assim sem mais nem menos não. Nunca num banho corrido. O shampoo fica no meu boxe, e eu tenho que estar preparada para aquele momento, é um momento especial. Quando eu começo a usar o shampoo, fecho os olhos, e me transporto para aqueles banhos deliciosos que eu dava nele. Infelizmente não era sempre que eu dava, mas geralmente nos fins de semana, o banho era meu ! Ficava um tempão dando banho nele. Eu achava que ele adorava aquele chuveirinho jorrando água na cabecinha dele, no corpo. Lavava dedinho por dedinho, "dedo mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolo, mata piolho...", cantava pra ele "Felipe não lava o pé, não lava porque não quer..." Ele não me dava a menor bola, mas ficava tão relaxadão...Eu passava shampoo, condicionador, massageando a cabecinha...Eu brincava com as tias pra não me pressionarem para acabar logo, porque aquele era o banho sagrado da mamãe. Era uma delícia. Na verdade, eu acho que eu gostava mais do que ele, aque contato com o corpinho dele, aquele momento de cuidar dele...Depois vinha a hora de arrumá-lo todo gostoso, passar creminho no corpo, passar perfume, pentear, ele ficava um príncipe ! E aquele cheiro tomava conta da casa toda ! A parte chata eram os curativos que vinham depois, mas vou pular esta parte porque estou falando de boas lembranças. Isso ! Todos me falam pra tentar pensar nas coisas boas, ter boas lembranças, e é muito difícil diante de tudo que vivemos. Mas essa é a boa lembrança do dia ! Hoje estou planejando "tomar um banho" do perfume dele, depois do banho de verdade. Vou fechar os olhos...e dormir como se estivesse ao lado do meu anjinho...


p.s. Mudando de assunto, não tenho mais falado nisso, pra não dar uma de maluca, mas depois da história da borboleta amarela, eu as vejo em TODOS os lugares. Acho que eu não prestava atenção nelas antes, mas agora elas pelo menos sempre me fazem sorrir. Mas hoje foi demais. Estava fechando a janela da sala de casa, no sexto andar, e uma borboletona amarela voava do lado de fora, querendo chamar minha atenção. Elas voam assim tão alto, essas borboletas amarelas ?!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Para descontrair um pouco


Por incrível que pareça, uma das coisas mais difíceis de eu fazer quando o Felipe estava aqui é o que tem sido a minha verdadeira terapia atualmente, a malhação. Numa tentativa de preencher o espaço vazio, de não ficar muito em casa, após o trabalho principalmente, eu ocupo este horário na academia. Por mais difícil que isto possa parecer, encontrei na academia um local para me ocupar, sem pensar muito, e o que é melhor, com o Leo. Vamos praticamente todos os dias, e quando chegamos em casa já está tarde, comemos alguma coisa e já é hora de dormir...A noite passa rápido...E isso inclui os sábados. Tenho um professor que me acompanha, porque sem ele eu não acho que conseguiria, já teria desisitido, eu me conheço. Eu digo pra ele que como personal trainer, está se saindo como um excelente psicólogo, mas por motivos diferentes. Eu não falo praticamente nada porque não dá enquanto me exercito. Só ele fala, e um monte de bobagens, fofocas, mal sabe dos meus problemas, e fica tudo bem assim.
Hoje, como todo sábado, começamos nosso dia na academia. Mas o dia acabou sendo diferente, com tudo mais ou menos igual, tudo simples, talvez o olhar estivesse diferente. Ficamos muito felizes por não ter horário para nada. Isso incomoda atualmente, compromissos, hora marcada para alguma coisa, nos finais de semana. Nosso único compromisso era com a gente mesmo, que era ir ao cinema, cujo ingresso já tínhamos comprado cedo.

A preguiça para sair da inércia e ir o cinema foi grande, mas a caminhada até lá foi super agradável. Pela ciclovia da Lagoa, vimos algumas pessoas fantasiadas de Carnaval, indo em direção a um possível bloco. Era cada um mais figura que o outro. Grupos de amigos animadíssimos, pessoas sozinhas, famílias com crianças pequenas, tinha de tudo. O cinema foi ótimo, adorei o filme (Discurso do Rei) e o cinema do Estádio de Remo da Lagoa é num lugar delicioso. Como chegamos mais cedo, ficamos na beira da Lagoa sentindo um ventinho gostoso, tiramos até foto ...

