Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 24 de novembro de 2009

Chegando mais perto...

Queria, se a Valéria não se importar, mudar por um instante o foco do blog e falar um pouco de “nós”: das pessoas amigas, parentes, conhecidas, colegas de trabalho da Valéria e do Leo, que acompanham todo o drama do Felipe.
Queria falar sobre como é difícil às vezes conseguir transmitir a eles todos os sentimentos que passam pelas nossas cabeças.
Que houve um primeiro momento, quando “aquilo” aconteceu, que nossa reação foi de espanto mas principalmente de incompreensão da real dimensão do problema. Naquela fase, houve uma mobilização enorme de pessoas que muitas vezes nem ao menos conheciam diretamente Leo e Valéria para, das formas mais diversas, tentarem levar seu apoio e fé. Não sou capaz de enumerar a quantidade de orações individuais ou em grupo, a quantidade de santinhos, orações ou mensagens que soube que foram enviadas para a UTI, não só por conhecidos diretamente mas também por “amigos dos amigos dos amigos”. Foram novenas, correntes, cultos, sessões espíritas, missas, rodas de orações. Porém, conforme o tempo passava e os piores prognósticos se confirmavam, essa nossa mobilização foi sendo substituída por uma sensação de impotência, de dor profunda. Não havia NADA que pudesse ser feito para amenizar ao menos um pouquinho tanto sofrimento. Eles não precisavam de nada que estivesse ao alcace das mãos de ninguém. Precisavam tão somente de um milagre. E esse infelizmente, não veio. Não foi por falta de pedidos... E o silêncio muitas vezes se fez...
E agora? Quase 3 anos depois, eles estão lá, vivendo um dia após o outro. E para “nós”, a coisa ficou ainda mais difícil. Como chegar perto? Como transmitir o quanto todo mundo se sente tão profundamente solidário com eles? A questão é que não dá para dizer para eles assim: “Olha meu coração dói, dói e dói com o caso de vocês. Dói e nunca mais vai parar de doer. Dói de manhã, de tarde e de noite, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Dói há quase 3 anos. Tá doendo agora e vai continuar doendo daqui a pouco. Nada que se compare ao que imagino (e acho que nem consigo imaginar...) que seja a dor de vocês. Mas, ainda assim dói e muiiiiito!!!”
Acho que é isso que todos queremos falar... Mas não é tão simples. Imagina ligar para eles pra falar isso... A gente tá ligando para reclamar DA NOSSA DOR!! Depois de tanta reclamação, a Valéria vai estar aos prantos do outro lado. E, pior ainda. Como começa a conversa? “Oi Valéria, aqui é o Fulano, tudo bem?” COMO ASSIM TUDO BEM?? Já pareceu insensível antes de começar. E se não enrolar no início, nem no meio da conversa, do final, da despedida, a gente não escapa. “Então tá Valéria. Tudo de bom pra vocês e o que precisarem de mim, qualquer coisa mesmo viu, é só falar, tá?” MAS ELA SÓ PRECISA DE UM MILAGRE!!!!!!!
Conclusão: Não vou ligar!
Mas a cabeça, e a dor que dói todos os dias, continua lá. Como estar próximo?
Quem de “nós”, pessoas que testemunham esse drama, já não passou por essas e outras dúvidas sobre como dizer que é solidária, sobre ter uma palavra de esperança ou ao menos de consolo para dar?
Aí veio o blog. Sabe que a minha impressão é que, não só para Valéria e Leo foi uma boa idéia mas também para “nós”?
Eles falam o que querem, quando querem. Aos pouquinhos falam de seus sentimentos, dos momentos horríveis, da vida, do dia a dia: diferente, sem dúvida, difícil, com certeza. Mas estão aí. Dormindo e acordando, trabalhando, pagando as contas, fazendo planos. Que bom poder ouvi-los!
E recebem mensagens também. Cada uma lida com atenção e carinho. Cada qual reafirmando o fato de que eles estão cercados por uma roda enorme de bem querer. Um bem querer que não é tanto de atos ou palavras. Mas principalmente de sentimentos. Que bom poder falar pra eles!
É isso. Acho que por escrito no blog, fica mais fácil de dizer simplesmente assim (dá até para cantar):
Valéria e Leo,
“Eu tenho tanto pra lhes falar mas com palavras não sei dizer...
Como é grande o meu amor... POR VOCÊS!”

Beijos,

Márcia Dabul

3 comentários:

  1. Márcia, não conheço voce mas tudo o que foi escrito é a realidade dos amigos, amigos dos parentes etc...Voce foi muito lúcida nas suas colocações.Valéria e Leo estamos aqui, muitas vezes em silêncio,mas firmes e prontos pra qualquer coisa.Tia Gizélia

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  2. Para quem não sabe, Marcia foi minha chefe por 12 anos e se tornou uma grande amiga, daquelas pra toda hora. Ela participou de absolutamente todas as etapas do Felipe, desde que ele era ainda um grãozinho de arroz...Ela sempre fez questão de estar muito perto, em TODOS os momentos. E me emociona muito com suas palavras, sempre tão verdadeiras. Com ela, e junto com todos os amigos sobre quem ela escreve nesta mensagem, eu me sinto muito "segura". Nem todos estão sempre presentes fisicamente, mas eu sei que é só "gritar" que não vão saber o que fazer para ajudar. Como é bom ter amigos como vocês todos !!! Um por um...
    Eu sei que amizade não se agradece, mas quebrando as regras, queria agradecer tanto carinho.
    Valéria

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  3. Agora sou eu que estou viajando e com o coração apertado de saudades. Mas dá um certo conforto quando lembro dos queridos amigos que se desdobram para suprir nossa ausência. Saibam que sempre tive consciência da angústia de cada um de vocês, e fui solidário (estranho, mas é verdade). Mas demorei um pouco para perceber com quem poderíamos realmente contar para estar ao nosso lado nessa jornada, os AMIGOS DE VERDADE. Velhos "amigos" se foram e novos chegaram, e todos tiveram seu papel, para o bem ou para o mal. Obrigado por cuidarem tão bem da gente e nos abrirem os olhos. Nossa jornada seria muito mais difícil sem vocês.
    Beijos.

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