Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cena de Cinema

Tinha eu 15 anos, sentado na cama, ouvindo o LP Before The Flood de Bob Dylan e The Band, lendo um livro de Zen-Budismo de D.T Suzuki, e ao lado um incenso queimando. Meu pai chega do trabalho, adentra o quarto e diz: “Sinto muito, mas você nasceu na época errada”. Nunca decifrei seu olhar. Mas aceitei a sentença como verdadeira até hoje. Não tive formação religiosa, e até bem pouco tempo, nem sabia o Pai Nosso.

Sempre fui simpático as religiões e filosofias orientais, principalmente o Taoísmo e Budismo, e seus desdobramentos. Também recorro a Confúcio e sua obra, Os Analectos, de vez em quando. Simplesmente, porque nos ensinam, que somos responsáveis pela nossa evolução. Que não existe o “eu” e sim o todo. No Taoísmo não existem seres divinos, santos, apesar de ter uma vertente mística. Seres divinos são homens que alcançaram em vida profunda compaixão e sabedoria. No Budismo alcançar o nirvana é mérito exclusivamente seu.

Houve e há, rompimentos, quebras de paradigmas e realinhamentos profundos em todos nós, depois do Felipe. Acompanho o blog sempre, já escrevi nele, mas me sinto intimidado, tamanha a carga de responsabilidade de expor meus sentimentos, que tenho certeza são minúsculos perto da luta diária de vcs.
Valéria escreveu sobre sua experiência na “Arte de Viver”, que pelo que entendi, não deixa de ser uma prática espiritual, levando-se em conta que tudo que fazemos para um melhor entendimento pessoal e do mundo, é uma prática espiritual.

Logo após 11 de janeiro, confesso que procurei e freqüentei algumas vezes um centro kardecista, apesar de um pouco familiarizado, não me senti confortável. Desde as pessoas que freqüentavam, até seu conceito. Inclusive o passe dado após as reuniões. Simplesmente não explicavam nada, nem achava conforto. O canal estava sintonizado errado.

Sempre fui “religioso”, mas solitário na busca. Não acredito em acaso, e dito e feito: Depois do blog da Valéria, voltei as meus estudos “orientais”. Sexta-feira, 9 de abril, na volta do almoço, fui atropelado (depois vcs vão entender) por um evento promovido pelo CEBBSP (Centro de Estudos Budistas Bodisatva). Estava sendo realizado uma exposição do Buda Shakiamuni e outro grandes mestres budistas, chamada Relíquias do Buda.
“Quando os corpos de mestres espirituais são cremados, entre suas cinzas surgem cristais parecidos com pérolas. Estes objetos são especiais porque guardam a essência das qualidades do mestre. As relíquias são evidências físicas de que ele desenvolveu muita compaixão e sabedoria antes da morte. Elas proporcionam uma oportunidade única de conexão espiritual com seres iluminados.”

Respirei fundo e fui no sábado. Consistia de uma apresentação do projeto, depois uma sala com as Relíquias, um lugar para meditar (ainda medito andando), alguns discípulos nos orientando sobre os procedimentos, como banhar o Buda e tocar o sino com mensagens de compaixão e benevolência. Perguntei se tinha uma prece especial, e um discípulo me lembrou: Não existe você, o que for pedir, peça para toda humanidade. Isso me lembrou um verso Taoista.:

“O sábio não tem coração. Faz o coração de todos, o seu.”

Depois dos procedimentos, recebi a benção de um simpático monge. Impressionante o clima de paz, solidariedade, compaixão, benevolência e felicidade das pessoas. Não tinha vontade de ir embora. Como não existe acaso encontrei na fila uma antiga conhecida do colégio da Marina que é adepta do budismo e recebi um caloroso abraço.

Foi uma das sensações mais intensas que tive nos últimos anos. E na hora de ir embora e me despedir, rolou uma das poucas lágrimas que tenho derramado ultimamente. Quando pisei na calçada, senti que tinha sido atropelado por um caminhão de 200 toneladas !!!!!
tal a intensidade da experiência. E a “culpada” foi a Valéria....rsrsrsr

Só consegui escrever agora, porque ainda estou digerindo o acontecimento. Pena que estava “fisicamente” sozinho, mas vcs estavam comigo banhando o Buda !!!!!


Bjos

Um comentário:

  1. Meu irmão, você sempre foi minha referência para questões espirituais e existenciais. Nesses dias que te via escutando essas músicas e lendo essas coisas tudo que eu queria era ser como você. Bem, acho que estou chegando perto (mas ainda bem longe)...
    Beijos

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