Na volta, mais uma caminhada, já tinha escurecido e vimos várias pessoas voltando do possível bloco e continuamos nos distraindo com cada um que passava. Misturado a eles, tinha gente correndo para se exercitar, tinha família andando de bicicleta, tinha gente jogando futebol. Logo saindo do cinema, nos chamou a atenção a música que estava tocando no bar que fica ao lado da Estação do Corpo, na Lagoa. Não sei o nome, estou tão por fora dessas coisas...Mas o bar estava vazio, nem uma mesa sequer ocupada, e o grupo tocando super bem, com uma moça novinha cantando, e nós ficamos ao fundo assistindo. Quando acabaram, nós batemos palmas ali do fundo e Leo agradeceu a eles, que ficaram super satisfeitos. Acho que só o Leo conhecia a música (mas também o público se resumia a ele e a mim...) Mas eles estavam mesmo fazendo um som muito legal e eu fiquei morrendo de pena de estarem tocando pra ninguém, achei tão deprimente. Mas chegamos a conclusão que estavam ensaiando porque ainda estava cedo, e mais tarde iria encher. Fomos embora nos sentindo melhor com este sentimento, mas a vontade era de sentar ali, pedir uma cerveja e ficar. Poxa vida, programa perfeito, ninguém no bar, um lugar maneiríssimo, super aconchegante, música boa...mas foi o Leo que não quis, achou que o bar estivesse fechado, mas não estava não...eu teria ficado, mesmo estando de bermuda e camiseta, não sei como é o esquema lá.

Seguindo o caminho, nos deparamos com o bloco, que não era bloco, era um show mesmo em frente ao Parque dos Patins, de Carnaval. Paramos para ver o movimento, e tudo corria bem, pessoas beeeem alegres, e comentamos como é estranho observar tudo isso de longe, sem fazer parte da festa. Já fiz - e imagino que o Leo também - parte dessas festas muitas vezes na minha vida, mas a visão de fora é engraçada. O mais interessante foi minha vontade em parar para assistir, achar graça, enquanto que ontem eu estaria na verdade fugindo, fugindo de gente, de alegria, de movimento.


Mais perto de casa, o movimento foi ficando mais calmo, e o Cristo Redentor nos iluminava mais forte que o normal. Perguntei ao Leo se ele tinha reparado que eu estava mais "alegrinha" porque eu estava me esforçando por ele. Ele anda reclamando que eu só escrevo coisas tristes, que eu tô sempre pra baixo. Segundo ele, claro que tinha notado, sinal disso é que ele mesmo estava mais falante. Porque quando eu me calo, triste, acabo influenciando o humor dele também, mas o contrário também acontece. Ele comentou que esperava que aquele momento fosse um bom sinal de alguma coisa. Tenho consciência da minha antipatia ao responder que não era sinal de nada, deixei de me iludir com essas coisas. Mas fomos embora de mãos dadas, dizendo "não" ao vendedor de chupetas iluminadas para o Carnaval. Não é sinal de nada, mas também queria dividir um dia mais leve, recheado de cenas cariocas típicas, que observamos como turistas que não somos, assim de longe, não fazendo parte daquilo mas satisfeitos por estarmos ali.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Silêncio

Sei que é difícil se colocar no meu lugar pois vivi uma situação muito peculiar. É mais fácil entender a mãe que perdeu o filho de 4 anos que deixou sorrisos, brincadeiras, abraços, desenhos, amiguinhos, eu sei disso. Eu não só perdi meu filho há três meses atrás, mas eu já havia perdido o Felipe, de alguma forma, no dia do seu nascimento. Mas ele, por algum motivo, ou simplesmente sem nenhum motivo, ficou aqui, do jeitinho dele, caladinho... Nós vivemos por ele, nós o amamos em silêncio a cada respiração, a cada suspiro, a cada colinho quentinho, a cada banho gostoso, a cada dia sem estresse...Em cada colo eu tinha vontade de colocá-lo de volta para dentro da minha barriga e dar um "rewind" no "filme" para quando eu sentia ele chutando a minha barriga , quando eu o protegia de todos os males. Voltar para quando a VIDA dele era uma certeza.

