Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um Pouco de Poesia...

Sempre ouvi minha mãe recitar este poema. Achava lindo, mas não entendia nada ! Engraçado como de repente eu entendi tudo...e me identifiquei tanto...

O que há em mim é sobretudo cansaço
(Fernando Pessoa)

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, êle mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum dêles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para êles a vida vivida ou sonhada,
Para êles o sonho sonhado ou vivido,
Para êles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Querida Iris


Ontem recebi um comentário no blog da Iris, minha querida e muito amada sobrinha. Iris é uma flor na minha vida, tenho por ela amor de mãe. Queria dividir as lindas palavras dela. Me emocionei muito quando li, e não tive nem coragem de ligar para agradecer. Então aqui, minha querida, está o meu "obrigada" e minha admiração.

"Tia, parece que hoje eu tirei o dia para lembrar do Felipe.. escrevi isso, não sei se vai gostar, mas é o que a inspiração do momento quis dizer...

Eu ouvi falar, que existe uma vida dentro de nós que é chama,
E queima sempre que deixamos alguém que amamos voar para longe
Eu ouvi falar, e foi um anjinho, que por pouco tempo,
Muito pouco tempo esteve perto de mim
Mas me tocou no momento em que meu coração queimou e me disse que iria voar para bem longe,
mas que iria voltar com um sorriso que só as mães reconhecem
um sorriso que é um mistério para o mundo que um dia soube seu nome
eu não sabia que precisava de tempo para sentir a dimensão do que as coisas realmente são
mas agora que ele voou para longe, cada tempo que passa, torna a dimensão da chama maior
ela se mistura com lágrimas, lamentos, e perguntas que não têm respostas
mas eu lembro o que o anjo me disse que ele iria voltar,
de um lugar não tão distante de nosso amor e que quando o víssemos
ele iria sorrir um sorriso que poucas mães reconhecem."

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Felipe, minha vida


Hoje é um dia especialmente estranho. Você estaria completando 4 aninhos. Seria um dia estranho também se você estivesse aqui, a gente estaria triste imaginando o que você estaria fazendo se nada tivesse acontecido com você...Mas as tias iriam fazer bagunça com você, as vovós iriam aparecer pra te dar muitos beijos, os amigos iriam ligar aos poucos, e no final do dia nossa casa iria estar cheia de gente que queria só te dar um beijinho (e na mamãe e no papai também...). Você ia ganhar um monte de presente legal, roupinhas lindas, almofadinhas FOM, bichos malucos, enfim...da tristeza, mamãe iria se ver às voltas comprando de última hora alguma coisa para servir para seus tantos amigos que iriam encher nossa casa de energia boa. Você ia ficar lá, todo gostoso, só recebendo mil beijos e apertões, ia ficar um pouquinho na sala, mas depois mamãe iria querer deixar você quietinho no seu lugar preferido, sua cama deliciosa ! E no final das contas, o dia iria ser um pouco mais leve graças a tantos amigos legais que você tem.

Hoje você não está aqui, mamãe e papai estão meio perdidos, mas eu queria só te mandar coisas boas hoje. Meu principal presente para você será tentar passar este dia sem tanta tristeza. E queria também te dar um outro presente que ilustra isso, que na verdade foi um presente que a mamãe ganhou dias depois que você partiu. Essa ilustração aí em cima...Ela foi feita pela Sandra Ronca, que é prima da tia Marcia. Ela também tem um anjinho no céu, que perdeu de uma forma muito ruim. O anjinho dela se chama Hugo, e ele estava jogando futebol no Clube Federal, no Alto Leblon, quando levou uma bala perdia. Isso foi no mesmo ano que você nasceu, em 2007. Essa história saiu em todos os jornais, e mamãe sofreu cada minuto da angústia dela, só que de longe, sabendo notícias pela tia Marcia. Mamãe até escreveu uma cartinha pra ela na época. Enfim, ela é ilustradora de livros infantis, e tem um trabalho maravilhoso (www.sandraronca.com.br). Mas pra mim, este é o mais lindo de todos, pois conseguiu da forma mais perfeita e sutil, ilustrar o seu sentimento de mãe deixando o coração partido voar...seguir...Então esse, filho, é meu presente pra você hoje. Queria te mostrar como está meu coração, e como vou deixá-lo livre para você poder ficar em paz. Mas preste atenção em cada detalhe, nos bichinhos, no coração machucadinho...Te amo, filho, e você estará para sempre no meu coração.

Da sua mamãe

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Borboleta Amarela

Tenho estado quieta nos últimos dias. Leo e eu passamos as noites de Natal e Ano Novo viajando, sem tomar qualquer conhecimento das datas. Foi bom assim. Sabe aquela coisa que algumas pessoas falam: queria dormir no dia 23 de dezembro e acordar no dia 2 de janeiro ? Então, foi mais ou menos assim. Foi bom ter viajado, apesar da viagem não ter sido propriamente boa, se é que vocês me entendem...

Não tenho escrito porque ando muito baixo astral e não quero transformar o blog em fonte de sofrimento para as pessoas que nos acompanham com tanto carinho. Resolvi ficar quietinha e quando tivesse alguma coisa mais leve para dizer, eu escreveria.

