Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 22 de março de 2011

Amores para Sempre


Há dois posts atrás escrevi sobre os "amores descartáveis". Mas no fim de semana passado eu vivenciei a realidade do oposto disso, de um amor de 50 anos. Os pais do Leo, meus sogros, fizeram Bodas de Ouro. Havia a dúvida de como comemorar, e surgiu a ideia de fazermos uma viagem, no meio do caminho entre Rio e São Paulo, já que um dos filhos mora no Rio, e o outro em São Paulo. Então decidimos ir para Paraty. A família inteira, que se resume aos seus dois filhos, esposas e netos. João e Geni com a Marina; Leo e eu com o Lucas, filho de seu primeiro casamento. E nosso anjinho, nós levamos no coração...

Reservamos uma pousadinha simples, pequena, mas muito gostosa, que ficou praticamente para nós. Em frente aos quartos tinha um tipo carramanchão com sofás confortáveis, rede, e foi lá que passamos boa parte do nosso tempo. Eu até brinquei que a pousada poderia ser em qualquer lugar, não precisava ter ido até Paraty, porque nós queríamos mesmo era um lugar gostoso e aconhegante para ficarmos juntos, batendo papo, bebendo, simplesmente curtindo a presença um do outro.

E foi justamente isso que fizemos. Eu me senti leve e feliz ali, desligando um pouco de momentos tão ruins que tenho passado, apesar de não tirar da cabeça o tempo todo como seria se Felipe estivesse ali. Me desculpem, mas pensei...invevitável.. Mas me senti feliz por fazer parte de uma família tão bacana, onde apesar da diferença de cada um, todos se respeitam, se implicam mas se dão bem, querem estar juntos simplesmente por estar, sem grandes programações, sem fazer nenhum esforço, sem nenhuma cobrança, simplesmente curtindo a presença um do outro.

E o amor de 50 anos...este é movido a amizade, preocupação, misturado com implicâncias, umas sérias, outras de brincadeira, mas no final das contas, um não desgruda do outro um só minuto. O dia a dia às vezes é complicado, difícil. Reclamam, mas não vivem sem o outro. Fazem tudo, ou quase tudo, juntos. São amigos, companheiros, com tudo o que isso significa após 50 anos. Com direito a brigas, mau humor, discordâncias, mas sabendo que o mais importante é o companheirismo e o amor que construíram essa vida juntos, e uma família maravilhosa. Eles estavam muito felizes, e eu me senti feliz não só por ter ajudado a proporcionar esse momento a eles, mas também por ter participado da mais verdadeira comemoração de Bodas de Ouro da minha vida. Nenhuma grande festa teria o brilho desses dias tão simples e tão completos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Coisas que Felipe nos Deixou...

Outra dia estava conversando com a Neide, minha ajudante, sobre as histórias de algumas mães que colocam suas vaidades, seus problemas com maridos ou ex-maridos, dentre outras coisas, acima de qualquer coisa, sem se preocupar no efeito de suas atitudes nos seus filhos. Ela me falava de um caso do netinho que pediu uma festinha de aniversário de 5 anos para a avó, mãe do pai, mas a mãe da criança, separada do pai, depois de tudo organizado, não queria liberar a criança para a festinha. Sem pensar que quem mais iria sofrer com isso era seu próprio filho.

Por muitas vezes eu acho que esse mundo tá todo muito errado, com tanta maldade que vejo acontecendo com crianças. Esta história do aniversário não é absolutamente nada se começarmos a lembrar de gente que espeta agulhas em crianças, que joga no rio, que espanca até matar, que joga da janela, enfim...não gosto nem de falar essas coisas porque me faz muito mal, e imagino que também não faça bem ler isso agora. Mas o assunto com ela era esse. E eu disse que por isso não acredito em justiça divina. Tem muita coisa errada, muita gente ruim que não paga por suas maldades, enquanto que tem gente boa que sofre tanto e nem por isso é recompensada com alguma alegria. Neste ponto, ela discordou de mim, como eu imaginava.