Eu me considero uma pessoa inteligente, sensata, mas como mãe, tudo é diferente, é outra esfera, e com isso fica muito difícil ouvir certas "verdades". Ouço gente que não conhecia a minha história responder aliviado "ufa, achei que tivesse morrido num acidente" quando eu expliquei a morte do meu filho e da situação que ele vivia. Ou também quem me diz que não entende porque tem pais com filhos muito doentes e sem esperança que ficam tensos a cada vez que este filho fica doente, porque o melhor mesmo é ele morrer. Eu fico pensando se essas pessoas depois pensam com arrependimento do que falaram ou se acharam sensacional esta conversa com a mãe que acabou de perder seu filho. E também me vejo muitas vezes tentando me explicar, como se eu não tivesse o direito de estar triste, respondendo que tá difícil me reerguer, porque perder um filho, do jeito que for, é muito ruim.

Em momento algum, mas em nenhum segundo de sua vida, o Felipe foi um peso na minha vida. Minha vida não está melhor sem ele. É tudo muito louco. Mas pode ser também que eu seja a louca... Preciso de algumas vidas para evoluir e entender tudo isso em paz. Toda a história do Felipe era motivo obviamente de MUITA tristeza, mas eu dediquei minha vida a fazer com que o tempo que ele ficasse aqui com a gente, fosse da melhor forma possível. A consequência disso foi o tanto de coisa boa que ele proporcionou a todos que o cercavam, pela sua simples existência. Será que eu estou tão louca assim por estar triste, já que o Felipe não tinha esperança ?

Não é justo exigir racionalidade de uma mãe que praticamente perdeu o filho no parto e que sofreu a angústia da iminência de sua morte por quase 4 anos. Eu sei que ele descansou, não tenho dúvida disso. Essa vida que lhe foi imposta não era vida digna, apesar de todo o amor e carinho que ele recebia. Não era justo com ele, eu sei. Mas eu sempre falo isso: você desejar que o melhor para o seu filho é morrer, isso tem uma história por trás muito pesada e muito ruim, e é essa história que não sai da minha cabeça. É isso que eu tenho que trabalhar, tirar tanta lembrança ruim da minha cabeça. É difícil ter boas lembranças agora, com a história que a gente viveu. Mas enquanto isso, tô seguindo a vida do jeito que dá, e por sorte, rodeada de amigos que não sabem o que falar mas me cercam com suas presenças, seus abraços, sem nada a dizer. Mas infelizmente o dia a dia é frio e racional. Sem saber o que dizer, algumas pessoas falam qualquer coisa sem pensar, sem noção do estrago das suas palavras não pensadas.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Necessidade Material

Eu tenho a nítida sensação que ninguém, mas ninguém neste mundo todo, entende o que eu estou sentindo. Quando eu digo ninguém, é ninguém mesmo. Aí eu paro para pensar que é injustiça, que claro que tem sim. Fico pensando nas pessoas que perderam a família inteira, vários filhos, suas casas...e aí meu sentimento não muda não, mas fico então pensando que deve ter sim muita gente sofrendo muito, como eu, por aí. O que essas pessoas estão fazendo agora ? Eles estão conseguindo viver ? Alguém consegue ter vontade de fazer alguma coisa ? Não acho que deveria existir dor como essa dentro do coração de absolutamente nenhuma pessoa nesse mundo.

Prometo que não vou entrar no detalhe do meu sofrimento. Já falei que não quero que as pessoas se sintam mal em ler o blog por ser muito triste. Mas também me desculpem, mas não tenho nada de muito alto astral pra dizer.

