Meu nome é Valéria Pellon. Minha vida com meu marido Leonardo foi atropelada por uma grande injustiça: em 11 de janeiro de 2007, Felipe, nosso anjinho tão esperado, nasceu em um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro e, em função de negligência médica, sofreu lesões cerebrais irreversíveis durante o parto, em decorrência de asfixia. Após 5 meses internado na UTI veio pra casa com "home-care", como viveu até 11 de novembro de 2010, em estado vegetativo. Este blog é uma forma de "gritar" o nosso sofrimento e mostrar como o amor salva nossas vidas e nos faz sobreviver, a cada dia.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

Hoje fui andar na praia (carta para a Valéria em 01/Ago/07)

Olá amigos, eu sou o Leo, O Pai do Felipe. Esta é uma carta que escrevi para a Valéria em 01/Ago/07. Felipe tinha 6 meses e estava há pouco mais de 1 mês em casa. Precisei de alguma coragem (e falta de vergonha) para postá-la. Mas achei legal compartilhar, para que aos poucos conheçam nosso universo. Além dela, só nossa terapeuta conhecia esse texto. Muita coisa mudou desta época pra cá. O sofrimento não diminuiu, mas aprendemos a lidar com ele. Roger Waters e David Gilmour chamam isso de Comfortably Numb. Aí vai:

Hoje fui andar na praia
Fazia tempo que não via o mar ou sentia o cheiro da maresia. Depois de almoçar fui rever o lugar onde apesar das adversidades fomos muito felizes, onde nos conhecemos, onde aprendemos a nos respeitar e onde fizemos nossos mais lindos planos. Estava tudo lá, o Morro Dois Irmãos, a Barraca da Neuza, as ilhas, Ipanema, Jardim de Alá, Arpoador, surfistas, gente se bronzeando, frescobol, rodas de altinho, volleyball, bicicletas, gente correndo, enfim, tudo como nós deixamos. Menos a felicidade, ela não estava mais lá. Não preciso dizer que as lágrimas vieram. A coisa piorou quando lembrei do sujeito que vi no espelho hoje de manhã enquanto me barbeava: um velho! Um cara sem vitalidade, sem alegria, com dificuldades para sorrir e para amar, com uma fraqueza sem tamanho, impotente, um derrotado.
Eu sabia que o resultado do passeio seria esse, mas inexplicavelmente eu queria passar por isso. É mais ou menos como enfiar a cabeça no bueiro para ver como estão as coisas por lá.
Para sofrer mais um pouco, na volta fiz questão de passar pelo Jobi. Não consegui nem pensar em tomar um chope, afinal nem você nem o Lenine estavam lá. Eu só vi lembranças e senti uma saudade danada da felicidade, do nosso amor daquela época, dos nossos corpos suados da praia ou de uma bela corrida, esperando chegarmos em casa para tomarmos banho juntos e rirmos o resto do dia.
Hora de voltar para o trabalho, no elevador tocava Relicário, meu Deus que sacanagem! Ainda bem que estava sozinho. E em mais uma tentativa de fazer as coisas como sempre faço, dei uma olhada no espelho do elevador pra checar a aparência. Que susto! Aquele velho que vi de manhã parecia ter ganhado mais uns 10 anos. Será que esse sofrimento vai ter fim? Que medo ...

Te peço um milhão de desculpas por te contar essas coisas agora, sei que também fiz você chorar. Mas a tristeza está transbordando e só você no mundo pode entender o que estou sentindo.

Te amo sempre!


9 comentários:

  1. Fui surpreendida hoje com esse blog da Valéria e Leo. A carta do Leo me emocionou mais ainda do que já ando emocionada. Tenho sofrido com eles todo o drama do Felipe que é uma criança linda mas injustiçada com o problema do parto.Sempre quis que essa história fosse conhecida ,pelo menos, para fazer justiça ao meu querido e amado
    netinho, pois sou a mãe da Valéria.

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  2. Parabéns para vocês dois por estarem seguindo em frente, realizando juntos essa catarse!
    Esse blog será, sem dúvida, um eficente terapeuta...
    Que suas caminhadas na praia sejam cada vez mais leves, mais prazerosas. Você e Valéria merecem.