Neide também perdeu um filho, com poucos meses de vida, devido a um problema de pulmão. Isso tem 30 anos, e depois dele ela teve outros filhos, e são todos já adultos. Ela me consola com frequência, mas invariavelmente acabamos nós duas chorando...Ela trabalhava comigo quando eu ainda era solteira e, quando eu estava grávida, já tinha planos de sair um tempo depois que Felipe nascesse. Ela fazia curso de cabelereira e tinha o sonho de ter seu próprio salão. Quando Felipe nasceu, e o mundo virou ao contrário, ela adiou esta decisão. Ficou com a gente mais do que planejara, até que as coisas se encaminhassem mais ou menos aqui em casa. No início, como era de se esperar, ela ajudava as enfermeiras, mas não "metia a mão na massa" porque tinha medo de fazer alguma coisa errada e fazer mal a ele. Mas sempre foi muito carinhosa e dedicada a ele.

Quando finalmente foi atrás do seu sonho, ela passou a trabalhar com a gente nos fins de semana, e foi quando chegou a tia Edina, também super dedicada e que nos ensinou muita coisa, pois vinha de uma família com a mesma estrutura, com uma criança com o mesmo home care. Mas depois de um tempo ela precisou sair e a Neide voltou a trabalhar com a gente, mas de um jeito diferente. Eu falei que precisava que ela tomasse conta da situação para que eu pudesse trabalhar sossegada. E de uma hora para outra, como era realmente preciso, passou a ajudar COM O FELIPE e não na casa. Passou a dar banho nele junto com as tias, e ficava um tempão fazendo massagem nos cabelos dele...se precisasse, dava refeições pela gastrostomia, e passou a ser a segunda pessoa, junto com as tias, na troca do curativo da traqueostomia (que não é tarefa nada fácil) e no final até aspirava a boquinha e o nariz dele. E de mão firme, como se tivesse nascido pra aquilo. Ela passou a ser o meu "olho" quando eu estava ausente, e sem eu pedir, também o meu coração. Fazia carinho nele, cantava, conversava, cortava o cabelo dele...e preparava as papinhas dele com tanto carinho...

Até que volto ao assunto que iniciei, que ela acha que existe sim justiça divina, e também pode demorar mas um dia entendemos o significado das coisas. Ela disse que ficou 30 anos tentando entender o porquê de ter perdido seu filho, e eu quase que agressivamente perguntei "e aí, você achou alguma resposta, por acaso ?" Porque eu não consigo ver significado nenhum em tanto sofrimento. E ela disse que sim, ela hoje entende: Felipe foi um presente que recebeu, para ela cuidar, e que cuidando dele ela entendeu a história do filho... Ela tinha que estar preparada para cuidar do Felipe...

Ela me disse que não queria comparar ao meu sentimento, mas que ela ama meu filho como se fosse dela. E dessa vez, foi cada uma para um lado se emocionar sozinha...

domingo, 13 de março de 2011

Amores Descartáveis

Não sou nenhuma leitora de revistas de celebridades, tenho uma preguiça muito grande e pouquíssimo interesse nas vidas das pessoas que por elas circulam. Mas confesso que numa sala de espera de consultório, sempre dou uma folheada nas revistas "Caras" da vida. O que mais me interessa, na verdade, é a informação da idade, fornecida entre parênteses, das mulheres que foram mães recentemente. Chega a ser engraçado, mas é que devido a minha dificuldade de algum tempo em ser mãe novamente, por causa da minha idade, essa informação me interessa em particular...

Mas meu ponto não é esse. Devido à pouca frequência com que vejo essas revistas, me chamam a atenção duas coisas. Primeiro, é a quantidade de gente perfeita e feliz, com corpos lindos, ricas, com filhos lindos, maravilhosos e saudáveis, e o que é melhor, todas ao lado dos verdadeiros amores de suas vidas, almas gêmeas ! Uma fotografia perfeita. Seria tudo muito bonito, se essa fotografia não mudasse em poucas edições da revista. Já repararam na rapidez com que as notícias de capas dessas revistas mudam, com essas mesmas pessoas ? Um dia eu vejo que fulano encontrou o amor de sua vida, faz tatuagem com o nome deste amor, marca casamento, aquela loucura toda, mas poucas revistas depois aparece a notícia dessas mesmas pessoas separadas, dizendo que devido a suas agendas ou algum motivo qualquer, não era possível conciliar o relacionamento.