Queria dividir a dureza das decisões que temos que passar no meio disso tudo. Uma delas é a separação física de tudo o que era material da pessoa que perdemos. Muitas pessoas me perguntam se a gente não vai se mudar da nossa casa. Eu entendo a preocupação, mas não compreendo...não acho que iria mudar nada. Sei que a presença do Felipe é muito forte na nossa casa, mas será em qualquer outro lugar, eu sinceramente não imagino que o fato de não ter mais o quarto que foi dele irá mudar a dor de nenhuma forma. Posso estar errada também, na verdade estou descobrindo tudo isso vivendo, e ainda estou no começo...
Mas também sei que tem gente que não mexe no quarto, deixa intacto. Será que não é muito mais sofrimento ? Eu até outro dia entrava no quarto do Felipe todo dia e era muito forte a AUSÊNCIA dele. Eu cheguei ao ponto de pedir para a minha ajudante não tirar nem o lençol da cama dele...mas isso é muito doloroso.
Aos poucos fui pedindo para ela fazer algumas mudanças na minha ausência. E agora então decidimos fazer uma reforma no quarto dele, vamos transformá-lo num escritório. Mas para isso, que dureza foi tirar de vez o quartinho dele do jeito que era. Ainda não consegui me desfazer das coisas pessoais dele, elas por enquanto mudaram de lugar. Mas devagar, eu vou separando para resolver o que fazer depois. Mas quando esvaziei o quarto, tirei a cama dele, e passei para o outro quarto, foi como estivesse carimbando que ele nunca mais iria voltar. Como foi difícil. Como nós somos apegados a essas coisas ! Eu queria tanto pensar de outra forma...Os travesseirinhos que ele usava estão TODOS (e não são poucos) na nossa cama, com as mesmas fronhas, sem trocar. São as fronhas que tocaram nele. Eu queria o cheirinho dele pra sempre lá, mas é claro que de tanto usar, não tem mais o cheiro dele, e daqui a pouco vão estar imundas, mas não consigo tirar pra lavar. Uma das dificuldades em dormir em paz é administrar todos os travesseiros e almofadinhas perto de mim. Como se estivesse dando preferência a uma almofadinha, e a outra pode ficar chateada...que loucura, mas é uma necessidade muito grande de tocar, sentir a coisa material que representava a existência dele, a presença dele.

Não sei se manter o quarto intacto, no fundo, deixa uma situação inacabada...não sei explicar, mas sei que desmanchar tudo foi horrível. Eu ficava disfarçando para não chorar na frente do marceneiro que estava desmontando a cama dele, agora disfarço para não chorar na frente da pessoa que está pintando o "novo" quarto...eu não tô conseguindo participar de quase nada da mudança. Mas acho que, no fundo, lááá na frente, vai ser melhor do que se ficarmos todo dia convivendo com o quartinho dele todo montado, como se ele fosse voltar a qualquer momento de algum lugar...Ele não vai voltar...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um Pouco de Poesia...

Sempre ouvi minha mãe recitar este poema. Achava lindo, mas não entendia nada ! Engraçado como de repente eu entendi tudo...e me identifiquei tanto...

O que há em mim é sobretudo cansaço
(Fernando Pessoa)

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, êle mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum dêles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para êles a vida vivida ou sonhada,
Para êles o sonho sonhado ou vivido,
Para êles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Querida Iris


Ontem recebi um comentário no blog da Iris, minha querida e muito amada sobrinha. Iris é uma flor na minha vida, tenho por ela amor de mãe. Queria dividir as lindas palavras dela. Me emocionei muito quando li, e não tive nem coragem de ligar para agradecer. Então aqui, minha querida, está o meu "obrigada" e minha admiração.

"Tia, parece que hoje eu tirei o dia para lembrar do Felipe.. escrevi isso, não sei se vai gostar, mas é o que a inspiração do momento quis dizer...

Eu ouvi falar, que existe uma vida dentro de nós que é chama,
E queima sempre que deixamos alguém que amamos voar para longe
Eu ouvi falar, e foi um anjinho, que por pouco tempo,
Muito pouco tempo esteve perto de mim
Mas me tocou no momento em que meu coração queimou e me disse que iria voar para bem longe,
mas que iria voltar com um sorriso que só as mães reconhecem
um sorriso que é um mistério para o mundo que um dia soube seu nome
eu não sabia que precisava de tempo para sentir a dimensão do que as coisas realmente são
mas agora que ele voou para longe, cada tempo que passa, torna a dimensão da chama maior
ela se mistura com lágrimas, lamentos, e perguntas que não têm respostas
mas eu lembro o que o anjo me disse que ele iria voltar,
de um lugar não tão distante de nosso amor e que quando o víssemos
ele iria sorrir um sorriso que poucas mães reconhecem."

