Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O diálogo do Felipe

Não resta dúvida que o que sustenta Leo e Valéria é o imenso amor que têm. Um pelo outro e pelo Felipe. Aos poucos, com muito sofrimento, muitos erros e acertos, quase 3 anos depois, o Felipe é uma criança muito saudável e de semblante maravilhosamente tranquilo. Uma das coisas mais emocionantes que observo na relação entre os 3 é a forma que eles conseguem se comunicar.
O Felipe está sempre “dormindo”. Ele não abre os olhinhos e não tem expressões no rosto. Mas ele “fala” de uma forma muito eloquente todas as suas inquietações. Saem lágrimas dos seus olhinhos ou seu corpinho se enche de placas vermelhas quando ele sente alguma dor ou desconforto. Além disso, ele se espreguiça de formas diferentes dependendo do tipo de contato que se tem com ele. Vou dar um exemplo: eu ADORO o pé-almofadinha dele. Adoro enchê-lo de beijos. Mas ele não gosta! Se encolhe todo me dizendo: “Larga do meu pé!!”. Durante o “fitness” (ele faz fisioterapia duas vezes por dia!), ele vai se soltando, soltando, até ficar todo largado, relaxado. Isso ele adora! O banho é outra coisa que tem esse efeito relaxante. Água morninha, roupinha limpa e cabelinhos penteados e cheirosos são um programa muito apreciado. Por outro lado, quando alguma pessoa que cuida dele é trocada, ele se aborrece. Não gosta. Passa uns dias contrariado até se acostumar. E no caso dele o que é ficar contrariado? Fica com taquicardia, tem soluço, fica todo tenso (o oposto do banho). Essas são só algumas das muitas “palavras” com que o Felipe se comunica com o mundo.
Me lembrei ainda do dia que o Leo passou uns dias viajando a trabalho e, na volta, ao rever e falar com o Felipe, ele ficou com taquicardia. E quando a Valéria chega perto dele cheia de beijos e amassos? Aí, quem não viu tem que ver: é puro nocaute.
Quanto à Valéria e ao Leo, eles sabem ver isso tudo e muito mais. Já nem me espanto mais quando estou perto do Felipe com tudo calmo e, antes que qualquer máquina dê algum alarme, a Valéria já pula pra cima dele para ver o que está acontecendo. O alarme vem sempre em seguida mas esses segundos que ela por instinto aproveitou, são sempre muito importantes e em geral o poupam de algum sofrimento maior. Eles sabem TUDO dele. Estabeleceram uma comunicação particular, diferente mas ao mesmo tempo muito intensa. Na linguagem deles, eles se falam, se confiam e se ajudam. São uma linda família.
Amor não tem limites, barreiras, impedimentos que não possam ser vencidos. Em nome dele tudo se faz. Tudo é possivel. E esses três são um exemplo vivo. São o verdadeiro laboratório do amor, acontecendo ali, todos os dias, sendo construído a cada nova experiência ou dificuldade. Uma lição de vida.

Márcia Dabul

Um comentário:

  1. A Márcia me inibe a escrever no blog...pronto falei!
    Lindos os seus textos, Márcia! Todos super precisos e revestidos do carinho e admiração que tanto temos por essa família!
    Beijos a todos,
    Adriana

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