Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cena da novela

Quem viu a novela "Viver a Vida" hoje pode ter chegado um pouco perto do desespero que passamos ao saber o prognóstico do Felipe. Vendo a cena em que a família se reune para conversar com o médico amigo, para entender melhor o que houve, e as chances de recuperação, me lembro claramente de quando fomos entendendo o que tinha acontecido com o Felipe. Eu demorei a entender, apesar do meu pai, médico pediatra, me falar o tempo todo, desde o início, o que tinha acontecido.

Para mim, acho que só entendi mesmo o que tinha acontecido após o resultado da primeira ressonância magnética que foi feita no Felipe, e que a neurologista veio conversar comigo e com o Leo. Aquele dia nunca mais saiu da minha cabeça. Foi o pior dia da minha vida. Nem as palavras dela: "Aquele filho que vocês sonharam, esse filho morreu. Não temos como saber quanto tempo ele vai sobreviver, mas o Felipe näo vai andar, não vai falar, não vai fazer nada." Não sei dizer, mas acho que foi pior que o momento que ele nasceu. Foi a verbalização da realidade, e não há nada mais duro que isso. Até hoje eu fico mal quando tenho que contar a história do Felipe para algum médico novo. Falar que seu filho é tetraplégico, com paralisia cerebral, meu bebezinho, nossa, é muito ruim.

E voltando à mesma cena da novela, vemos como pode-se ter todo o dinheiro do mundo, mas em determinados casos, não há absolutamente nada o que esse dinheiro possa fazer. Nós tentamos contactar os melhores hospitais do mundo. Onde poderá haver um tratamento para ele, no mundo inteiro ? Lugar nenhum...Nós mesmo não teríamos condições financeiras para bancar um tratamento desse tipo, mas não faltaram amigos se prontificando a ajudar. Mas não tinha e nem tem nada pra ser feito. Como reverter lesões cerebrais gravíssimas ? O parto do Felipe foi tão agressivo, que todos os médicos e especialistas que analisam as ressonâncias magnéticas dele ficam chocados, porque além das lesões por falta de oxigenação, existem lesões causadas pelo trauma físico, em função do impacto das manobras feitas pelos médicos durante o parto. Se com a força que eles fizeram a tal manobra de Kristeller eu fiquei quase sem poder me mexer, em função de uma provável fratura na costela, imagina o meu bebezinho, lá dentro...sofrendo possíveis pressões na sua cabecinha...

E ainda a novela, a revolta da mãe. As pessoas esperando que ela se acalme, como assim, se acalmar ???? A mãe não quer deixar um possível culpado sem pagar pela sua culpa. Nem sei exatamente o que houve na novela, se tem um culpado ou não, não estou entrando nesse mérito. Mas o fato é: o culpado tem que pagar ! Muitas pessoas me diziam "que bom", quando constatamos, após milhares de exames, que o Felipe não tinha nenhuma doença nem síndrome pré-existente. Bom porque com isso nós poderíamos ter outros filhos sem preocupação de ser uma doença genética. Eu jamais consegui me confortar com isso. Como assim, "que bom" ? Eu juro que eu ouvi isso...Eu preferia que o Felipe tivesse uma doença, juro que preferia. É muito ruim ter um culpado pelo fim da vida do meu filho. Como será que vive a pessoa que destruiu a esperança de uma família inteira ? Que destruiu para sempre a vida de um bebê perfeitamente normal ? Nada nesse mundo vai me fazer jamais conseguir perdoar. Quem diz isso é porque não tem ideia do que passamos. Tenho certeza que não houve intenção, mas houve negligência, e como se paga isso ??? A impressão que eu tenho é que somente o Felipe e nós pagaremos.

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