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Felipe, minha vida


Hoje é um dia especialmente estranho. Você estaria completando 4 aninhos. Seria um dia estranho também se você estivesse aqui, a gente estaria triste imaginando o que você estaria fazendo se nada tivesse acontecido com você...Mas as tias iriam fazer bagunça com você, as vovós iriam aparecer pra te dar muitos beijos, os amigos iriam ligar aos poucos, e no final do dia nossa casa iria estar cheia de gente que queria só te dar um beijinho (e na mamãe e no papai também...). Você ia ganhar um monte de presente legal, roupinhas lindas, almofadinhas FOM, bichos malucos, enfim...da tristeza, mamãe iria se ver às voltas comprando de última hora alguma coisa para servir para seus tantos amigos que iriam encher nossa casa de energia boa. Você ia ficar lá, todo gostoso, só recebendo mil beijos e apertões, ia ficar um pouquinho na sala, mas depois mamãe iria querer deixar você quietinho no seu lugar preferido, sua cama deliciosa ! E no final das contas, o dia iria ser um pouco mais leve graças a tantos amigos legais que você tem.

Hoje você não está aqui, mamãe e papai estão meio perdidos, mas eu queria só te mandar coisas boas hoje. Meu principal presente para você será tentar passar este dia sem tanta tristeza. E queria também te dar um outro presente que ilustra isso, que na verdade foi um presente que a mamãe ganhou dias depois que você partiu. Essa ilustração aí em cima...Ela foi feita pela Sandra Ronca, que é prima da tia Marcia. Ela também tem um anjinho no céu, que perdeu de uma forma muito ruim. O anjinho dela se chama Hugo, e ele estava jogando futebol no Clube Federal, no Alto Leblon, quando levou uma bala perdia. Isso foi no mesmo ano que você nasceu, em 2007. Essa história saiu em todos os jornais, e mamãe sofreu cada minuto da angústia dela, só que de longe, sabendo notícias pela tia Marcia. Mamãe até escreveu uma cartinha pra ela na época. Enfim, ela é ilustradora de livros infantis, e tem um trabalho maravilhoso (www.sandraronca.com.br). Mas pra mim, este é o mais lindo de todos, pois conseguiu da forma mais perfeita e sutil, ilustrar o seu sentimento de mãe deixando o coração partido voar...seguir...Então esse, filho, é meu presente pra você hoje. Queria te mostrar como está meu coração, e como vou deixá-lo livre para você poder ficar em paz. Mas preste atenção em cada detalhe, nos bichinhos, no coração machucadinho...Te amo, filho, e você estará para sempre no meu coração.

Da sua mamãe

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Borboleta Amarela

Tenho estado quieta nos últimos dias. Leo e eu passamos as noites de Natal e Ano Novo viajando, sem tomar qualquer conhecimento das datas. Foi bom assim. Sabe aquela coisa que algumas pessoas falam: queria dormir no dia 23 de dezembro e acordar no dia 2 de janeiro ? Então, foi mais ou menos assim. Foi bom ter viajado, apesar da viagem não ter sido propriamente boa, se é que vocês me entendem...

Não tenho escrito porque ando muito baixo astral e não quero transformar o blog em fonte de sofrimento para as pessoas que nos acompanham com tanto carinho. Resolvi ficar quietinha e quando tivesse alguma coisa mais leve para dizer, eu escreveria.

O maior vazio da ausência do Felipe, e imagino para todos que perdem alguém querido, principalmente um filho, da forma que for, é a falta de explicação daquela separação física. Acho que por mais que a gente tenha uma fé, quando acontece a dor da perda e da saudade, ela é muito superior a qualquer crença de que "ele está melhor", "ele continua vivo nos nossos corações", enfim...Isso conforta, mas eu sou muito racional normalmente, acredito naquilo que eu vejo, que eu tenho provas. Nós conhecemos histórias de todas as crenças que comprovam as suas respectivas doutrinas, então, com tantas provas de todos os lados, eu fico confusa. Que existe vida após a morte, eu acredito, mas como é isso ? Eu queria mesmo acreditar que a pessoa que foi, continua do mesmo jeito, e que nós vamos sim nos encontrar um dia, mas vamos nos reconhecer. Porque o que me adianta encontrar se eu não o reconhecer como meu filho, nem ele me reconhecer como sua mãe ? O que adianta eu encontrar com meu pai, se não nos reconhecermos ? E encontrar como ? Como funciona ? Não entendo. Temos muitos relatos de mediuns mas ninguém nunca morreu de verdade e voltou pra contar tudo diretinho como é. Ou já ? Sim, já, de uma certa forma.

