Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sábado, 26 de fevereiro de 2011

Para descontrair um pouco


Por incrível que pareça, uma das coisas mais difíceis de eu fazer quando o Felipe estava aqui é o que tem sido a minha verdadeira terapia atualmente, a malhação. Numa tentativa de preencher o espaço vazio, de não ficar muito em casa, após o trabalho principalmente, eu ocupo este horário na academia. Por mais difícil que isto possa parecer, encontrei na academia um local para me ocupar, sem pensar muito, e o que é melhor, com o Leo. Vamos praticamente todos os dias, e quando chegamos em casa já está tarde, comemos alguma coisa e já é hora de dormir...A noite passa rápido...E isso inclui os sábados. Tenho um professor que me acompanha, porque sem ele eu não acho que conseguiria, já teria desisitido, eu me conheço. Eu digo pra ele que como personal trainer, está se saindo como um excelente psicólogo, mas por motivos diferentes. Eu não falo praticamente nada porque não dá enquanto me exercito. Só ele fala, e um monte de bobagens, fofocas, mal sabe dos meus problemas, e fica tudo bem assim.
Hoje, como todo sábado, começamos nosso dia na academia. Mas o dia acabou sendo diferente, com tudo mais ou menos igual, tudo simples, talvez o olhar estivesse diferente. Ficamos muito felizes por não ter horário para nada. Isso incomoda atualmente, compromissos, hora marcada para alguma coisa, nos finais de semana. Nosso único compromisso era com a gente mesmo, que era ir ao cinema, cujo ingresso já tínhamos comprado cedo.

A preguiça para sair da inércia e ir o cinema foi grande, mas a caminhada até lá foi super agradável. Pela ciclovia da Lagoa, vimos algumas pessoas fantasiadas de Carnaval, indo em direção a um possível bloco. Era cada um mais figura que o outro. Grupos de amigos animadíssimos, pessoas sozinhas, famílias com crianças pequenas, tinha de tudo. O cinema foi ótimo, adorei o filme (Discurso do Rei) e o cinema do Estádio de Remo da Lagoa é num lugar delicioso. Como chegamos mais cedo, ficamos na beira da Lagoa sentindo um ventinho gostoso, tiramos até foto ...

Na volta, mais uma caminhada, já tinha escurecido e vimos várias pessoas voltando do possível bloco e continuamos nos distraindo com cada um que passava. Misturado a eles, tinha gente correndo para se exercitar, tinha família andando de bicicleta, tinha gente jogando futebol. Logo saindo do cinema, nos chamou a atenção a música que estava tocando no bar que fica ao lado da Estação do Corpo, na Lagoa. Não sei o nome, estou tão por fora dessas coisas...Mas o bar estava vazio, nem uma mesa sequer ocupada, e o grupo tocando super bem, com uma moça novinha cantando, e nós ficamos ao fundo assistindo. Quando acabaram, nós batemos palmas ali do fundo e Leo agradeceu a eles, que ficaram super satisfeitos. Acho que só o Leo conhecia a música (mas também o público se resumia a ele e a mim...) Mas eles estavam mesmo fazendo um som muito legal e eu fiquei morrendo de pena de estarem tocando pra ninguém, achei tão deprimente. Mas chegamos a conclusão que estavam ensaiando porque ainda estava cedo, e mais tarde iria encher. Fomos embora nos sentindo melhor com este sentimento, mas a vontade era de sentar ali, pedir uma cerveja e ficar. Poxa vida, programa perfeito, ninguém no bar, um lugar maneiríssimo, super aconchegante, música boa...mas foi o Leo que não quis, achou que o bar estivesse fechado, mas não estava não...eu teria ficado, mesmo estando de bermuda e camiseta, não sei como é o esquema lá.

Seguindo o caminho, nos deparamos com o bloco, que não era bloco, era um show mesmo em frente ao Parque dos Patins, de Carnaval. Paramos para ver o movimento, e tudo corria bem, pessoas beeeem alegres, e comentamos como é estranho observar tudo isso de longe, sem fazer parte da festa. Já fiz - e imagino que o Leo também - parte dessas festas muitas vezes na minha vida, mas a visão de fora é engraçada. O mais interessante foi minha vontade em parar para assistir, achar graça, enquanto que ontem eu estaria na verdade fugindo, fugindo de gente, de alegria, de movimento.


Mais perto de casa, o movimento foi ficando mais calmo, e o Cristo Redentor nos iluminava mais forte que o normal. Perguntei ao Leo se ele tinha reparado que eu estava mais "alegrinha" porque eu estava me esforçando por ele. Ele anda reclamando que eu só escrevo coisas tristes, que eu tô sempre pra baixo. Segundo ele, claro que tinha notado, sinal disso é que ele mesmo estava mais falante. Porque quando eu me calo, triste, acabo influenciando o humor dele também, mas o contrário também acontece. Ele comentou que esperava que aquele momento fosse um bom sinal de alguma coisa. Tenho consciência da minha antipatia ao responder que não era sinal de nada, deixei de me iludir com essas coisas. Mas fomos embora de mãos dadas, dizendo "não" ao vendedor de chupetas iluminadas para o Carnaval. Não é sinal de nada, mas também queria dividir um dia mais leve, recheado de cenas cariocas típicas, que observamos como turistas que não somos, assim de longe, não fazendo parte daquilo mas satisfeitos por estarmos ali.

5 comentários:

  1. Que dia legal, que astral nas palavras! Tbm estou vendo essa folia toda e me divertindo, até pq estou em alguns blocos. Mtas fantasias, mta animação e nada de confusão. Então curtam esse carnaval um pouquinho. Bjos

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  2. Fiquei feliz de ler o blog hoje e ver vc assim, continue! Beijos

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  3. As pessoas que te amam, não só o tio Léo, como todos que te amam mesmo, ficam felizes quando você está feliz, e o seu humor é capaz de contagiar a todos! Continue se esforçando, desta forma, por quem vc acha que vale a pena. Cada dia é uma vitória, considere cada passo para frente uma conquista, pois é exatamente isso! Vivendo dessa forma, um dia de cada vez, não deixando as coisas simples escaparem, é uma saída também, para preencher o espaço vazio que a academia tem preenchido!! Beijoooss!

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  4. Eu gostei muito desse post, Valéria.

    Senti um ventinho de esperança. Das coisas se acalmando. Chegando no lugar.

    Legal.

    Bjs!!!!!!

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  5. È Valéria e Leonardo,é aos poucos mesmo...Academia:estou indo também,mais é chatooooooooo(e necessário).Estou me recuperando bem de uma cirurgia,e vou abrir uma cooperativa de enfermagem...lí seu depoimento sobre perfumes,o sabonete da granado é especial pra mim...Bjs a vocês e seus pais,Dagmar

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