Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



quarta-feira, 16 de março de 2011

Coisas que Felipe nos Deixou...

Outra dia estava conversando com a Neide, minha ajudante, sobre as histórias de algumas mães que colocam suas vaidades, seus problemas com maridos ou ex-maridos, dentre outras coisas, acima de qualquer coisa, sem se preocupar no efeito de suas atitudes nos seus filhos. Ela me falava de um caso do netinho que pediu uma festinha de aniversário de 5 anos para a avó, mãe do pai, mas a mãe da criança, separada do pai, depois de tudo organizado, não queria liberar a criança para a festinha. Sem pensar que quem mais iria sofrer com isso era seu próprio filho.

Por muitas vezes eu acho que esse mundo tá todo muito errado, com tanta maldade que vejo acontecendo com crianças. Esta história do aniversário não é absolutamente nada se começarmos a lembrar de gente que espeta agulhas em crianças, que joga no rio, que espanca até matar, que joga da janela, enfim...não gosto nem de falar essas coisas porque me faz muito mal, e imagino que também não faça bem ler isso agora. Mas o assunto com ela era esse. E eu disse que por isso não acredito em justiça divina. Tem muita coisa errada, muita gente ruim que não paga por suas maldades, enquanto que tem gente boa que sofre tanto e nem por isso é recompensada com alguma alegria. Neste ponto, ela discordou de mim, como eu imaginava.

Neide também perdeu um filho, com poucos meses de vida, devido a um problema de pulmão. Isso tem 30 anos, e depois dele ela teve outros filhos, e são todos já adultos. Ela me consola com frequência, mas invariavelmente acabamos nós duas chorando...Ela trabalhava comigo quando eu ainda era solteira e, quando eu estava grávida, já tinha planos de sair um tempo depois que Felipe nascesse. Ela fazia curso de cabelereira e tinha o sonho de ter seu próprio salão. Quando Felipe nasceu, e o mundo virou ao contrário, ela adiou esta decisão. Ficou com a gente mais do que planejara, até que as coisas se encaminhassem mais ou menos aqui em casa. No início, como era de se esperar, ela ajudava as enfermeiras, mas não "metia a mão na massa" porque tinha medo de fazer alguma coisa errada e fazer mal a ele. Mas sempre foi muito carinhosa e dedicada a ele.

Quando finalmente foi atrás do seu sonho, ela passou a trabalhar com a gente nos fins de semana, e foi quando chegou a tia Edina, também super dedicada e que nos ensinou muita coisa, pois vinha de uma família com a mesma estrutura, com uma criança com o mesmo home care. Mas depois de um tempo ela precisou sair e a Neide voltou a trabalhar com a gente, mas de um jeito diferente. Eu falei que precisava que ela tomasse conta da situação para que eu pudesse trabalhar sossegada. E de uma hora para outra, como era realmente preciso, passou a ajudar COM O FELIPE e não na casa. Passou a dar banho nele junto com as tias, e ficava um tempão fazendo massagem nos cabelos dele...se precisasse, dava refeições pela gastrostomia, e passou a ser a segunda pessoa, junto com as tias, na troca do curativo da traqueostomia (que não é tarefa nada fácil) e no final até aspirava a boquinha e o nariz dele. E de mão firme, como se tivesse nascido pra aquilo. Ela passou a ser o meu "olho" quando eu estava ausente, e sem eu pedir, também o meu coração. Fazia carinho nele, cantava, conversava, cortava o cabelo dele...e preparava as papinhas dele com tanto carinho...

Até que volto ao assunto que iniciei, que ela acha que existe sim justiça divina, e também pode demorar mas um dia entendemos o significado das coisas. Ela disse que ficou 30 anos tentando entender o porquê de ter perdido seu filho, e eu quase que agressivamente perguntei "e aí, você achou alguma resposta, por acaso ?" Porque eu não consigo ver significado nenhum em tanto sofrimento. E ela disse que sim, ela hoje entende: Felipe foi um presente que recebeu, para ela cuidar, e que cuidando dele ela entendeu a história do filho... Ela tinha que estar preparada para cuidar do Felipe...

Ela me disse que não queria comparar ao meu sentimento, mas que ela ama meu filho como se fosse dela. E dessa vez, foi cada uma para um lado se emocionar sozinha...

11 comentários:

  1. Fiquei sem ar... e sem palavras... mas queria te dizer que li e emocionei.

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  2. mto lindo mesmo...a neide merece!
    Bjos Íris

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  3. Imagino a Neide falando isso com aquela voz mansa e do mesmo jeitinho que falava " Bom dia Felipe...". Que doçura de pessoa. Mande um beijo pra ela.

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  4. Tô bem longe aí do Rio...Sei de tudo por alguns de seus familiares, e, é claro, pelo seu blog. Tenho dois filhos, e depois de tê-los -como boa canceriana-sou muuuito protetora e uma leoa em relaçao a eles (10-5 anos). Você nao imagina a repercussão dos seus textos para mim. Interiormente, nunca comentei com alguem que leio, que chorei muuito, que vi outros prismas de varias situaçoes. Gosto muito quando acesso e vejo que vc postou algum texto que soma muito para mim.
    Muitos abraços pelos ventos dai do Rio....

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  5. Cada uma pra um lado se emocionar´sozinha e nós todas aqui nos emocionando com tanto amor.

    Bjs enormes em vocês!

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  6. Valéria, achei essa mensagem tão linda do Fernando Pessoa que postei no meu fb e tb gostaria de postar aqui no seu blog.
    " Os ventos que, ás vezes , tiram algo que amamos, são os mesmos ventos que nos trazem algo que aprendemos a amar.Por isso, não devemos chorar pelo que nos foi tirado , e sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre". bj grande Alessandra

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  7. Valéria,na verdade todo mundo se emociona com este depoimento...E Deus foi muito generoso(não me entenda mal),em te "presentear" com a presença da minha querida Neide...Agradabilíssima,linda,carinhosa,super mãe,sensível,conselheira,enfim sou suspeita para falar né?Uma amiga que podemos confiar.Estou devendo uma visita a ela(não vejo a hora de provar a comidinha dela de novo...)faça isto por mim,bjs a todos vcs,Dagmar

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  8. Nossa fiquei arrepiada e muito emocionada com sua historia pois antes de ler sua historia eu era assim eu n dava valor a vida q tinha eu sempre reclamava de tudo e sem motivos nossa vcs são um exemplo devida de amor de amizade em fim te admiro ainda mais .
    Que lhe abençoe sempre,bjs

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  9. É..eu não sei o que dizer... só quero que saiba, minha querida, que Deus está aí agora mesmo te dando forças para levantar todos os dias. E esteja certa de que ele não te deixará sem resposta.
    Com carinho,
    ju.

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  10. não tenho nem palavras a dizer ... pois achei que felipe ainda estava qui entre nos uma doucura de imagem como a dele ...as fotos dele traz um paz de espirito tão grade ver essas fotos de toda a familia com ele junto ai que lindo...

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