Não estou aqui falando o certo e o errado do amor, porque cada um tem sua forma de amar, de ser amado e de viver sua vida. Muito menos estou falando somente das celebridades. Elas são somente uma ilustração mais próxima desta realidade e têm suas vidas mais expostas por serem famosas. Mas o que me impressiona é a forma com que se descartam os "grandes amores", de um dia para o outro. Será que não havia mesmo amor de verdade ou as pessoas estão buscando um amor que não existe nem nunca vai existir ? Eu acho que o amor de verdade é difícil mesmo de se manter, dá trabalho, requer paciência e persistência, que são exercícios para toda uma vida juntos. Tem que ter respeito, amizade, e não somente com a "Ilha de Caras" ensolarada ao fundo, mas principalmente nos dias "nublados" e "chuvosos". Mas algumas pessoas desistem tão rápido.

Percebo também como a galera mais nova lida com isso. Hoje em dia (estou parecendo uma velha falando né ?) começam muito cedo a "ficar", com tudo o que têm direito e, sem a menor vergonha, acham o máximo ficar com vários garotos numa mesma festa. Como alguém pode querer encontrar uma pessoa legal numa situação dessas, se não tem respeito a si próprio ? Não sei se isso é uma tendência das novas gerações ou se é uma questão de educação, de conceito de familia. Não sei mesmo. Acho que são as duas coisas, na verdade.

Mas, por outro lado, acabo de ver uma reportagem no Fantástico de um homem que sofreu um acidente quando fazia caça submarina, nas Ilhas Cagarras, aqui no Rio. Ao voltar do mar para o barco, bateu a cabeça no fundo do barco, perdendo seus movimentos no mar, sem ser visto pelo seu amigo. Foi sendo levado pelo mar, por muitas e muitas horas, com a certeza que iria ficar tetraplégico. Mas tudo que queria era ficar lúcido para voltar para sua casa, sua esposa, e ver sua filha crescer, do jeito que fosse. Ele foi resgatado somente numa praia em Niterói, foi operado e sua situação agora é de uma longa jornada até retomar, se retomar, os movimentos. Ele querer voltar de qualquer jeito é normal, é mais esperado. Mas quando aparece a esposa dele falando que só de tê-lo ao lado da família, também lúcido, e do jeito que for, isso pra ela é tudo. Tenho certeza que eles sempre tiveram seus problemas, mas isso me faz ter certeza que, apesar de tudo, tem muita gente que sabe viver o amor de verdade. Dá um trabalho muito grande, mas é tão bom...

terça-feira, 1 de março de 2011

Perfumes e Lembranças

Eu tenho uma sensibilidade forte para cheiros, principalmente os de perfume. Tenho uma coleção de perfumes antigos que eu mesmo usava, em diversas fases da minha vida. Não que eu tivesse a intenção de colecionar perfumes, não é isso. É aquela coisa, você usa um, em uma determinada fase, depois muda a fase, muda o perfume. Isso acontecia comigo, porque eu sempre fui mais ou menos "fiel" aos perfumes que usava, gostava de ter um cheiro que me identificasse, não gostava de ter de uma vez só vários tipos diferentes. Então conforme ia mudando a fase, o perfume anterior ficava lá sem uso, mas eu também não tinha coragem de me desfazer dele. O tempo foi passando e posso dizer que hoje tenho uma pequena coleção de perfumes.

