Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Felipe (Ursinho da titia)

Minha primeira contribuição aqui vai na forma de cartinha pra você. Você que é a razão dessa corrente de amor tão bonita se formar.
Você não nasceu no dia 11 de janeiro de 2007. No meu coração, você nasceu assim que eu soube que estava guardadinho na barriga da sua mãe. Me lembro como se fosse hoje: sua mãe estava com uma calça bege e uma blusinha branca. Contou para todos no trabalho a novidade e foi literalmente um escândalo. Choramos, rimos, nos abraçamos, gritamos. Ali você começou a ser amado.
Sua mãe estava num momento iluminado. Tinha se preparado para a sua chegada. Fez todos os exames possíveis antes de te encomendar para que tudo corresse bem pra você. Seu pai, que naquela época mal conhecia, já me dava a certeza que era uma pessoa especial para sua mãe. Ela estava radiante, feliz, completa.
E assim tudo seguiu nos meses de espera: a barriga crescia, sua mãe estava cada vez mais iluminada, fazendo todos os acompanhamentos possíveis que a medicina oferecia. Ela comia o que era bom pra você (e nós dois sabemos que ela adora comer uma besteira, né? Mas naquela época... não bastava comer as coisas certas: tinha até mês certo pra comer as coisas certas!), fazia os exercícios que eram bons pra você, planejava a vida nova para você. A alegria da sua mãe era tanta que transbordava para nós. Me recordo desse ter sido um período particularmente feliz, até pra mim.
E lá surgia você. A barriga mais “andante” que já vi. Às vezes, falando com a sua mãe, eu via você levar a barriga para a esquerda e para a direita. E os chutes? A gente não sentia... a gente via!!
Aí aconteceu aquilo. Nem quero falar sobre isso. Você sabe de tudo muito bem. Não vou te fazer a pergunta para a qual não temos resposta. Vamos resumir assim: Alguém não fez a sua parte. E isso bastou para alterar tudo, para sempre. Por que, não fez a sua parte? Por que?
Mas vamos em frente. Você estava lá, lindo, cabeludo, pele branquinha, a cara da sua mãe. Mas estava em coma. “Não liga, não! Acorda em dois dias. Isso acontece sempre”. Mas não era assim, uma besterinha passageira, né?
E aí, o mundo ficou cinza. No coração de todo mundo que estava em volta, choveu e trovejou por muitos, muitos meses. Depois de 5 meses de temporal, você saiu do hospital. Você, sua mãe e seu pai. E o que foi chegar em casa... Mais temporal...
Mas esse não foi o fim. Porque, nós dois sabemos, você tem pais muito especiais, não é? Pois debaixo daqueles escombros todos, daquela terra arrasada, eles começaram a ressurrgir. Que nem dois fenix. E ressurgiram. Se reinventaram, reciclaram, reviveram, renasceram. Mas também e principalmente: recasaram e reconstruiram. Tudo de novo. Um ajudando o outro, puxando, empurrando. E a vida começou a seguir. E seguindo, surgiu uma das mais lindas histórias de amor que se poderia imaginar.
E agora, aqui entre nós. Diz pra sua tia a verdade: tem no mundo criança mais gostosa, cheirosa, fashion que você? E o que é essa sua mãe? Aquela que quase desmaiava para tomar vacina de gripe (você não faz idéia o que era esse dia... ele fazia cada papelão...), além de mãe, virou enfermeira, médica, engenheira, perquisadora, inventora. Seu pai, além disso tudo, o rei dos equipamentos. Felipe! Os caras já pesquisaram tudo que existe nesse mundo para você!!!! Até banheira e móveis eles desenharam e mandaram fazer (não que você não mereça, é claro). Mas não é o máximo?
E o que é essa sua casa? É um movimento danado de gente entrando e saindo o dia todo: é turma do home care, médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, avós, tios, etc., etc, etc e... mais etc. Mas , vou te confessar: adoro passar por aí para te dar “uns cheiros”. Essa casa tem um astral tão, tão bom! É tão bom te encontrar cada dia com uma roupinha mais lindona, sentadinho naquele seu carrinho todo cheio de coisas, parecendo um príncipe cheiroso!
Agora sua mãe vem com esse blog. Sabe o que vai acontecer? Ela vai contar para todo mundo as invenções e descobertas dela. Vai achar uma porção de Ursinhos por aí e vai trocar idéias, experiências. O chato é que vai ter mais gente querendo te conhecer, ir na sua casa, te dar beijocas. Já estou com ciúmes.
Mas sabe o que se Deus quiser você, seus pais e esse blog vão conseguir? Ajudar a fazer parar de chover na vida de muita gente e deixar entrar o sol. O sol da esperança e do amor que transborda na sua casa!
Adoooooooro você, meu Ursinho!!!

Beijos,

Tia Márcia Dabul

3 comentários:

  1. Márcia, Márcia... sua sintonia conosco sempre me impressiona. Você tem uma coisa raríssima nessa jornada, que é sempre achar o "tom certo". Sua simples presença sempre me deu conforto e aconchego, mesmo antes da chegada do nosso anjinho de catupiry. Bom demais ter você, Nelson, Bê e Zazá em nossas vidas.
    Beijos,
    Leo

    ResponderExcluir
  2. Tia Aline Loja
    Fiquei sabendo desse blog, estava andando na rua com minha irmã e a Valéria ligou avisando pra ela que tinha feito um blog, achei super interessante, fiquei super feliz em saber da atitude de vcs ao expor suas vidas e do Felipe, e que isso possa ajudar muita gente que esteja passando por sofrimentos parecidos e tbm uma forma de vcs verem o carinho que todos tem por ele. Fui fisioterapeuta do Felipe, pelo Home Care por um 1 ano, mais ou menos. Eu e mais outras profissionais da fisioterapia, realmente a história do Felipe e de deixar qualquer pessoa impressionada e triste. Por muitas vezes vi o sofrimento da Valéria e do Leonardo, o corre corre do trabalho para casa e os estresses do dia a dia, não é facil ver sua casa cheia de gente pra lá e pra cá, tirando completamente a privacidade e rotina da família. O quarto do Felipe era uma paz, uma tranquilidade, um quarto lindinho,alegre, cheio de bichinhos(lembro que ficava encantada com cada um deles) e com aquelas musiquinhas que eu adorava. E as roupinhas dele, era uma mais linda que a outra, nunca vi criança mais bem arrumada que o Felipe.
    Valeria e Leonardo, admiro a força que vcs tem, e o amor incondicional pelo Felipe, confesso que fiquei muito emocionada com as palavras de todos aqui no blog, parabéns pela iniciativa e pela coragem. Não atendo mais o Felipe, mas nunca vou esquece-lo, tenho um carinho enorme por ele. Guardo comigo a foto que tenho com ele, a lembrancinha do batizado e os momentos em que estive aí.
    Um super beijo
    tia Aline

    ResponderExcluir
  3. Chorei, chorei e chorei... Que narrativa linda! Estou conhecendo o blog agora e vou ler tudo! Felicidades a vocês que são previlegiados em terem consigo este ursinho iluminado de nome Felipe. Um beijo no coração!

    ResponderExcluir