Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Silêncio

Sei que é difícil se colocar no meu lugar pois vivi uma situação muito peculiar. É mais fácil entender a mãe que perdeu o filho de 4 anos que deixou sorrisos, brincadeiras, abraços, desenhos, amiguinhos, eu sei disso. Eu não só perdi meu filho há três meses atrás, mas eu já havia perdido o Felipe, de alguma forma, no dia do seu nascimento. Mas ele, por algum motivo, ou simplesmente sem nenhum motivo, ficou aqui, do jeitinho dele, caladinho... Nós vivemos por ele, nós o amamos em silêncio a cada respiração, a cada suspiro, a cada colinho quentinho, a cada banho gostoso, a cada dia sem estresse...Em cada colo eu tinha vontade de colocá-lo de volta para dentro da minha barriga e dar um "rewind" no "filme" para quando eu sentia ele chutando a minha barriga , quando eu o protegia de todos os males. Voltar para quando a VIDA dele era uma certeza.

Eu me considero uma pessoa inteligente, sensata, mas como mãe, tudo é diferente, é outra esfera, e com isso fica muito difícil ouvir certas "verdades". Ouço gente que não conhecia a minha história responder aliviado "ufa, achei que tivesse morrido num acidente" quando eu expliquei a morte do meu filho e da situação que ele vivia. Ou também quem me diz que não entende porque tem pais com filhos muito doentes e sem esperança que ficam tensos a cada vez que este filho fica doente, porque o melhor mesmo é ele morrer. Eu fico pensando se essas pessoas depois pensam com arrependimento do que falaram ou se acharam sensacional esta conversa com a mãe que acabou de perder seu filho. E também me vejo muitas vezes tentando me explicar, como se eu não tivesse o direito de estar triste, respondendo que tá difícil me reerguer, porque perder um filho, do jeito que for, é muito ruim.

Em momento algum, mas em nenhum segundo de sua vida, o Felipe foi um peso na minha vida. Minha vida não está melhor sem ele. É tudo muito louco. Mas pode ser também que eu seja a louca... Preciso de algumas vidas para evoluir e entender tudo isso em paz. Toda a história do Felipe era motivo obviamente de MUITA tristeza, mas eu dediquei minha vida a fazer com que o tempo que ele ficasse aqui com a gente, fosse da melhor forma possível. A consequência disso foi o tanto de coisa boa que ele proporcionou a todos que o cercavam, pela sua simples existência. Será que eu estou tão louca assim por estar triste, já que o Felipe não tinha esperança ?

Não é justo exigir racionalidade de uma mãe que praticamente perdeu o filho no parto e que sofreu a angústia da iminência de sua morte por quase 4 anos. Eu sei que ele descansou, não tenho dúvida disso. Essa vida que lhe foi imposta não era vida digna, apesar de todo o amor e carinho que ele recebia. Não era justo com ele, eu sei. Mas eu sempre falo isso: você desejar que o melhor para o seu filho é morrer, isso tem uma história por trás muito pesada e muito ruim, e é essa história que não sai da minha cabeça. É isso que eu tenho que trabalhar, tirar tanta lembrança ruim da minha cabeça. É difícil ter boas lembranças agora, com a história que a gente viveu. Mas enquanto isso, tô seguindo a vida do jeito que dá, e por sorte, rodeada de amigos que não sabem o que falar mas me cercam com suas presenças, seus abraços, sem nada a dizer. Mas infelizmente o dia a dia é frio e racional. Sem saber o que dizer, algumas pessoas falam qualquer coisa sem pensar, sem noção do estrago das suas palavras não pensadas.

6 comentários:

  1. Tia, por todo canto existem essas tais "pessoinhas" que parecem uma praga, muita gente adora falar do que não sabe. Se acham donas da verdade, não tem um pingo de tato, julgam sem conhecer, e o pior sem nem saber, ao certo, do que elas estão falando. Mas por todo lado, e para todo assunto tem alguém jogando merda no ventilador.Mas encare isso, como ignorancia alheia, o que no seu caso pode ser dificil pois o Felipe, nem de longe, se trata de um assunto qualquer, então nesse caso, sei nem se posso dizer se é ignorancia ou falta de tato. Talvez ignorancia no sentido pior que existe... ou então, não tente explicar, seja grossa mesmo ou ignore, um minuto de silencio pra esses idiotas ! Um dia eles se tocam, se não tem sensibilidade para um assunto como esse que dirá no dia a dia, devem ser insuportáveis ou no mínimo muito mal sucedidas no trabalho e nas amizades! Beijos Íris

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  2. É isso aí, quem tem bons amigos não precisa de mais NINGUÉM para passar pelos piores momentos.

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  3. Querida, que injusta você é com você mesma quando você diz que Felipe não tinha esperança... como assim? Felipe não tinha "esperança" porque ele era simplesmente o que ele era, o Felipe. "Esperança" tem a mãe de um filho "desandado". O Felipe não era desandado. Felipe era um filho que te trouxe alegrias, alívios, sustos, tristezas, angustias, como qualquer filho trás para qualquer mãe. Ele apenas te fez vivenciar tudo isso do jeito dele, te fez aprender o tão difícil "maternar" pelo caminho mais difícil.
    Ele não tinha "esperança" porque filhos não são feitos de "esperanças" e sim de entregas e realizações, nossas e deles. Todo dia que vivemos ao lado deles nos entregamos um pouco, nos realizamos outro tanto! E com ele a maternidade era isso também.
    Portanto, se alguém achar que é mais "fácil" perder um filho sem "esperança" do que um com "esperança", esse alguém não entende nada sobre o maternar e você, que aprendeu tão duramente o quanto o teu colo de mãe era importante, nem precisa se preocupar... essas pessoas ainda aprenderão muito na vida.
    Cuide-se amiga, cubra-se do amor dos amigos mas, sobretudo, lembre-se que ser mãe não se mede em palavras de um filho. Ser mãe é um sentimento. E perder um filho, mesmo num não nascido é perder um pedacinho de nós. Ouvidos "grossos" a quem achar que a morte do teu pequeno trás alívio a qualquer pessoa!

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  4. Querida Valéria, vim te deixar meu abraço de força, de amizade, de carinho e de respeito! Rezo muito por vocês. Um grande beijo, Laura

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  5. Minha querida, por favor tente ignorar completamente essas pessoas tão sem sensibilidade. São pessoas completamente ignorantes. Não tiveram o privilégio do amor em suas vidas. Como já disse, vc é a pessoa mais especial que conheço (de verdade).... Muito poucas pessoas, teriam a sua competência....
    Rezo por vcs todas as noites. Fique em paz e um beijo muito especial no seu coração.
    Sonia Cristina

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  6. Valéria, quando eu fiquei grávida da Sofia eu já era diabética ha 5 anos e as pessoas próximas, queridas, minha médica e tal sempre falavam que controlando a alimentação, caminhando tudo daria certo, pra eu ficar tranquila e assim foi, graças a Deus, tudo tranquilo.

    Mas as vezes pessoas que não eram próximas a mim sempre tinha um caso ruim pra contar e sabe que eu cheguei a conclusão que não eram pessoas ruins. Só eram completamente sem noção e eu comecei a deletar ou mesmo por fim a conversa antes de chegar ao final.

    Então muitas vezes o melhor é não dar atenção a essas pessoas e nos afastar desses comentários que não nos farão nenhum bem.

    Estamos torcendo pela paz no coração de vocês.

    Bjs meus e da Sofia!!!

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