A Juliana, minha querida amiga, me deu um livro que foi indicado pela médica dela, minha ex (infelizmente) médica também. Chama-se "A Roda da Vida", escrito por uma médica suíça, radicada nos EUA, chamada Elisabeth Kubler-Ross, que faleceu há alguns anos atrás. Ela era psiquiatra e o trabalho dela foi todo em cima de pacientes terminais, lutando pela dignidade que eles precisam ter no final de suas vidas, indo além, aprofundando seu estudo sobre a morte propriamente dita e seu significado. Ela fez anos de estudos usando relatos de pessoas que tiveram experiências de "quase-morte", ou seja, que chegaram "lá", mas voltaram. E todos os relatos são muito parecidos, e me lembraram muito os últimos dias de vida da minha querida vó Mathilde. Minha família me contava, e quando eu estive com ela, uma semana antes dela partir (ela morava no interior de SP), eu vi pessoalmente, como ela estava cercada de parentes já falecidos, inclusive meu avô, marido dela, que tinha falecido há muitos anos atrás. Ela conversava com eles, falava deles, e momentos antes de morrer deixou claro que alguns estavam lá ao lado dela. Vieram buscá-la ? Como ela os via ? Uma luz, uma sombra, não sabemos, ela não estava mais muito consciente, mas que eles estavam lá, estavam. E conheço outros relatos de pessoas conhecidas que falam mais ou menos a mesma coisa. O que eu quero dizer com isso tudo ? Não sei...mas estou num processo de conhecimento da morte, da passagem. Quero entender onde está o Felipe.

Outro dia eu onversei com minha comadre e prima Lucia, que é espírita e também perdeu um bebê com poucos meses de idade, há muitos anos atrás, em função de um incidente banal, que ela diz que até hoje não entendeu muito bem. Ela me falou para conversar com o Felipe como se ele estivesse aqui, ou como se estivesse no telefone, ou seja, apenas longe fisicamente, mas não conversar com tristeza. Então eu comecei agora a falar com ele de uma outra forma, sem mostrar meu desespero. Converso com ele no banho, quando uso seu sabonete e aquele cheiro toma conta da minha alma, quando uso o perfume dele, quando vou dormir. É difícil fazer desse momento um momento não doloroso, mas estou "em treinamento". No início desta semana quando estava lendo este livro que mencionei, ela falava sobre a analogia da morte com a borboleta saindo do casulo e voando. Ela só tirou a casca e continuou a vida em um formato diferente. Aí eu me lembrei de um pedido que eu tinha feito ao Felipe no dia anterior. Fechei os olhos e comecei a conversar com ele. Acho que entrei numa outra esfera que não sei explicar direito. Mas eu pedi para ele me mandar um sinal, o dia que pudesse, que ele estava me "ouvindo". Falei que o dia que eu visse uma borboleta amarela eu iria entender que ele estava me sentindo de alguma forma. Eu até falei que eu não tinha pressa, eu esperava o tempo que fosse...ontem repeti meu pedido a ele, disse que eu continuava esperando mas só queria lembrá-lo.
Hoje eu estava em frente ao prédio do meu escritório, conversando distraidamente com a Marcia, e senti um arrepio invadindo meu corpo todo, uma descarga de eletricidade, porque dei de cara com uma borboleta toda amarela. Gelei. Falei rapidamente com a Marcia, que disse que não estava vendo. Pensei por alguns segundo que eu poderia estar vendo coisas, mas logo ela viu também. Sei lá. Pode ter sido coincidência, não sei...mas abri um sorriso de muita alegria.
Acho que se a gente começar a voltar nossos olhos para o que acontece ao nosso redor, conforme a Marcia conversou comigo, tem muita coisa acontecendo, muitos sinais nos sendo dados, mas nossos olhos não estão focados naquilo, estão distraídos com a correria do dia-a-dia. Hoje eu tive a certeza que o Felipe me mandou aquela linda borboleta amarela.

Como eu falei, estou "em treinamento". Estou querendo ler, estudar, entender esse misterioso lugar onde se encontra meu anjinho, meu pai, minha avó. Procuro isso para ficar leve, porque eu estou muito pesada ainda, com uma sensação ruim de que tudo acabou. Mas se eu continuar vendo borboletas amarelas, acho que o caminho fica um pouquinho mais bonito...