Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 6 de julho de 2010

Meu Pai


Depois que meu pai se foi, tivemos que passar pela dura tarefa de arrumar as coisas dele em casa, suas roupas, fotos, documentos, enfim, aquele momento horrível que muita gente já deve ter passado. E abrindo uma gaveta do escritório dele, me deparei com um monte de folhas com coisas escritas por ele. Meu pai gostava muito de escrever. Era uma especie de diário, iniciado dias após o nascimento do Felipe, e era ora ele escrevendo para o Felipe ou como se fosse o Felipe. Eu não aguentei ler aquilo até o final, era demais... Peguei pra mim, e guardei numa gaveta, achando que algum dia eu teria coragem de ler...Nunca tive...Hoje eu abri a gaveta e dei de cara com esses papéis. Hoje faz 1 ano da ida do meu pai. Não sei o que me deu, mas comecei a ler, e não preciso explicar o estado em que fiquei (em que estou, na verdade, isto acabou de acontecer...).

Todos nós, inclusive os médicos do meu pai, sempre achamos que o que acabou com a vida dele foi a dor com o que aconteceu com o Felipe. Meu pai, médico pediatra, tão respeitado, que curou e cuidou de tantas crianças, que fez o bem para tanta gente, se via numa situação de grave erro médico justamente com o netinho dele...e ele não podia fazer nada, absolutamente nada para reverter o que fizeram...Meu pai teve câncer de laringe, teve que tirar a laringe e se submeter a uma traqueostomia na mesma época que o Felipe estava internado, e no mesmo hospital. Era o Felipe em um andar, e meu pai no outro... Com esta cirurgia, meu pai deixou de falar...teve que reaprender aos poucos, de outras formas, mas era muito difícil. E acho que no fundo isto selou o fim da vida dele, acho que ele deixou de querer dizer alguma coisa depois que o Felipe nasceu. Mas o coração dele não... Ele sempre deixou claro que entendia que o caso do Felipe não tinha muita saída, mas lendo o que escreveu, sinto que até ele às vezes tinha uma esperança...

Hoje é um dia triste. Este blog não tem como ser alegre e para cima o tempo todo. Quando me deparei com estas palavras do meu pai, queria muito abraçá-lo, sem dizer nada, como ele fazia comigo praticamente todos os dias naquele hospital, lá em casa...ele não vai ler esse blog, mas sei que está sentindo minha energia para ele. Então queria só mostrar um pouquinho do que se passava no coração do meu pai, e pedir licença a ele por invadir sua "privacidade". Mas acho que não iria se importar com esta homenagem a ele.

"Felipinho querido do vô. Você estava bonito, cheiroso e arrumadinho. Dormindo o sono dos inocentes. Eu disse sono. Muitos vieram lhe visitar. Também estavam lá seus adoráveis pais que não te abandonam nunca...Estou vendo como você está engordando, seu comilão. Sabe, cada vez que estou perto de você, mais perto fico do menino Jesus, e nós 3 juntos fazemos um trio do barulho. Aliás sempre chegam notícias de crianças dorminhocas como você e que acordaram sem maiores problemas. Só que custa um pouquinho de tempo. Meu coração está junto do seu, transplantado, tentando de todos os modos te ajudar nesse momento. Cada vez te amo mais. Cada dia sou mais seu avô. Beijo no seu rostinho corado, Vô "

"Meu anjinho: batemos um longo papo hoje. Minhas palavras eram minhas lágrimas. Você só ouvindo. Amanhã vovô vai ser operado. Vamos rezar. Vô"

"Querido, hoje conversamos bastante e sozinhos. A solidão nos inspira e nos aproxima. Você estava mais calminho, apreciando o cafuné que o vovô fazia. Uma fungada no pescoço"

"Meu Pai, eu quero ouvir, falar, ver o esplendor da luz com meus olhinhos azuis, quero sentir, chorar, ouvir. Quero respirar sozinho, só me deixaram por 1 dia. Quero sentir o batimento do meu coraçãozinho no compasso da grandeza divina. Quero tudo e não tenho nada. Mas tudo vai mudar...."

Esse era meu pai, um pedacinho dele. Que saudade...

11 comentários:

  1. Valéria querida -
    deixo um abraço emocionado!
    Mariana Perri

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  2. Valéria,
    Não sei explicar exatamente o que estou sentindo ao ler o que o tio Fabiano escreveu . Senti alegria ao ler palavras doces ,frases de criança como " um trio do barulho "! Senti tristeza quando percebi sofrimento em suas palavras ...também senti ternura quando vi a esperança que ainda nutria aquele Pediatra tão experiente . O choro me fez parar de ler algumas vezes , mas a vontade de sentir de alguma forma o tio Fabiano mais "vivo" me fazia retornar a leitura e desvendar finalmente tudo o que aquele longo silêncio queria dizer.Agora neste momento, sinto muitas saudades dele e em suas palavras acabei de conhecê-lo mais um pouquinho.Vô de anjinho ...descanse em paz e receba de alguma forma todo o nosso amor! Karina e família.

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  3. Valéria,
    Chorei lendo o post.
    Que privilégio ter tido um pai tão bacana.
    um beijo,
    Juliana.

