Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sábado, 7 de novembro de 2009

Papel de Pai


Desde o começo da história do Felipe, fiz questão de não me manter alheio aos acontecimentos. Não por achar simplesmente que este é meu papel, mas por completa incapacidade de agir de forma diferente. Muitas pessoas, que já vivenciaram situações semelhantes, ficam admiradas pela minha dedicação ao Felipe, à Valéria e à minha família. Dizem que isso é mais esperado das mães, e é muito comum o pai se desligar da situação, "entrar em parafuso" e não raro terminar o casamento. Não sei se por ingenuidade não entendia direito tanta admiração e pensava: ", e dá pra ser diferente?". Sim, dá, como já tomamos conhecimento algumas vezes. Depois vim entender que realmente existe uma tendência de o pai ser alijado do processo, pois todos os cuidados e preocupações se voltam para a mãe, o que sinceramente acho muito justificável. Daí pra abandonar tudo é um pulo. Apesar de ter participado de tudo na sala de parto com a Valéria, assistir (e filmar) de camarote a brutalidade que foi o parto, vê-lo sendo reanimado, entubado e etc, tenho consciência que a dor da Valéria é muito maior que a minha, mas nunca subestimem a dor de um pai, de um homem.
Assim como ela, muitas vezes questionei minha própria existência (se é que me entendem), e a única coisa que segurou minha onda, foi o amor por toda minha família, e a sensação de que eu fazia parte da "resistência". Enquanto meu mundo desabava ao meu redor, eu tinha (e tenho) a impressão que alguém tinha que se manter lúcido e forte para que as coisas se desenrolassem da melhor maneira possível. Não dá pra ser covarde. Não me permitia chorar, ou demonstrar descontrole, pois achava que levaria todos ao fundo do poço comigo (seria pretensão minha?). O que não quer dizer que não tive meus momentos de descontrole, pois quem me conhece sabe estou longe de ter sangue de barata. Mas eu tenho um compromisso, e o maior deles é com meus filhos. Eles precisam de mim, e não me furtarei de dar-lhes meu melhor. Um rapazinho que hoje tem 13 anos chamado Lucas, que durante um bom tempo foi a única pessoa da face da terra que me trazia algum conforto e vontade de sorrir novamente. Espero que um dia ele tenha consciência do papel que desempenhou. Um menino que me enche de orgulho e admiração pelo carinho que tem pelo irmão e pela Valéria. Hoje, a maior alegria da minha vida é vê-los juntos ao alcance dos meus olhos e abraços. O outro filho dispensa comentários, quem está lendo este depoimento já deve saber um pouco sobre ele. Um menininho, ou jardineiro como alguém comentou muito bem por aqui, que me fez perceber o quão forte posso ser e ao mesmo tempo tão frágil. Conversamos todos os dias. Ele me diz boa noite sempre que vou me deitar, de um jeito que só quem o conhece percebe. Diferente da Valéria, eu tenho certeza absoluta que ele nos percebe e sabe quem somos. Não sei bem em que dimensão isso acontece, mas estamos conectados sem dúvida alguma.
Meu irmão colocou muito bem que na juventude estava no script renegar o amor da família, e hoje sabemos que somos "um grande nada" sem esse amor. Essa é a mola que me move hoje.
Aliás, sempre achei meio bobo esse negócio de "Deus é amor", "o amor isso", "o amor aquilo". E continuo achando que muita gente usa essas frases sem pudor, só porque acha bonitinho. Nenhuma delas tem o "mestre Felipe" para ensinar o real significado disso, coitadas ...rs. E tem mais, nossa bruxinha-boa Adelaide (não confundam, li por aí que existem bruxas-más a solta) tá fazendo uma mágica tão boa com a gente que estou me convencendo que sou mesmo um cara de sorte. Afinal, só a sorte para dar a percepção desses ensinamentos e ter a família que tenho, inclusive a que chegou junto com o meu amor, a Valéria.

2 comentários:

  1. Um dia eu disse, não me lembro pra quem: Eu amo incondicionalmente a minha mãe, mas meu pai...
    Nem precisei continuar! O que eu sentia enquanto dizia isso era algo que fazia meu coração explodir de amor! Não que eu não sentisse o mesmo pela minha mãe, mas meu pai! (suspiro) Só de escrever lá vem aquele sentimento de novo! Será que é o mesmo que o Felipe sente quando ele ouve a sua voz da sala e não consegue conter um suspiro mesmo depois de um aviso meu: "Felipe, se vocês suspirar antes dele entrar no quarto vou morder você todinho!"
    Acho que é!

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  2. Que beleza de relato!
    É isso mesmo... ser pai é muito mais do que só estar por perto, é sentir e sofrer e ser forte quando preciso...
    E, não se iluda, não é pretensão nenhuma se sentir um pilar... só não deixe isso virar condição contínua de vida... lembre-se sempre que você tem o direito absoluto de despencar um pouco para depois reerguer... a beleza do amor harmônico é essa... quando um acha que o peso já está demais, o outro assume a posição de pilar e sustenta a estrutura por um tempo... e, mesmo sem conhecer vocês pessoalmente, vejo que Valéria e você têm esse tipo de harmonia!
    Força, sempre!

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