Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Necessidade Material

Eu tenho a nítida sensação que ninguém, mas ninguém neste mundo todo, entende o que eu estou sentindo. Quando eu digo ninguém, é ninguém mesmo. Aí eu paro para pensar que é injustiça, que claro que tem sim. Fico pensando nas pessoas que perderam a família inteira, vários filhos, suas casas...e aí meu sentimento não muda não, mas fico então pensando que deve ter sim muita gente sofrendo muito, como eu, por aí. O que essas pessoas estão fazendo agora ? Eles estão conseguindo viver ? Alguém consegue ter vontade de fazer alguma coisa ? Não acho que deveria existir dor como essa dentro do coração de absolutamente nenhuma pessoa nesse mundo.

Prometo que não vou entrar no detalhe do meu sofrimento. Já falei que não quero que as pessoas se sintam mal em ler o blog por ser muito triste. Mas também me desculpem, mas não tenho nada de muito alto astral pra dizer.

Queria dividir a dureza das decisões que temos que passar no meio disso tudo. Uma delas é a separação física de tudo o que era material da pessoa que perdemos. Muitas pessoas me perguntam se a gente não vai se mudar da nossa casa. Eu entendo a preocupação, mas não compreendo...não acho que iria mudar nada. Sei que a presença do Felipe é muito forte na nossa casa, mas será em qualquer outro lugar, eu sinceramente não imagino que o fato de não ter mais o quarto que foi dele irá mudar a dor de nenhuma forma. Posso estar errada também, na verdade estou descobrindo tudo isso vivendo, e ainda estou no começo...
Mas também sei que tem gente que não mexe no quarto, deixa intacto. Será que não é muito mais sofrimento ? Eu até outro dia entrava no quarto do Felipe todo dia e era muito forte a AUSÊNCIA dele. Eu cheguei ao ponto de pedir para a minha ajudante não tirar nem o lençol da cama dele...mas isso é muito doloroso.
Aos poucos fui pedindo para ela fazer algumas mudanças na minha ausência. E agora então decidimos fazer uma reforma no quarto dele, vamos transformá-lo num escritório. Mas para isso, que dureza foi tirar de vez o quartinho dele do jeito que era. Ainda não consegui me desfazer das coisas pessoais dele, elas por enquanto mudaram de lugar. Mas devagar, eu vou separando para resolver o que fazer depois. Mas quando esvaziei o quarto, tirei a cama dele, e passei para o outro quarto, foi como estivesse carimbando que ele nunca mais iria voltar. Como foi difícil. Como nós somos apegados a essas coisas ! Eu queria tanto pensar de outra forma...Os travesseirinhos que ele usava estão TODOS (e não são poucos) na nossa cama, com as mesmas fronhas, sem trocar. São as fronhas que tocaram nele. Eu queria o cheirinho dele pra sempre lá, mas é claro que de tanto usar, não tem mais o cheiro dele, e daqui a pouco vão estar imundas, mas não consigo tirar pra lavar. Uma das dificuldades em dormir em paz é administrar todos os travesseiros e almofadinhas perto de mim. Como se estivesse dando preferência a uma almofadinha, e a outra pode ficar chateada...que loucura, mas é uma necessidade muito grande de tocar, sentir a coisa material que representava a existência dele, a presença dele.

Não sei se manter o quarto intacto, no fundo, deixa uma situação inacabada...não sei explicar, mas sei que desmanchar tudo foi horrível. Eu ficava disfarçando para não chorar na frente do marceneiro que estava desmontando a cama dele, agora disfarço para não chorar na frente da pessoa que está pintando o "novo" quarto...eu não tô conseguindo participar de quase nada da mudança. Mas acho que, no fundo, lááá na frente, vai ser melhor do que se ficarmos todo dia convivendo com o quartinho dele todo montado, como se ele fosse voltar a qualquer momento de algum lugar...Ele não vai voltar...

4 comentários:

  1. Valéria, ninguém consegue entender a sua dor,mesmo quem perdeu filhos,familia e por aí vai,pq esta dor é só sua e cada um de nós sofre da sua própria dor.As experiências podem ser iguais mas a dor é única e só da pessoa.Vejo a sua dificuldade de lidar com as coisas materiais e lembro do meu pai.Ele era um senhor portador de Alzheimer em fase já avançada,mas guardei por muito tempo a roupa que ele usou quando o levei para o hospital e lá ele faleceu.Fiquei com ela no fundo da gaveta e de vez em quando tirava e redobrava.Em um determinado dia,e olha que levou alguns anos,eu tirei da gaveta e resolvi que não precisava mais dela.Apesar de idoso e desmemoriado ele era o meu pai e a roupa me ajudava a não me sentir tão só.Assim são as almofadas.Durma com elas,lave a fronhas com o sabão que vc usava pra ele,um dia vc começará a libera-las,não tenha pressa.Em relação ao desmonte do quarto parece que estamos abandonando o nosso ser querido para seguir em frente,e largando ele lá pra trás,mas o Guerreiro não precisa mais disso porque ele está livre,feliz e não se preocupe em dizer que ele não vai voltar,não vai mesmo porque ele nunca se foi.O melhor lugar pra vc guardá-lo é no seu coração ( segundo a minha neta o coração que gosta)e nas lembranças que nunca se apagarão,vc vai aprender a conviver com elas.Não se preocupe com o tempo que vc está levando para superar o sofrimento,devagarinho vc conseguirá dominá-lo.Um bj mto grande, um abraço apertado.Fique com Deus.Tia Gi

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  2. Depois das palavras tão sábias da Tia Gi eu nem sei se tenho o que acrescentar.

    Bjs meus e da Sofia em você, Valéria e fica BEM e em PAZ.

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  3. Não se preocupe com o tempo, pois cada um tem o seu próprio. O Felipe estará sempre com vc.
    Saudade sim, tristeza, vamos evitar. Deus está ao seu lado, tomando conta e vc aprenderá a conviver com essa saudade.
    Que os anjos te tragam toda a paz que vc merece.
    Um beijo especial e cheio de admiração.
    Sonia Cristina

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  4. Valéria,o quarto do Felipe(do tempo do berço),nunca saiu da minha memória...engraçado que aquele último plantão que eu fiz eu me lembrei do meu primeiro dia que entrei lá.Um mundinho encantado...Parece até que o felipe me chamou para se despedir.Ah,sim voltando ao berço,eu sempre me lembro qdo ele teve uma febre(pneumonia)que eu me atreví a pegar uma cadeira lá na sala e coloquei pertinho do berço para ele não se sentir sozinho,nem ficar com medo.Aquele dia foi muito especial.E lendo sobre o quartinho dele,lembro daquele dia em especial.Passa o tempo que passar,e aquele bercinho estará em miha memória...O Felipe no meu coração,sempre.sonhei com ele,dia desses.Foi rapidinho,mais ele sempre vem me ver...Que Previlégio,bjsa todos.Dagmar.meu e-mail é : daguig@hotmail.com

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