Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 25 de maio de 2010

Consciência

Sabe que eu procuro ter esse lado "Arte de Viver", onde eu sinto paz, procuro ter paz, mas na realidade é para balancear com a sensação que muitas vezes eu tenho de que a vida é um pesadelo. Não por causa do Felipe somente, mas no dia-a-dia sinto sensações tão ruins pelas ruas, que não consigo muito bem entender o significado disso aqui, da vida, da humanidade. Começando por coisas muito básicas, como eu entrar no elevador e dar "bom dia" e a pessoa não responder. Ou as pessoas que fazem o que querem no trânsito, sem respeitar nada nem ninguém. Pessoas que adotam crianças para espancar e usá-las para extravasar suas insanidades. Outras que estacionam seus carros na vaga de deficiente, porque só vão ficar um minutinho...Os carrões maravilhosos e imensos que estacionam em cima da calçada do PlayGym, escolinha ao lado da minha casa, não deixando espaço para as crianças de cadeiras de rodas que passam por ali para poderem atravessar a rua e irem na ABBR fazer um tratamento... Estas têm que ir pelo meio da rua, porque a calçada está ocupada com os carrões. Essas pessoas colocam suas vontades e necessidades acima de qualquer coisa, esquecendo, ou desconhecendo conceitos básicos de convivência, de respeito, educação. Tem muita gente assim, e não estou falando de gente humilde não...muito pelo contrário.

Mas o pior de tudo isso, o que tem acabado comigo é ver tanta criança sofrendo nesse mundo. Morando muito perto da ABBR, diariamente me deparo com crianças deficientes, que vêm de muito longe, muitas vezes de ônibus, no colo das mães, para fazerem um tratamento. Cada criança dessa que eu me deparo na rua eu fico arrasada, e muitas vezes chego a chorar sozinha andando pelas ruas. E aí eu paro e penso que meu próprio filho é pior que todas elas. Ele nem sai da cama, nem abre os olhos...mas aí eu chego na questão que me dói mais. Essas crianças têm uma coisa que o Felipe não tem, que é a consciência dos seus problemas. Elas podem ser felizes, muitas vezes são, claro, mas não estão livres dos preconceitos, dificuldades, maldades inerentes a outras crianças. Eu cheguei à conclusão que é isso que me faz sofrer mais, é imaginar a dor dessas crianças diante de suas deficiências. E eu penso muito nisso em relação ao Felipe, pelo menos ele não sofre por não ter consciência da sua condição. Quem sofre mais é a gente, e eu sei muito bem como dói ver por exemplo uma criança sair de perto do Felipe, com MEDO dele...já vivenciei isso algumas vezes, até mesmo dentro da minha própria casa...é uma "facada no peito" para nós, seus pais, imagina se ele conseguisse ver e entender isso...Às vezes fico pensando se o Felipe melhorasse muito, ele ficaria ainda muito ruim, e acho que neste caso eu prefiro que ele viva o mundinho protegido dele, e que deixe que nós sofremos por ele.

4 comentários:

  1. Valéria, vc tem uma coisa chamada coração.É muito difícil para as pessoas, de uma maneira geral, lidar com o que não se encaixa na classificação "normal".Daí essa atitude de fugir, ignorar e muitas x discriminar.Sabe aquela frase muito simples e até egoista:"não faça com os outros o que vc não gostaria que fizessem com vc", as pessoas esqueceram, infelizmente.todos temos nossos problemas, as x tão pequenos que não podemos nem chamar de problemas mas fazemos deles uma grande tempestade e aí não conseguimos ver o resto do mundo.Não cumprimentamos no elevador,estamos sempre na prioridade para qualquer coisa e por aí vai.Acho que era minha avó que dizia" olha pra frente e pára de se preocupar com o próprio umbigo".Apesar de tudo de complicado que vc tem na vida, vc continua olhando pra frente.Felipão está muito feliz no seu mundinho e já mostrou isto pra vc.voce pra mim é uma pessoa fantástica, um grande beijo,este só pra vc e aquele enooooooooorme no Felipão.Tia Gizélia

