Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 1 de março de 2011

Perfumes e Lembranças

Eu tenho uma sensibilidade forte para cheiros, principalmente os de perfume. Tenho uma coleção de perfumes antigos que eu mesmo usava, em diversas fases da minha vida. Não que eu tivesse a intenção de colecionar perfumes, não é isso. É aquela coisa, você usa um, em uma determinada fase, depois muda a fase, muda o perfume. Isso acontecia comigo, porque eu sempre fui mais ou menos "fiel" aos perfumes que usava, gostava de ter um cheiro que me identificasse, não gostava de ter de uma vez só vários tipos diferentes. Então conforme ia mudando a fase, o perfume anterior ficava lá sem uso, mas eu também não tinha coragem de me desfazer dele. O tempo foi passando e posso dizer que hoje tenho uma pequena coleção de perfumes.

Há algum tempo, arrumando meu armário para tirar coisas que não usava mais, peguei o bauzinho onde guardo esses perfumes, pensando em me desfazer deles, já que não os usava há muito tempo, alguns há muitos anos. Mas eu comecei a tirar a tampa de um por um para sentir o cheiro e ver se ainda havia esperança de um dia usar. Mas a cada um que eu abria e sentia o cheiro, era como se eu me transportasse para a fase da minha vida quando eu o usava. Fase essa que eu nem me lembrava mais, parecia que simplesmente era acionado um botãozinho do tempo...Era como se eu estivesse acessando uma parte esquecida, quase inacessível do meu cérebro. Veio na cabeça o que eu fazia naquela época, escola, faculdade, trabalho no lugar tal, namorado tal...Um tinha o cheiro da minha formatura do colégio e vinha junto a lembrança das pessoas que faziam parte da minha vida nesta época, a roupa que eu usei no dia da festa, como eu me sentia. Outro lembrava a faculdade e os lugares que eu frequentava, as amigas da época, e por aí vai. Uns traziam boas lembranças, outros lembranças estranhas, mas acabou virando uma verdadeira caixinha de memória da minha vida. Não tive coragem de me desfazer de nenhum daqueles perfumes. Ficaram lá no bauzinho, guardando uma vida que só eu sei, sensações e lembranças que eu senti literalmente na pele. Meu bauzinho se tornou quase um patrimônio, fica lá no fundo do meu armário. De vez em quando eu dou uma "chegadinha" lá, abro um ou outro para sentir, e é como se de novo viesse, como num filme, uma sequência de lembranças. É meu "diário" em forma de frascos de perfume

Eu hoje uso algumas coisas que ficaram do Felipe, como cremes hidratantes, shampoos, sabonete, perfume. Aos poucos estão acabando. Mas ele tinha muita coisa, era um menino muito "equipado" para ser cheiroso e gostoso... Mas eu não uso todos os dias, assim sem mais nem menos não. Nunca num banho corrido. O shampoo fica no meu boxe, e eu tenho que estar preparada para aquele momento, é um momento especial. Quando eu começo a usar o shampoo, fecho os olhos, e me transporto para aqueles banhos deliciosos que eu dava nele. Infelizmente não era sempre que eu dava, mas geralmente nos fins de semana, o banho era meu ! Ficava um tempão dando banho nele. Eu achava que ele adorava aquele chuveirinho jorrando água na cabecinha dele, no corpo. Lavava dedinho por dedinho, "dedo mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolo, mata piolho...", cantava pra ele "Felipe não lava o pé, não lava porque não quer..." Ele não me dava a menor bola, mas ficava tão relaxadão...Eu passava shampoo, condicionador, massageando a cabecinha...Eu brincava com as tias pra não me pressionarem para acabar logo, porque aquele era o banho sagrado da mamãe. Era uma delícia. Na verdade, eu acho que eu gostava mais do que ele, aque contato com o corpinho dele, aquele momento de cuidar dele...Depois vinha a hora de arrumá-lo todo gostoso, passar creminho no corpo, passar perfume, pentear, ele ficava um príncipe ! E aquele cheiro tomava conta da casa toda ! A parte chata eram os curativos que vinham depois, mas vou pular esta parte porque estou falando de boas lembranças. Isso ! Todos me falam pra tentar pensar nas coisas boas, ter boas lembranças, e é muito difícil diante de tudo que vivemos. Mas essa é a boa lembrança do dia ! Hoje estou planejando "tomar um banho" do perfume dele, depois do banho de verdade. Vou fechar os olhos...e dormir como se estivesse ao lado do meu anjinho...


p.s. Mudando de assunto, não tenho mais falado nisso, pra não dar uma de maluca, mas depois da história da borboleta amarela, eu as vejo em TODOS os lugares. Acho que eu não prestava atenção nelas antes, mas agora elas pelo menos sempre me fazem sorrir. Mas hoje foi demais. Estava fechando a janela da sala de casa, no sexto andar, e uma borboletona amarela voava do lado de fora, querendo chamar minha atenção. Elas voam assim tão alto, essas borboletas amarelas ?!

7 comentários:

  1. Tbm não sou de um cheiro só, mas engraçado que não tenho essa percepção de algum momento em que eu tenho usado determinado perfume. Interessante...
    Quanto ao cheirinho do Felipe... hummm...Aqueles produtos da Granado pra mim são os melhores!!!rsrs
    Bjos

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  2. Além de voarem muito alto, elas voam para outra cidade. Não é que eu estava na piscina lá do sítio em Juiz de Fora e uma começou a voar perto de mim? Eu, sozinha, sentada na cadeira, percebo que não consigo parar de rir e quando olho para o local onde todos estavam, me deparo com algumas pessoas me olhando e dizendo: ela está normal??? Falando e rindo sozinha há algum tempo!!!! rsrsrsrs
    Ah Borboletinha, você me faz passar por cada uma!

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  3. E viva a memória olfativa, a única que jamais será apagada da memória!
    Cheirinho de filho é sempre o melhor cheiro do mundo! Transporte-se, entregue-se, você merece!

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  4. Tá maluca não Valéria. Essas borboletas chegam onde precisam chegar mesmo. :D

    Bjs!!!

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  5. Valéria , depois que eu vi a borboleta amarela que te contei, saindo do meu prédio...agora vejo direto borboletas amarelas. E engraçado que várias vezes minha irmã ta do meu lado e eu falo: olha a borboleta amarela...rs e sempre eu abro um sorriso!!
    Bjos
    Aline

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  6. Eu também 'viajo ao passado' com cheiro de perfumes!
    Essas borboletinhas amarelas que ultimamente estão sempre perto de vc, são 'mais que especias', são 'para você'!

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  7. Oi Valéria, tava atrasada... adorei vir aqui e achar um monte de coisas pra ler. vc escreve tão pouco, comparada a mim q escrevo pelos cotovelos. é q às vezes quero saber como vc tá, como andam as coisas... enfim, lendo essas suas últimas postagens me ficou uma coisa na cabeça: assim como foi surpresa relembrar coisas do passado q vc nem pensava mais, existe todo um futuro de possibilidades aí adiante q vc não é capaz ainda de imaginar agora. é aquela coisa do tempo. pra traz ou pra frente, ele sempre atua sobre nós. era isso q eu queria te dizer, pra vc quando estiver triste, pra baixo, tentar se agarrar à esperança de q alegrias ainda estão reservadas pra você. no tempo delas. eu, pelo menos, torço muito pra isso. de verdade.
    beijo grande meu e do meu pacotinho.
    adriana

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