Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



sábado, 31 de outubro de 2009

Aceitei ajuda

Nesses quase 3 anos de luta, desde que o Felipe nasceu, tem uma pessoa que foi fundamental para nos ajudar a continuar a viver. Adelaide, nossa psicóloga. Ela apareceu em nossas vidas pouco tempo depois que o Felipe nasceu. Eu estava desesperada, completamente desorientada. Eu voltava do hospital e tinha crises de desespero já dentro do carro, no curto percurso entre o hospital até nossa casa. Era horrível chegar em casa e ver tudo preparadinho para a chegada do Felipe, e ver nossa casa insuportavelmente vazia. Era uma dor incontrolável, que acho que eu tentava amenizar de formas pouco recomendáveis. Crises de desespero, mesmo! O Leo, que é a pessoa mais calma do mundo, passou a brigar no trânsito a ponto de sair do carro e tomar satisfação com as pessoas. Chutou em golpe de caratê um ônibus na rua, que avançou o sinal que íamos atravessar. Quando chegou em casa, falou no ouvido do Felipe que papai virou " justiceiro" ... deu até pra rir dele....Por impulso, tomávamos algumas atitudes que colocavam nossa própria integridade física em risco. Minha mãe ficou uns dias na nossa casa e passou para o meu pai o que estava acontecendo. Ele, como era médico, e ainda, pediatra, conversava muito com os médicos da UTI e pediu uma ajuda psicológica pra mim, senão estava até pensando em me internar !

Foi quando num final de semana de sol apareceu no hospital a Adelaide, que prestava serviço psicológico na UTI Neonatal. O que falar numa situação dessas ? Eu só chorava e chorava, não conseguia enxergar nenhum sinal de esperança, não conseguia ter vontade de viver, de mais nada. Ela aos poucos foi nos fazendo enxergar que o nosso casamento dependia da nossa sanidade, que a gente precisava trabalhar, sair, respirar, ficar bem para cuidar do Felipe. Ela nos fazia enxergar como o Felipe iria preferir que a gente estivesse bem, por mais duro que isso fosse. Como assim eu vou ficar bem enquanto ele está tão mal, eu pensava. Foi um longo caminho, que ainda estamos trilhando.

Num determinado ponto, a Adelaide se preocupou de verdade e me “intimou” a tomar providências. Ela me convenceu que em algumas situações da vida, existem certos tipos de ajuda que servem para fazer com que a travessia seja um pouco mais suportável. E foi aí que eu comecei a tomar anti-depressivos, com a supervisão de um psiquiatra indicado por ela, o Dr. Arnaldo. Sempre tive muito preconceito com esse tipo de coisa, mas hoje posso dizer que foi o que mais me ajudou, o que me levantou os olhos de volta para a vida, para a opção de viver. Não estou fazendo apologia aos anti-depressivos, estou falando de mim; pra mim, foi fundamental. A dor não foi embora, mas eu passei a não ficar mais chorando 24 horas por dia. Com isso, minha vida com o Leo ficou mais tranqüila, consegui trabalhar melhor, passear de vez em quando e suportar melhor a dificílima rotina de “home care” e saber lidar com um pouco menos de emoção com os desgastes diários desta rotina.

As pessoas sentiram muito a diferença. Só me incomodava um pouco o comentário “como você está bem !”, porque bem eu nunca fiquei e acho que nunca vou ficar, soava estranho, mas fiquei sim artificialmente mais controlada. Estou agora no processo de diminuir para, em seguida, tirar a medicação. Não sei se vai dar certo, tenho MUITO medo. Medo do que tem por trás dessa “máscara” que o remédio pode ter criado em mim. É como se o efeito da anestesia estivesse passando... Mas é um novo capítulo na minha vida. Quero acreditar que vai dar certo. O Felipe precisa que dê certo.

Adelaide e Dr Arnaldo estão comigo até hoje, me acompanhando de perto e tenho a sensação que eles nos trouxeram de volta à vida. Obrigada aos dois !

6 comentários:

  1. Oi Valéria,
    A rotina do home care é dificílima mesmo, só quem vivenciou pode saber...
    O seu texto é lindo.
    Vou indicar seu blog para uma amiga querida que está em uma situação semelhante, ainda no início. Acho que vai ajudar muito.
    Embora não a conheça, você tem minha admiração e meu respeito.
    bjs,
    Juliana.

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  2. Já está dando certo!
    A cada dia que entro aí percebo uma Valéria mais doce, mais tranquila, mais amiga, mais mulher.
    Essa vida corrida que levamos nos impede de perceber nossas mudanças, mas para quem está ao seu lado, não há dúvidas de elas estão acontecendo dia após dia.
    E para quem já passou por obstáculos tão mais difíceis, esse você vai tirar de letra! Tenho certeza!

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  3. Valéria, você é uma pessoa fantástica.Todas as sua colocações são extremamente lúcidas.Pedir e aceitar ajuda não é para qualquer um.Só o fato de saber que Felipão precisa que dê certo já é uma atitude muito centrada.Se a barra voltar a pesar,volte para o remédio.Muitos bjssss e um bem grandão no Felipão.Tia Gizélia

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  4. Valéria, ler o seu blog me faz querer ser uma pessoa melhor na vida. O tamanho do seu coração me assusta. Parabéns pela iniciativa. O medo é normal, mas você vai sair dessa muito forte. Um beijo grande (e eu quero conhecer o Felipe!)

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  5. Adorei o texto!!!! Já tive oportunidade de fazer terapia por um determinado problema que queria resolver. O problema passou e eu continuei com meu terapeuta por 3 anos. Foi sensacional essa experiência. Mas sei que ainda é um tabu para mta gente, pois o ser humano custa a aceitar que por vezes precisa de uma ajuda. Vcs com certeza estão mto bem amparados . Tenho verdadeira admiração pelo trabalho de um psicólogo.

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  6. Família de guerreiros,
    Meu nome é Sergio Seixas - amigo do Dr. Pellon Barra Palace - Fui incentivado a visitar o blog pela D. Helena e fiquei impressionado pela valentia da família, principalmente pelo CAMPEÃO FELIPE.
    Muito sucesso !!
    Sergio Seixas

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