O maior vazio da ausência do Felipe, e imagino para todos que perdem alguém querido, principalmente um filho, da forma que for, é a falta de explicação daquela separação física. Acho que por mais que a gente tenha uma fé, quando acontece a dor da perda e da saudade, ela é muito superior a qualquer crença de que "ele está melhor", "ele continua vivo nos nossos corações", enfim...Isso conforta, mas eu sou muito racional normalmente, acredito naquilo que eu vejo, que eu tenho provas. Nós conhecemos histórias de todas as crenças que comprovam as suas respectivas doutrinas, então, com tantas provas de todos os lados, eu fico confusa. Que existe vida após a morte, eu acredito, mas como é isso ? Eu queria mesmo acreditar que a pessoa que foi, continua do mesmo jeito, e que nós vamos sim nos encontrar um dia, mas vamos nos reconhecer. Porque o que me adianta encontrar se eu não o reconhecer como meu filho, nem ele me reconhecer como sua mãe ? O que adianta eu encontrar com meu pai, se não nos reconhecermos ? E encontrar como ? Como funciona ? Não entendo. Temos muitos relatos de mediuns mas ninguém nunca morreu de verdade e voltou pra contar tudo diretinho como é. Ou já ? Sim, já, de uma certa forma.

A Juliana, minha querida amiga, me deu um livro que foi indicado pela médica dela, minha ex (infelizmente) médica também. Chama-se "A Roda da Vida", escrito por uma médica suíça, radicada nos EUA, chamada Elisabeth Kubler-Ross, que faleceu há alguns anos atrás. Ela era psiquiatra e o trabalho dela foi todo em cima de pacientes terminais, lutando pela dignidade que eles precisam ter no final de suas vidas, indo além, aprofundando seu estudo sobre a morte propriamente dita e seu significado. Ela fez anos de estudos usando relatos de pessoas que tiveram experiências de "quase-morte", ou seja, que chegaram "lá", mas voltaram. E todos os relatos são muito parecidos, e me lembraram muito os últimos dias de vida da minha querida vó Mathilde. Minha família me contava, e quando eu estive com ela, uma semana antes dela partir (ela morava no interior de SP), eu vi pessoalmente, como ela estava cercada de parentes já falecidos, inclusive meu avô, marido dela, que tinha falecido há muitos anos atrás. Ela conversava com eles, falava deles, e momentos antes de morrer deixou claro que alguns estavam lá ao lado dela. Vieram buscá-la ? Como ela os via ? Uma luz, uma sombra, não sabemos, ela não estava mais muito consciente, mas que eles estavam lá, estavam. E conheço outros relatos de pessoas conhecidas que falam mais ou menos a mesma coisa. O que eu quero dizer com isso tudo ? Não sei...mas estou num processo de conhecimento da morte, da passagem. Quero entender onde está o Felipe.

Outro dia eu onversei com minha comadre e prima Lucia, que é espírita e também perdeu um bebê com poucos meses de idade, há muitos anos atrás, em função de um incidente banal, que ela diz que até hoje não entendeu muito bem. Ela me falou para conversar com o Felipe como se ele estivesse aqui, ou como se estivesse no telefone, ou seja, apenas longe fisicamente, mas não conversar com tristeza. Então eu comecei agora a falar com ele de uma outra forma, sem mostrar meu desespero. Converso com ele no banho, quando uso seu sabonete e aquele cheiro toma conta da minha alma, quando uso o perfume dele, quando vou dormir. É difícil fazer desse momento um momento não doloroso, mas estou "em treinamento". No início desta semana quando estava lendo este livro que mencionei, ela falava sobre a analogia da morte com a borboleta saindo do casulo e voando. Ela só tirou a casca e continuou a vida em um formato diferente. Aí eu me lembrei de um pedido que eu tinha feito ao Felipe no dia anterior. Fechei os olhos e comecei a conversar com ele. Acho que entrei numa outra esfera que não sei explicar direito. Mas eu pedi para ele me mandar um sinal, o dia que pudesse, que ele estava me "ouvindo". Falei que o dia que eu visse uma borboleta amarela eu iria entender que ele estava me sentindo de alguma forma. Eu até falei que eu não tinha pressa, eu esperava o tempo que fosse...ontem repeti meu pedido a ele, disse que eu continuava esperando mas só queria lembrá-lo.
Hoje eu estava em frente ao prédio do meu escritório, conversando distraidamente com a Marcia, e senti um arrepio invadindo meu corpo todo, uma descarga de eletricidade, porque dei de cara com uma borboleta toda amarela. Gelei. Falei rapidamente com a Marcia, que disse que não estava vendo. Pensei por alguns segundo que eu poderia estar vendo coisas, mas logo ela viu também. Sei lá. Pode ter sido coincidência, não sei...mas abri um sorriso de muita alegria.
Acho que se a gente começar a voltar nossos olhos para o que acontece ao nosso redor, conforme a Marcia conversou comigo, tem muita coisa acontecendo, muitos sinais nos sendo dados, mas nossos olhos não estão focados naquilo, estão distraídos com a correria do dia-a-dia. Hoje eu tive a certeza que o Felipe me mandou aquela linda borboleta amarela.

Como eu falei, estou "em treinamento". Estou querendo ler, estudar, entender esse misterioso lugar onde se encontra meu anjinho, meu pai, minha avó. Procuro isso para ficar leve, porque eu estou muito pesada ainda, com uma sensação ruim de que tudo acabou. Mas se eu continuar vendo borboletas amarelas, acho que o caminho fica um pouquinho mais bonito...