Há algum tempo, arrumando meu armário para tirar coisas que não usava mais, peguei o bauzinho onde guardo esses perfumes, pensando em me desfazer deles, já que não os usava há muito tempo, alguns há muitos anos. Mas eu comecei a tirar a tampa de um por um para sentir o cheiro e ver se ainda havia esperança de um dia usar. Mas a cada um que eu abria e sentia o cheiro, era como se eu me transportasse para a fase da minha vida quando eu o usava. Fase essa que eu nem me lembrava mais, parecia que simplesmente era acionado um botãozinho do tempo...Era como se eu estivesse acessando uma parte esquecida, quase inacessível do meu cérebro. Veio na cabeça o que eu fazia naquela época, escola, faculdade, trabalho no lugar tal, namorado tal...Um tinha o cheiro da minha formatura do colégio e vinha junto a lembrança das pessoas que faziam parte da minha vida nesta época, a roupa que eu usei no dia da festa, como eu me sentia. Outro lembrava a faculdade e os lugares que eu frequentava, as amigas da época, e por aí vai. Uns traziam boas lembranças, outros lembranças estranhas, mas acabou virando uma verdadeira caixinha de memória da minha vida. Não tive coragem de me desfazer de nenhum daqueles perfumes. Ficaram lá no bauzinho, guardando uma vida que só eu sei, sensações e lembranças que eu senti literalmente na pele. Meu bauzinho se tornou quase um patrimônio, fica lá no fundo do meu armário. De vez em quando eu dou uma "chegadinha" lá, abro um ou outro para sentir, e é como se de novo viesse, como num filme, uma sequência de lembranças. É meu "diário" em forma de frascos de perfume

Eu hoje uso algumas coisas que ficaram do Felipe, como cremes hidratantes, shampoos, sabonete, perfume. Aos poucos estão acabando. Mas ele tinha muita coisa, era um menino muito "equipado" para ser cheiroso e gostoso... Mas eu não uso todos os dias, assim sem mais nem menos não. Nunca num banho corrido. O shampoo fica no meu boxe, e eu tenho que estar preparada para aquele momento, é um momento especial. Quando eu começo a usar o shampoo, fecho os olhos, e me transporto para aqueles banhos deliciosos que eu dava nele. Infelizmente não era sempre que eu dava, mas geralmente nos fins de semana, o banho era meu ! Ficava um tempão dando banho nele. Eu achava que ele adorava aquele chuveirinho jorrando água na cabecinha dele, no corpo. Lavava dedinho por dedinho, "dedo mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolo, mata piolho...", cantava pra ele "Felipe não lava o pé, não lava porque não quer..." Ele não me dava a menor bola, mas ficava tão relaxadão...Eu passava shampoo, condicionador, massageando a cabecinha...Eu brincava com as tias pra não me pressionarem para acabar logo, porque aquele era o banho sagrado da mamãe. Era uma delícia. Na verdade, eu acho que eu gostava mais do que ele, aque contato com o corpinho dele, aquele momento de cuidar dele...Depois vinha a hora de arrumá-lo todo gostoso, passar creminho no corpo, passar perfume, pentear, ele ficava um príncipe ! E aquele cheiro tomava conta da casa toda ! A parte chata eram os curativos que vinham depois, mas vou pular esta parte porque estou falando de boas lembranças. Isso ! Todos me falam pra tentar pensar nas coisas boas, ter boas lembranças, e é muito difícil diante de tudo que vivemos. Mas essa é a boa lembrança do dia ! Hoje estou planejando "tomar um banho" do perfume dele, depois do banho de verdade. Vou fechar os olhos...e dormir como se estivesse ao lado do meu anjinho...


p.s. Mudando de assunto, não tenho mais falado nisso, pra não dar uma de maluca, mas depois da história da borboleta amarela, eu as vejo em TODOS os lugares. Acho que eu não prestava atenção nelas antes, mas agora elas pelo menos sempre me fazem sorrir. Mas hoje foi demais. Estava fechando a janela da sala de casa, no sexto andar, e uma borboletona amarela voava do lado de fora, querendo chamar minha atenção. Elas voam assim tão alto, essas borboletas amarelas ?!