    Com carinho,
    A outra Valéria

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  3. Ao receber a notícia do blog via e-mail vim aqui correndo... E ao ler a carta... impossível não chorar, e muito! Apesar de estar junto com vocês nessa caminhada há 1 ano e pouco, foram muitas as vezes que a criança mais linda desse mundo (o xodó da titia) esteve no meu colo! Também foram muitas as vezes que olhando pra ele no meu colo, sorri depois de ter chorado uma noite inteira! O corpo dele entregue às minhas mãos e aos meus braços me fazem acreditar que ser fisioterapeuta é mais que uma técnica. É amar o ser humano e agradecê-lo todos os dias por te proporcionar momentos de tanta felicidade! Estou e estarei ao lado de vocês três sempre! E tenham a certeza que diante de tantas dúvidas durante a minha vida profissional, o meu Xodó, sempre foi quem não me fez desistir!
    Adoro vocês!

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  4. O olho aqui enxeu de água já lendo isso . Acho importante terem tomado essa atitude de fazer um blog , e quem sabe isso um dia vire um livro ?
    Uma história como essa não poderia ficar em anonimato , o mundo precisa saber , o que um erro médico é capaz de fazer no futuro de um recém nascido . Mesmo sabendo que a dor de vocês , é tão de vocês que eu não consigo imaginar uma só pontinha , tomo pra mim uma parte e rezo todos os dias pra isso um dia acabar, e eu sei que vai. Acho que a melhor forma de superar a dor , é aceitá-la , conhece-la , para saber enfrentar , e é isso que vocês estão fazendo . Irei divulgar o blog pro máximo de pessoas que puder . Com amor , Íris !

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  5. Não podia acreditar que estava vendo pelo vidro do berçario aquela correria com um recém-nascido enquanto esperava ver o meu neto Felipe, tão ansiosamente esperado. Dias antes ele chutava a barriga da Valéria para a gente sentir a sua ansiedade em estar conosco. Foi muito amado e festejado desde o primeiro dia em que soubemos que estava a caminho. Mas, como nos contos das bruxas más, alguém não alcançou a responsabilidade de proporcionar aos meus filhos, a nossas famílias e a enormidade de amigos a companhia de uma criança gerada com saúde e esperada com muito amor. E aconteceu o que não era para acontecer. O Felipe sofreu lesão cerebral por falta de oxigenação ao nascer, nos minutos finais do parto, por....”seria coisa de bruxa?”. Mas o que importa é que ele continua amado, lindo, cheiroso e que a Valéria e o Leonardo estão cada dia mais conscientes que o sentido da vida pode nos pregar peças, mas que somos fortes o bastante para seguir adiante. Vó Magá.

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  6. Hoje recebi email de uma amiga, vovó Helena, convindando para conhecer o blog. Somos amigas através de nossos maridos,ainda no tempo da Petrobrás.
    Quanta coragem e determinação a de vocês!!!
    Que sorte a do Felipe de ter, como estrelinha que era, "caido" nessa família especial com amor de sobra para fazê-lo brilhar e espalhar sua luz aos que acompanham sua luta.
    Cada dia uma conquista,um ensinamento.
    Valéria, como o Leo ama você!!!
    Muitas vezes precisamos nos permitir chorar e sofrer tudo, para voltarmos mais fortes.
    Deixo aqui o meu carinhoso abraço e um beijinho nesse " ursinho" lindo que está conseguindo,mesmo com o seu silêncio,unir a todos nessa mesma corrente de amor, amizade e muito, muito carinho.
    Carinhosamente, Maria Lucia.

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  7. Que generosidade a de vocês, em compartilhar essa carta e as suas vidas!Sou amiga da Geni e do João e sempre torci por vocês, apesar de não conhecê-los. Desejo tudo de bom!

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  8. Existe explicaçoes para "N" coisas,mas vivi dois anos e dois meses buscando uma explicaçao e...Descobri que verdadeiramente somos limitados no entendimento...porem ilimitados no amor...
    Felipe vc me ensinou muito,e a força que tenho hoje para lutar,eu devo a vc,um beijinho,tia Dagmar

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