Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Flanelinha

Venho a pé para o meu escritório todos os dias. É muito perto, basta atravessar uma rua principal. Mas para chegar à rua principal, tenho algumas opções de acesso. Para sair da rotina, cada dia tomo uma direção diferente rumo a essa rua principal para atravessar. É verdade que não tenho muitas opções, mas a que mais gosto faz com que eu me depare sempre com um flanelinha que vive naquele espaço do Rio de Janeiro, ele é, como todo flanelinha, o "dono" daquele espaço. Já presenciei ele discutindo com outros que tentaram invadir o espaço dele. E sempre me irrita aquele jeito "marrento", de dono da rua para cada cidadão que deseja uma simples vaga. Isso é um dos muitos absurdos que eu vejo nesta cidade. Fico furiosa como ficamos nas mãos dessas pessoas que resolveram um dia tomar conta daquele espaço e "ai" de quem quiser atrapalhar ! Enfim, mas sempre que resolvo passar pelo espaço "dele", ele me deseja "bom dia", e bom trabalho. Fico dividida entre meu descontentamento social e a simpatia dele comigo. Mas claro que respondo toda simpática, agradeço e lhe desejo o mesmo. Só que tem dias que prefiro evitar esse "enfrentamento", e passo pelo caminho da escolinha, onde vejo todas as criancinhas lindas e saudáveis indo brincar. Fico ali brigando por um espaço na rua para passar entre carrões com motoristas e carrinhos de bebê, babás e etc. Então ridiculamente esse é quase um momento de decisão importante na minha vida ! Ou evito a saudade do futuro passando pela escolinha, ou vou de encontro ao meu "amigo".


Às vezes fico pensando que é injustiça minha, preconceito com flanelinhas de uma forma geral. Muito ruim pensar assim. Como se todos os médicos, professores, advogados, fossem iguais aos seus colegas...Acho até que o nome nem seja preconceito, é má vontade, sei lá. Mas a verdade é que ele nunca me fez nada, coitado, tenho implicância com ele simplesmente por ele representar uma classe, por assim dizer, que acho agressiva e que me irrita muito.


Mas hoje vim pelo caminho "dele". Ele veio lá de longe em minha direção, viu que eu estava olhando os carros antes de atravessar e me orientou, falou que eu poderia vir que tava tranquilo, não tinha carro, e me desejou, como de costume, um bom dia e um bom trabalho. Mas não foi bem como de costume. Em seguida ele completou, "olha não é da boca pra fora não, é de coração, eu desejo muito isso mesmo para você". Sabe que nessa hora eu gelei. Como assim, de coração ?? Flanelinhas tem coração ?!?!? Que coisa feia da minha parte ! Mas a primeira coisa que me veio à mente foi uma prática que fazemos nos cursos da Arte de Viver, onde, de olhos fechados, ficamos sentados de frente a uma pessoa que não conhecemos, pegamos as suas mãos, de olhos fechados, e quando abrimos, olhamos fundo um nos olhos do outro por alguns minutos, e somos perguntados se somos capazes de aceitar aquela pessoa como ela é. E também nos perguntam se Jesus Cristo viesse na forma daquela pessoa, se a gente aceitaria. Esse é um momento normalmente de muita emoção, que você diz com os olhos que claro que aceita, sem saber nada sobre ela, e agradece, em silêncio, a presença daquela pessoa, abraçando-a e geralmente muito emocionado, sem dizer uma palavra sequer.


Enfim, Sr.Flanelinha, pode ser muita carência, ou talvez uma sensibilidade à flor da pele, mas eu te aceito como você é, e se você quer tomar conta de mim, como hoje, tô precisando mesmo, me senti tão acolhida por você, como se tivesse me pegando no colo...Você falou tão firme comigo, parecia que queria me passar mesmo uma mensagem. Olha, se Jesus Cristo viesse na sua forma, eu ia sugerir que Ele mudasse de profissão, mas eu o aceitaria SIM na minha vida. Obrigada por ter me acolhido e ter feito meio dia um pouquinho diferente...

3 comentários:

  1. A gente vai aprendendo mta coisa na vida e quantas vezes já tive má impressão das pessoas e quando realmente conheço, vejo q estava enganada. Assim como mtas vezes achamos q pessoas ao nosso lado nos fazem bem e tem uma hora q nos decepcionam. Pequenos gestos como desse rapaz são especiais sim.
    OBS: Aline comentou esta semana q faz tempo q vc não postava nada. Saudades!
    Bjão

    ResponderExcluir
  2. Por várias vezes, cruzei com esse mesmo flanelinha e por inúmeras, não parei o carro na rua "dele" porque acho um absurdo pagar por um espaço que é meu: a rua. Quando não havia vaga na frente do prédio, parava em qualquer outra rua próxima só para não cruzar com ele. E ele, mesmo sabendo que eu tinha parado o carro em uma vaga que não era "dele", me dizia "Bom dia, doutora!" rs
    Ele é o o típico fanelinha do Rio. Briga se você para o carro e não tem dois reais, mas pensando bem, eu também o aceito como ele é!
    Saudades!

    ResponderExcluir