Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sexta-feira, 19 de março de 2010

Encontro Indesejado

Hoje a Valéria me ligou perguntando se eu podia ir com ela pegar o exame que o Felipe fez na semana passada (a ressonância). Claro que o exame, apesar de não conter muitas surpresas, iria dizer coisas horríveis que, pelo simples fato de estarem ali, escritas de forma técnica e fria, seriam de uma desumanidade acima da compreensão. Uma tortura mesmo.
Apesar disso, fomos lá, tentando manter um clima de “vamos passar por mais essa”. Quando o laudo chegou, a Valéria tentou dar uma lida até para conferir se era mesmo o exame dela. Não conseguiu chegar nem na terceira linha. O clima ia pesar, a dor estava chegando em ondas. Ela parou e me convidou para tomar um café numa delicatessen na esquina.
E isso sempre me espanta na Valéria. Como, não importa o quanto ela sofra, o espírito dela é sempre de reação, de “vamos em frente”. De não se entregar. Até nos dias piores, quando ela com todo direito diz que não aguenta mais, que é tudo demais pra ela, basta um tempo para que ela, cheia de olheiras e dores, ressurja e recomece a lutar. Eu costumo chamá-la de Fenix nestes dias.
Bem, voltando ao nosso programinha, estávamos nós lá, tomando nosso cafezinho e tentando falar amenidades, reagindo àquele imenso e amedrontador envelope que estava ao nosso lado quando, de repente, a Valéria começou a ficar vermelha e com o rosto totalmente transtornado. Na hora achei sinceramente que ela tinha mordido a língua, quebrado um dente. Era claramente uma enorme dor física que ela estava sentindo. Mas eu perguntava o que era e ela não conseguia falar. E o desespero aumentava. Comecei a achar que ela estava tendo um ataque cardíaco. Seu rosto estava ficando quase desfigurado. Pensei que ela estava sem ar, engasgada, sei lá.
Foi quando ela conseguiu balbuciar umas poucas palavras que foram suficientes para que eu entendesse o que se passava: na mesa ao nosso lado estava nada mais nada menos que a Dra. Cintia, a ex obstetra dela!!!!
A única coisa que consegui fazer foi falar para ela sair dali e me esperar lá fora. Paguei a conta correndo e fui encontrar com ela, lá adiante, afogada em lágrimas.
Essas coisas (horríveis) nos lembram a realidade dos fatos, ou seja, que nada daquilo era necessário. Que o Felipe nasceu para ser normal e perfeito e que quem mudou esse destino, estava ali, tranquilamente fazendo um lanchinho, sem nem ao menos imaginar os horrores que estavam escritos naquele envelope ao lado. Mas ela está certa, não é? O problema não é mais dela. É da Valéria e do Leo, não é isso?
A profunda dor no rosto da Valéria, que não era só do espírito, era física mesmo, provavelmente só foi vista por mim. Pena. Talvez, se a Dra. Cintia, que se escondia atrás do cabelos, tivesse tido a coragem de olhar, talvez entendesse o mal que um descaso pode fazer. Se ela tivesse querido saber alguma notícia, alguma coisa, talvez já tivesse sido um gesto... Ao invés disso, ela saiu correndo do café também. Fugiu. Tão rápido que nem vimos para onde...
Foi isso. Desculpem aos que me lêem. Adoro o Felipe (meu ursinho do coração) e sou muito amiga, mesmo, da Valéria e do Leo. Procuro sempre manter o espírito elevado perto deles até em consideração à admirável coragem desses dois. Mas tem horas que não dá. Só tendo sangue de barata...

Márcia

Um comentário:

  1. Pode "soar" estranho, mas tenho que dizer que adoro esse blog. Lógico que não é pela história de vcs em si, mas pela forma como ela é contada, pela coragem de vcs de expor de uma forma bem clara o que se passa nas suas vidas desde que o Felipe nasceu. Nem sempre escrevo, mas sou seguidora fiel, não passo uma semana sem entrar aqui e estou sempre aguardando algo novo,algo que será contado cheio de emoções e detalhes que surpreendem. Um exemplo e tanto para todos nós , pricipalmente para pessoas que possam ter problemas semelhantes ao de vcs com seus filhos e que buscam apoio, palavras que confortem e, quem sabe, idéias a trocar.

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