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  4. Querida Valéria,
    Perdõe-me a liberdade.
    Ando visitando este site, para saber como vão todos.
    A primeira vez, foi numa busca por uma banheira que coubesse meu filho Gabriel, um PC como se costuma dizer, de 5 anos que está tomando banhos cada vez mais apertados!!!
    Fico sempre muito triste com o seu sofrimento.
    Meu caso é bem diferente pois tenho um filho muito "especial" por opção.
    Mas não deixo de compartilhar as suas dores.
    Gostaria de dizer algo que lhe confortasse, mas tudo em que penso esbarra na questão da fé e aí é complicado.
    Torço para que vocês sejam felizes.
    Beijos, com amor
    Chris Belo
    de Campo Limpo Paulista/SP

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  5. É verdade, este era ele, e isso nunca passou batido. Quando minha vó falou pra eu ver o blog, de início eu não quis, por se tratar do meu avô, um assunto que evito tocar. Todos, e vc mais do que muitos tem uma ferida, algo que tentamos fugir; ao ouvir uma musica que eu ouvia na época, eu desligo o rádio. São emoções muito fortes, e eu entendo o que vc disse em não aguentar ler até o final, pois com as cartas que ele escreveu pra mim eu sei que muito raramente eu consigo ler, sem chorar. Agora ainda mais se tratando do Felipe, em uma situação tão delicada, em que os dois, se encontravam. As vezes eu fico pensando, foi coincidencia, acidente, ou até algo espiritual , foi o que , que os colocou juntos lado a lado , compartilhando de situações tão dificeis: meu vô no fim de sua vida, e o felipe, no começo. E tenho certeza, que meu vô, realmente não quis mais falar sobre o que realmente aconteceu. Toda essas questões me fizeram pensar, sobre a vida, sobre a morte, sobre Deus (e na minha mente ainda me pergunto se existe), me fez acreditar em coisas que não acreditava, e desacreditar em coisas que acreditava. Espero que exista a tal vida após a morte, pois assim é um meio de meu avo ainda se manter comunicando ainda com felipe, e dando forças, em um plano que a gente não sabe qual é. O do Felipe, que pode mais do que qualquer pessoa, sentir de maneira diferente, coisas que a gente não sabe explicar. Beijos tia, te amo, Íris.

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  6. Valéria,o Fabiano era muito mais do que um amigo para mim e principalmente para o Max.Quando o Max lembrou que no dia 6 faria um ano que ele tinha saido de cena, entrou no seu mutismo habitual de quando ele está profundamente triste,magoado e saudoso.Fabiano ficou muito abalado com a situação do Felipe e sempre que podíamos trocávamos idéias.Acho que agora, livre dos problemas que estava passando,consegue se comunicar muito bem com o netinho.
    Temos recordações ótimas do Fabiano e tudo o que vc escreveu sobre ele é muito verdadeiro.Não tem nenhum exagero.Ainda hoje eu "ouço" as risadas que dávamos juntos, a forma como ele contava uma história, descrevia uma situação,enfim,permanece muito vivo no coração.Um beijo grandão pra vcs e aquele enorme e habitual no Felipão.Tia Gizélia

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  7. Confesso que me emocionei com as palavras do seu pai e nem consegui terminar de ler para minha mãe, que estava ao meu lado. Mto bonito mesmo!!!
    E me lembro bem desta foto, no dia do batizado!!!
    Adorei o texto.
    Bjão

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  8. Falar que meu sogro é uma pessoal especial seria "chover no molhado", mas tenho duas passagens que nunca esquecerei e expressam muito bem o tamanho de seu coração (ao menos para mim).
    A primeira foi em Jun/06 quando o Lucas (irmão do Felipe, fruto do meu primeiro casamento) foi internado numa noite com diagnóstico de meningite. Foi o primeiro-maior-susto-da-minha-vida. No dia seguinte, do nada, Dr Fabiano me aparece no hospital para "supervisionar" as coisas, me levar conforto e a certeza que tudo acabaria bem. Gesto simples, normal, mas que pra mim teve um significado enorme. O segundo momento foi na sua última internação, quando se recuperava da cirurgia. A família estava reunida ao redor de sua cama, eu segurei sua mão e pedi a mão da Valéria em casamento, pois já tínhamos até a data marcada e ele tinha que sair rápido dali. Nesse momento ele apertou forte minha mão, me puxou para mais perto e sussurou "Leo, você não tem que me pedir nada, você é como um filho pra mim". Nesse momento só consegui beijá-lo e agradecer com os olhos cheios d'água, com um orgulho imenso de me sentir no rol de pessoas queridas do Dr Pellon. Ele é como um pai pra mim. Penso nele todos os dias com reverência e amor. E antes que alguém pergunte, saibam que meu próprio pai faz o mesmo...

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  9. Val,
    Viajei, voltei, me enrolei e fiquei um tempo sem entrar no blog. Só agora "vi" o Dr. Fabiano. Dessa vez eu não tenho palavras, tá? Não quero falar nada. Tenho certeza que ele continua por perto, olhando pelo Felipe e vocês. Um beijo profundamente-profundamente emocionado. Márcia Dabul

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  10. BOA NOITE VALERIA .NAO TE CONHEÇO,MAS TE ADMIRO .UMA MULHER GUERREIRA,FORTE,UMA MAE..QUANDO LI O Q SEU PAI ESCREVEU ,CHOREI MUITO.SAIBA QUE SEU ANJINHO VEIO A ESTE MUNDO PARA TRAZER AMOR, HARMONIA,PAZ AO SEU CORAÇÃO,PARA MOSTRAR O QUE E O AMOR!OS MISTERIOS DA VIDA A DEUS PERTENCE!NADA ACONTECE POR ACASO.SO DEUS PARA CONFORTAR SEU CORAÇÃO E DE SUA LINDA FAMILIA, A CADA DIA . VOU ORAR POR VCS,SEMPRE.JESUS AMA MT VC!!!BEIJOS MICHELLE BARROS

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