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  2. Valéria fiquei emocionada com o que vc escreveu, se eu pudesse com certeza pegaria para mim todos os sofrimentos do meu filho.
    concordo com vc, o mundo está ficando cada dia mais feio, mais amargo e menos respeitoso. é como se cada um só se importasse com o seu umbigo, pois a pressa do dono do carro que para na vaga do deficiente é mais importante que o acesso do outro. A ansiedade da mãe que espanca seu filhó é mais importante que o sofrimentou que ela está causando nele.
    Acho muito legal vc, apesar do problema do seu filho, se preocupar com o mundo ao seu redor. eu torço para que as crianças cresçam com mais consciência social, não precisamos colocar no colo todos, mas devemos nos respeitar, respeitando as necessidades de cada um...se as pessoas fizessem isso o mundo seria muito melhor!

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  3. Reforço que dói em mim também... Às vezes, no trânsito, tenho vontade de ir morar na Alemanha onde o respeito das pessoas com o próximos nos faz pensar no sentido real do termo viver em sociedade (sem contar a cerveja maravilhosa se comparada com esses refrigerantes que tomamos por aqui). Como alternativa sugiro batermos fotos com os celulares e mandarmos para os Ancelmo Goes da vida... Não vai resolver mas de grão em grão, talvez, um dia, quem sabe, conseguimos mudar a cultura do povo daqui que acha que tem mais direitos ou que são mais espertos do que os outros. Fico pensando o que passa na cabeça numa pessoa que fura uma longa fila no trânsito: "Esse bando de otários ficam aí na fila podendo passar aqui na frente." ou "Essa caganeira tá me matando..." (deve ser o tempero brasileiro que faz isso com uma certa frequência) ou "Eu sou malandrão, me dei bem!!!"

    Bom, pra terminar segue uma opção para a próxima vez que der bom dia no elevador e não te responderem: http://www.ricaperrone.com.br/2010/01/o-irmao-ladrao/

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  4. Valéria -
    a reação das crianças é instintiva... se afastam daquilo que não lhes é familiar. Minha filha, aos 2 anos, se esconde da vizinha idosa que ela nunca viu antes, do vizinho (gatinho por sinal) que acabou de se mudar para o prédio, e, por vezes, de crianças saindo da ABBR (somos vizinhas)...
    Mas é nessa hora que entra a função de mãe e temos que acionar nosso módulo "ensinando a conviver com o que não é igual a nós"!
    Com freqüência pego Alice olhando, curiosa, para uma criança numa cadeira de rodas, sainda da ABBR. Nunca perco a oportunidade para ensinar a ela que é uma criança como ela, com oportunidades diferentes. Sempre deixo que ela reaga como quiser, depois me abaixo e, conversando com a criança em questão, pergunto como foi a fisio ou como está o dia dela. Depois digo, claramente: "Alice, filhota, vem dizer oi pro amigo! Olha como ele fica contente de ver uma amiguinha..."
    Até hoje nunca falhou... ela se aproxima sorrindo, recebe um sorriso de volta. Muitas vezes esses rápidos encontros terminam em carinhos mútuos.
    Com isso, um dos amiguinhos de pracinha que Alice mais tinha carinho quando miúda era o Cauê (do Leblon, acho que você conhece). Ela conversava, brincava com ele e, apesar de um primeiro momento de estranhamento, depois que entendeu que ele apenas tinha oportunidades diferentes dela, passou a tratá-lo como qualquer outro amiguinho... aliás, minto, até melhor, porque a ele ela sempre dispensou uma atenção especial, aprendendo, inclusive, alguns dos sinais que ele usava para se comunicar...
    Acho que o que corta o coração mesmo é saber que ainda existem mães e pais que, por terem tido seus filhos "perfeitinhos", esquecem que todas nós estamos sujeitas a novidades inesperadas e que um dia pode ser nosso filho precisando ser aceito e visto como apenas uma criança com oportunidades diferentes...
    Acho que são mesmo os adultos que precisam ser educados!

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